Egum

O terror do racismo mata dentro e fora do cinema

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30 de janeiro de 2020

Na noite de terça-feira do dia 28 de janeiro, o público da 23° Mostra de Cinema de Tiradentes pôde conferir a 2° Seção da Mostra Foco, principal competição nacional de curtas no Festival, que abordaram a pluralidade de olhares, estéticas, questões afirmativas e linguagens do cinema atual. Foram eles: “Egum” de Yuri Costa, “Cinema Contemporâneo” de Felipe André Silva; “Estamos Todos na Sarjeta, Mas alguns de nós olham as estrelas” de João Marcos de Almeida e Sérgio Silva e “Mansão do Amor” de Renata Pinheiro. Esta seção por enquanto foi a favorita deste que vos escreve em relação aos curtas na competição principal, tanto como harmonização das escolhas dentro do bloco, como pelo valor e provocação individual que os filmes agregaram uns aos outros.

“Egum” de Yuri Costa começa apresentando uma citação a Franz Fanon, renomado e saudoso psiquiatra francês da Martinica, de ascendência francesa e africana, que teorizou em livros como “Pele Negra, Máscaras Brancas” sobre a negação do racismo pelos brancos contra os negros. Esta citação é chave para dialogar sobre a opressão branca que vai cercar a casa da família do protagonista, quando na ocasião da visita do filho pródigo que à casa retorna…

O uso da lei do eterno retorno aqui é para criar um manancial de referências e opressões traumáticas que não deixam de existir na base de uma identidade negra, mas também todos os símbolos de resistência que sobrevém a isto por eras de luta e perseverança da sua cultura. Ao mesmo tempo que a avó materna representa a figura de uma griot (pessoa mais velha responsável por transmitir os ensinamentos espirituais), a própria mãe do personagem parece possuída por espíritos de modo sobrenatural, mas cujo assombro vem mais para alertar e proteger do que as reais ameaças advindo lá fora — especialmente na questão essencial de estar cercada por outras mulheres negras em alento e acolhimento, imagem importante que vem sendo reiterada com potência política em alguns filmes da Mostra como “Minha História é Outra” de Mariana Campos e “A Mulher que eu era” de Karen Suzane.

A perseguição branca é corporificada por uma boa direção de atores que conseguiu personificar o estado de paranoia que a sociedade vive atualmente, e, mesmo sem enunciar quaisquer instituições que eles representem, acaba simbolizando várias das que hoje em dia são usadas pelo governo de forma lobotomizante (como certos líderes evangélicos que usurparam do poder político atual e não fazem por merecer seus fiéis).

Ao mesmo tempo, a linguagem cinematográfica é bem utilizada de acordo com a proposta, com fortes elementos de gênero e de horror psicológico, como do estilo “cabin fever” (febre na cabana) — o que para a cultura em questão ganha todo um outro significado. Além disso, como o estado de paranoia vai se ampliando na atuação e gestual, cria-se uma inteligente câmera em close com uma dramaturgia bastante facial, com muitos enquadramentos fechados bastante interessantes que priorizam a boca e os lábios para enunciar o que precisa ser dito: o terror do racismo existe e mata!