Eles Só Usam Black Tie

Longa de estreia do sul-africano Sibs Shongwe-La Merfica perdido no meio do caminho

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09 de março de 2017

Os períodos do Apartheid e pós-Apartheid são temas recorrentes no cinema sul-africano, não apenas os conflitos raciais como também suas consequências históricas. “Eles Só Usam Black Tie”, primeiro longa-metragem escrito, dirigido e estrelado por Sibs Shongwe-La Mer, é mais um exemplar que retrata a África do Sul pós-Apartheid, porém sob o ponto de visto de jovens de classe alta, brancos e negros, em vez de jovens de classe baixa, como é mais comum. Ambientada em Joanesburgo, a trama acompanha um grupo de jovens de classes média e alta, ainda abalados com o suicídio da amiga Emily (Kelly Bates), transmitido ao vivo na internet um ano antes. Com destaque para Jabz (Bonko Cosmo) e September (o próprio Shongwe-La Mer), os jovens tentam lidar com a tragédia e seguem suas vidas em busca de respostas através de drogas, álcool e sexo, enquanto discutem assuntos como política, raça e sexualidade.

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Quase aproximando-se de um documentário em alguns momentos, o longa apresenta cada um dos personagens mais importantes com o nome em vermelho em caixa alta como se fossem capítulos de uma história, contrastando com a bela fotografia em preto e branco de Chuanne Blofield, e mostra a forma como estão lidando com a morte de Emily, que surge em alguns flashbacks coloridos. Depoimentos individuais dados a uma equipe de filmagem que supostamente investiga o suicídio se alternam a diálogos entre os personagens e monólogos sobre o cenário social da juventude atual, da cidade e do país. O título original “Necktie Youth” (em tradução livre, juventude de gravata) faz alusão ao abastamento destes jovens, assim como ao fato deles se sentirem ‘enforcados’ pelas pressões sociais e também ao suicídio por enforcamento. É normal que a primeira geração de jovens pós-Apartheid sofra uma enorme pressão para transformar o país e construir um novo futuro, mas eles não conseguem lidar com isso e não ter uma figura forte de liderança como Nelson Mandela agrava ainda mais o quadro de incertezas e desorientação.

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 “Eles Só Usam Black Tie” é o retrato de uma juventude entediada e perdida, com um imenso vazio existencial que tenta desesperadamente preencher com festas, sexo, álcool e drogas. O roteiro de Shongwe-La Mer tenta ser profundo e filosófico, mas acaba sendo confuso e sem um propósito claro – parece que o cineasta está tão perdido quanto os personagens que retrata (e interpreta). Há também excesso de personagens, denotando uma falta de foco e contribuindo para que o espectador fique perdido na trama. Apesar de o filme levantar algumas questões e reflexões importantes que dizem respeito a jovens do mundo inteiro, a tentativa de Shongwe-La Mer de criar um longa conceitual que flerta com o poético não foi tão bem sucedida. A escolha de um final fatalista surge como desespero num beco sem saída onde todos os personagens – incluindo o diretor – se encontram e parecem não ter criatividade para sair.

 

Eles Só Usam Black Tie (Necktie Youth)

África do Sul / Holanda – 2015. 86 minutos.

Direção: Sibs Shongwe-La Mer

Com: Bonko Cosmo, Sibs Shongwe-La Mer, Colleen Balchin, Kamogelo Moloi, Jonathan Young, Kelly Bates, Ricci-Lee Kalish, Giovanna Winetzki e Emma Tollman.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3