El Ardor

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06 de outubro de 2014

Um princípio crucial da tensão geopolítica, a relação entre poder e espaço geográfico, é um elemento fundamental do cerne de “El Ardor”, o novo filme de Pablo Fendrik embasado em um roteiro de estrutura cinematográfica anacrônica. Na trama, ambientada em uma selva fronteiriça, Gael García Bernal interpreta Kaí, um misterioso homem que emerge da floresta como espécie de enviado para proteger uma família local em tempos crise. A ameaça é externa e surge sob a forma de malfeitores destinados a arrebatar a propriedade do fazendeiro (Chico Díaz), pai da moça (Alice Braga) que imediatamente encanta Kaí.

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A simbiose entre homem e a natureza, com o toque de misticismo na composição do personagem de Bernal, um nativo que parece ter a própria sobrevivência auxiliada por uma ligação espiritual com o ambiente que o envolve, é uma interessante faceta do filme que acaba caindo na esparrela da falta de originalidade. A trajetória dos personagens é desenvolvida com simplicidade preguiçosa ― como ponto de partida, a mocinha é raptada pelos bandidos que impiedosamente tiram o seu pai da jogada. O mocinho só tem uma saída possível, começar a caçada em busca de justiça.

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Em “El Ardor”, representante verde e amarelo no último Festival de Cannes já que o longa é uma co-produção brasileira e argentina, a abordagem de um invasor externo que traz matança e desarraigamento chama a atenção por seu paralelismo com o conceito colonialista. Lamentavelmente, o filme prioriza a palidez da relação amorosa dos protagonistas, um envolvimento pouco ardente que parece incluso na narrativa por pura obediência a uma cartilha, em detrimento desse sentido histórico proposto nas entrelinhas. Assumidamente de gênero, um western amazônico, o desfecho de “El Ardor” é marcado pelo olho no olho e armas em punho até a vitória do mais rápido no gatilho. Uma caricatura do clássico enfrentamento do gênero.

Festival do Rio 2014 – Mostra Première Brasil Hors Concours

El Ardor

Brasil – Argentina – México – Estados Unidos, 2014; 90 minutos

Direção: Pablo Fendrik

Com: Gael García Bernal, Alice Braga, Chico Diaz, Claudio Tolcachir, Jorge Sesán

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 2