E Se a Rua Beale Falasse (20° Festival do Rio)

Lirismo em cores da memória viva

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05 de novembro de 2018

20° Festival do Rio l Rio de Janeiro Int’l Film Festival:

“Se a Rua Beale Falasse” de Barry Jenkins, mesmo diretor do oscarizado “Moonlight”, é romance assumido com luzes quentes de paixão e gostinho amargo do atropelo da vida no fundo do céu da boca… Possui uma estrutura narrativa quase dividida em três atos, nem tão delineados como em “Moonlight”, com um primeiro arco simplesmente BRILHANTE entre a pantomima teatral que não sai de um único cômodo com as famílias do casal de protagonistas, num jogo de cena impecável, e entremeado por montagens líricas em flashbacks.

Não é perfeito, mas nem precisava ser, pois são suas arestas e pontos soltos intencionais que mais ancoram seu pé no chão em meio à suspensão da realidade que significa um romance maior do que a vida nos tempos de hoje… A palheta de cores calorosas ora puxada para o amarelo gema e o vermelho sangue, ainda que preservado o azul nos tons de jeans surrados e no verde musgo, vem a se opor à gama cromática de “Moonlight” que pendia para o lilás e violeta, justamente para inverter a polaridade da memória, outrora suprimida nos recônditos frios da mágoa e da superação e ora à flor da pele do agora e da paixão que se quer resgatar.

Apesar de o elenco de apoio roubar cenas direto, especialmente Teyonah Parris, Regina King e Colman Domingo, ainda assim o casal de protagonistas Stephan James e KiKi Layne está muito bem, especialmente nos olhares em que beiram quebrar a quarta parede por não poderem ser contidos pela câmera e seu amor atemporal atravessar paredes e o tempo do espectador, precisando transbordar a câmera num estilo apenas um pouco menos confessional do que o mestre Spike Lee, a quem Barry alude bastante neste exemplar. Não que o diretor tenha abandonado as referências confessas aos outros ídolos como Wong Kar Wai, mas a verdadeira bússula aqui é o escritor James Baldwin, de quem adapta a obra para o roteiro deste filme. Para quem viu o documentário de Raoul Peck “Eu Não Sou Seu Negro”, especialmente calcado na verve e escritos de James Baldwin, vai mergulhar forte no poder narrativo de ambientação sensorial aqui, regado à trilha de jazz que engrandece a trama como um romance épico merece e precisa.

Editado e atualizado:

Eu queria muito desenvolver mais o texto para incluir as analogias com o singelamente belo primeiro longa-metragem de Barry, “Medicine for Melancholy” (jamais lançado no cinema brasileiro), mas não havia conseguido ainda por causa da correria do Festival.

Mas queria muito dialogar com o que algumas pessoas saíram do “E se a Rua Beale Falasse” comparando/vinculando a avaliação deste a 2 reducionismos:

1) Que a trilha sonora embebida no jazz é uma ironia dando o troco em “La La Land”… Porém, acho que reduzir a isso é acreditar que Barry não seja muito maior do que isso, e é. Se ele quisesse faria um musical, o que ele dispensou, evidentemente.

2) Teve gente também que saiu dizendo que Barry teria referenciado (“copiado”) mais do que nunca do cineasta Wong Kar-Wai…Mas….Barry JAMAIS negou se deixar influenciar pelo ídolo, e seu novo filme almeja e alcança uma dramaturgia para outras polaridades que em filmes de Kar-Wai como “Amor à Flor da Pele”, por exemplo.

O que o “Medicina para Melancolia” comprova, como primeiro trabalho de Jenkins para o cinema, é uma evolução de cores que se destacam e individualizam no corpo identitário de uma obra própria para Barry. O fato de seu primeiro filme ter sido todo trabalhado em uma cor desbotada, “lavada”, quase em P&B (mas não totalmente, pois a referência vai mais para a cor ‘lavanda’), e seu segundo filme assumir as cores frias entre violeta e magenta, fazem com que a inversão de calores e aquecimento na tabula referencial encaixem a nova obra numa verdadeira trilogia evolutiva. E não apenas na direção de arte, como nos enquadramentos, os entrelaçamentos de corpos (ligados sempre por uma âncora de quadro como um guarda-chuva vermelho vivo, um poste de rua iluminado em sépia no reflexo da poça d’água após a chuva ou na mesa de jantar onde as pessoas se reunem no mesmo plano e contraplano para atualizar o que aconteceu no cansaço do dia).

Tudo isto principalmente se colocado lado a lado em escala ascendente de temperaturas do primeiro ao mais recente filme de Barry. Um cineasta com voz própria e lugar de fala das cores do coração.

PS. Vale apenas fazer um adendo de como americanos em geral ainda possuem uma dificuldade muito grande em representar os latinos no território dos EUA, mesmo com todo o avanço que Barry alcance na representação do protagonismo negro dentre a luta afirmativa pelas minorias americanas. Há até uma boa participação do ator mexicano Diego Luna para triangular as amizades do protagonista, um bom exemplo positivode personagem latino, mas ao mesmo tempo o principal ponto de tensão da trama advirá da veracidade ou não do testemunho de uma mulher latina, o que amplia a dificuldade de se lidar não apenas com personagens latinos, mas especialmente com mulheres latinas (apesar de uma cena que admite e escancara isso entre a personagem latina na pele de Emily Rios e a mãe da protagonista vivida por Regina King).

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