É Apenas o Fim do Mundo

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19 de outubro de 2016

No primeiro lugar do pódio de queridinhos do Festival de Cannes, o cineasta canadense Xavier Dolan está cada vez mais em destaque no cenário contemporâneo do cinema de arte. Aos 19 anos, recebeu tratamento de prodígio ao apresentar na Croisette o longa “Eu Matei Minha Mãe” (2009), exibido e premiado na Quinzena dos Realizadores. No ano seguinte com “Amores Imaginários” (2010), e em 2012 com “Laurence Anyways”, voltou a atrair a atenção, mas dessa vez entre os selecionados da mostra Un Certain Regard. Após um breve hiato, na edição de 2014 da premiação francesa, “Mommy” alavancou ainda mais a carreira de Dolan ao conquistar o Grand Prix do Júri. Autor de filmes que primam por uma estética púbere quase “videoclíptica”, gerando uma miscelânea de inspirações organizada por um jovem consumidor de muita cultura, Xavier Dolan vem associando seus filmes aos mesmos temas, como relações familiares disfuncionais, com principal obsessão pela figura materna, e particularidades que envolvem o universo homossexual. Mais uma vez restrito ao trabalho por trás das câmeras — o último filme no qual atuou foi “Tom na Fazenda” —, Dolan dirige integrantes da nata do cinema francês no filme “É Apenas o Fim do Mundo”. O embate constante de Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Garpard Ulliel e Nathalie Baye, em clima claustrofóbico, rendeu ao cineasta mais um prestígio em Cannes: o Grande Prêmio do Júri, pela segunda vez.

Baseado na peça homônima de Jean-Luc Lagarce, “É Apenas o Fim do Mundo” tem como ponto de partida a difícil decisão do escritor Louis (Gaspard Ulliel) — voltar para a casa da família, e para um inevitável julgamento dos parentes, com a difícil tarefa de anunciar sua morte iminente. Concluída a viagem de regresso, Luis descobre que o efeito do tempo é implacável com as fisionomias, mas os ressentimentos, explosivos, continuam como ele imaginava. Logo de cara, é claro o distanciamento da mãe (Nathalie Baye), ocupada demais com a própria aparência. A vaidade excessiva, quase risível, é indício de egocentrismo. Suzanne (Léa Seydoux), irmã do escritor, não é mais aquela criança guardada na memória, tornou-se uma linda jovem sem objetivos claros, perdida naquela realidade estagnada. O mais contundente de todos é o primogênito Antoine (Vincent Cassel). Irritadiço, ele não perde a oportunidade de transformar frustrações em palavras de ofensa que não poupam ninguém, nem mesmo sua esposa Catherine (Marion Cotillard), mulher que apresenta certo recato ao evitar o enfrentamento.

Com estrutura teatral de filmagem, “É Apenas o Fim do Mundo” revela-se um poderoso espetáculo de histeria, de discussões aos berros em interações caóticas. Um incômodo que agrada pela natureza humana. A sensação de claustrofobia transmitida pela película, quase toda desenrolada no mesmo espaço, a residência da família, é reforçada por closes frequentes, até invasivos, nos rostos dos personagens. Para compor o ambiente de sufocamento, o verão é ideal e faz com que o suor seja um integrante vital da caracterização do elenco. A temperatura, escaldante, ferve as emoções. No atrito entre os familiares, com poucos momentos de escape como os flashbacks de Louis, o rancor é a palavra-chave. Em “É Apenas o Fim do Mundo”, o deslumbre visual vai além do amálgama de influências, do ímpeto da juventude do realizador canadense — a direção de atores, firme na extração de todo o potencial dramático de grandes talentos, tornou-se aqui principal atração e habilidade incontestável de Xavier Dolan; apenas um garoto, com um longo caminho pela frente.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Juste la fin du monde, Canadá / França, 2016, 97’

Xavier Dolan

Elenco: Léa Seydoux, Marion Cotillard, Vincent Cassel, Nathalie Baye, Gaspard Ulliel.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5