Éden

Ópio do Povo

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04 de maio de 2017

Não, não estamos falando do sucesso homônimo de dois anos atrás, filme sobre o universo da noite e dos DJs dirigido por uma das grandes mestras do cinema francês atual: Mia Hansen-Løve. Este “Éden” de Bruno Safadi é nosso, inteiramente brasileiro, não apenas por sua produção, como pela urgência do tema intimamente ligado ao cotidiano de nossos jornais e TVs.

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Sem falar que representa o estandarte do melhor naipe de cinema que estamos realizando no país, de cunho independente e criativamente livre para fazer críticas sociais sem amarras publicitárias, multipremiado como com troféu de melhor atriz para Leandra Leal no Festival do Rio e de Gramado, bem como melhor som para Edson Secco neste último. Conta ainda com um elenco de ouro, que surfa entre as ondas de grandes a pequenas produções, com cunho cênico autoral e que agregam valores artísticos próprios, individualmente e em conjunto: João Miguel (“Estômago”; “Cinema, Aspirinas e Urubus”); Júlio Andrade (“Redemoinho”) e, claro, a estrela incandescente do cinema autoral brasileiro Leandra Leal (de um dos maiores cults da década: “O Lobo Atrás da Porta”, além de ser provavelmente a mais prolífica artista da tela grande ao lado de Irandhir Santos. – Cadê o longa que irá reunir esses dois totens, hein leitores?).

Lendo-se apenas a sinopse, sobre uma viúva grávida acolhida por um grupo religioso que usará sua imagem para ganhar poder midiático, o filme pode levar os incautos a sentir similaridade com nossa política recente, a qual anda desafiando a cláusula pétrea da Constituição Federal em se ter um Estado Laico, independente de Igrejas e Religiões. Porém esta obra é muito mais do que apenas sobre estas questões aparentes aos olhos nus. E aí sim talvez seja difícil encarar nossa sociedade quando estamos nus… o que é um dos grandes trunfos de Bruno Safadi. Pois mais do que falar de “religião” como tabu, o texto escrito pelo próprio diretor é sobre ignorância. Não ignorância individual, e sim coletiva, que pelo efeito da sociologia denominado de “mob” analisa o conjunto de seres humanos com o efeito de gado, de manada, quando todos podem ser mais suscetíveis a comandos de massa que retira a individualidade do cidadão. Às vezes esta ignorância é utilizada para dar (suposto) conforto, como no bordão “Santa Ignorância”, tentando limitar o ‘peso’ do mundo em conhecimentos restritos, quando que o problema não está na quantidade que a pessoa decide suportar do fardo de conhecimento e sim na liberdade que deve ser dada para que a pessoa decida. De restrito passa a ser restritivo. Esta linha tênue e quase invisível para a parte dentro do todo e como ela é manipulada por instituições totalizantes é a matéria-prima política do filme.

O título “Éden” se refere não apenas à nomeação territorial onde se passa a história, no subdistrito homônimo do Município de São João de Meriti, com um abismo social de abandono estatal, como éden sinônimo de paraíso, almejado pelos personagens que sofrem nas mãos de quem deveriam salvá-los. Isto porque não se está dizendo que toda pessoa que ascende hierarquicamente ao poder na sociedade estaria predisposta a se aproveitar do cidadão, mas isto é uma tentação disponível na consciência de cada um, consciência esta relativizada quando indivíduos viram instituições distantes do que lhes humanizava.

E é a personagem de Leandra Leal, construída em ângulos fechados e intimistas de extrema e rara cumplicidade com seu diretor (parceria que já rendeu inúmeros filmes, como o exuberante “O Uivo da Gaita” no Projeto Sonia Silk), que expõe e vulnerabiliza ao máximo suas microexpressões e sentimentos no olhar, nos gestos, e isola cada enquadramento como se resgatasse que a fé talvez seja uma questão de foro íntimo, relativa apenas àquela alma em close. Perfeita contraposição ante a construção de João Miguel como o pastor autoembevecido pela corrupção de sua força de influência, capturado pelo outro lado da moeda opressora dos super closes, quase atravessando a tela e invadindo o espectador.

Este conto social de denúncia está longe de ser distópico, e poderia ocorrer em qualquer lugar mais próximo do que imaginamos nossa própria ignorância, especialmente agora que instituições declaradamente religiosas, que vão além deste foro íntimo e exercem sua força de influência ativamente, ocupam inúmeros cargos altíssimos no governo e se envolveram diretamente com membros dos escândalos atuais, do nível do ex-presidente da Câmara dos Deputados recém-afastado, e de certo futuro candidato à presidência do país…

E, como prova das políticas públicas que são a favor do mercado e não necessariamente do cinema, um filme originalmente de 2012, quando estreou em Festivais Brasileiros e Internacionais, só agora em 2017 está estreando no circuito de telas grandes, como merece uma obra inteiramente filmada em película pelo grande diretor de fotografia Lula Carvalho.