Eden

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07 de abril de 2015

O filme “Eden” de Mia Hansen-Løve leva aos cinemas a febre da “French House”, uma vertente da música eletrônica que teve grande aderência na França durante a década de 1990. Do movimento, como retratado na trama, nasceu o mundialmente famoso Daft Punk, composto pelos mascarados Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter. A cineasta parisiense obteve inspiração por meio de uma fonte bem próxima. O irmão de Mia, Sven Hansen-Løve, corroteirista de “Eden”, é DJ e formou na carreira uma dupla chamada Cheers, nome emprestado ao fio condutor do filme, o duo ficcional integrado por Paul (Félix de Givry) e Stan (Hugo Conzelmann). No longa, Paul repudia a ideia de uma vida comum, para a indignação familiar, e resolve seguir um caminho na contramão para viver exclusivamente do som que produzir. “Eden” é, além de homenagem a um estilo musical em geral pouco comentado, um filme de profusão. Obra de muitos personagens, de muitos anos compactados em aproximadamente 130 minutos ― uma característica que abre espaço para outro excesso inevitável: as elipses. Diante do turbilhão de situações encabeçadas pelo protagonista Paul, há a armadilha que deixa o filme sujeito a resvalar no superficial. Mia Hansen-Løve, querendo mostrar o máximo possível, acaba esquecendo a profundidade no percurso.

Eden4A dedicação musical do filme é uma qualidade louvável. É o roteiro a serviço da trilha sonora, e não o contrário. As cenas da pista de dança são muito bem desenvolvidas e conseguem contagiar, imergindo o espectador no clima de curtição. Ao leitor, fica a dica de não estranhar a vontade de se mexer mais do que o habitual na poltrona do cinema. No entanto, tal empolgação tem o seu revés quando o foco da câmera muda para os momentos nos quais Paul não está discotecando. Quando o filme resolve preencher a tela com passagens do cotidiano, as imagens não parecem tão vigorosas quanto as sequências de noitada. Os anos de Paul, marcados por hedonismo e fanatismo, passam diante dos olhos sem deixar um marco ou algo que estreite a distância entre personagem e espectador. Fica a sensação de que conhecemos a paixão de Paul, aquilo que o move, mas ainda assim falta intimidade.

Eden1O arco de ascensão e queda é desenvolvido de forma bastante peculiar, a lente da cineasta despreza a intensidade, seja nas situações de alegria ou de dor, na trajetória da vida de Paul. Como resultado, a ascensão deixa uma dívida com o ânimo e a queda não parece assim tão dolorosa. O silêncio, a música enfim cessa em um choque de realidade, e as letras de uma poesia incorporadas na imagem, Paul em contato com o ritmo lento das palavras, são decisões acertadas de Mia Hansen-Løve nos segundos finais. Um ponto final carregado de sobriedade.


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