Ella & John

Tocante sem ser piegas

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05 de abril de 2018

Em primeiro lugar, recomenda-se desprendimento e compreensão de que filmes tipicamente crepusculares, sobre o envelhecer e a proximidade da morte, não devem ser encarados de forma alguma como restritos a públicos apenas mais velhos. Eles costumam perpassar metáforas sobre a ambivalência resiliente e ao mesmo tempo fugaz da idade posta à prova, que engloba catarses para todas as gerações, além de direitos que se descobrem eternos, independente da idade em que se esteja. Direito à memória, à autonomia… ou mesmo a questões mais específicas de vida ou morte, como o direito à eutanásia, que mesmo os jovens podem passar um dia.

“The Leisure Seeker” ou, numa tradução livre, “caçadores de lazer”, que ganhou o título no Brasil de “Ella & John”, poderia ser apenas mais um filme doce sobre um casal na terceira idade que encontra alegrias e agruras numa viagem de redescobertas, como um nicho de filmes ‘feel good’ anda se especializando fazer. Mas a surpresa deste exemplar afora do cinema de gênero, que usa e abusa de sutilezas cômicas na construção dramática, talvez resida na incrível seriedade com que o casal de protagonistas segura as rédeas do filme, e emprega uma química magnética daquelas que marca quando um par de artistas acerta em cheio na tela: Helen Mirren e Donald Sutherland. Acrescido da experiência de seu diretor Paolo Virzì em destrinchar relações familiares de formas pouco usuais, como na boa tensão com múltiplos pontos de vista de “Capital Humano” ou na dramédia de road movie de “Loucas de Alegria”, que se aproxima bastante deste “The Leisure Seeker/Ella & John”.

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Baseado no romance de Michael Zadoorian, e adaptado por Stephen Amidon, Francesca Archiburgi e pelo próprio Virzì, a princípio temos uma história extremamente simples, sobre um casal mais velho que está enfrentando dificuldades de saúde e decide pegar o velho trailer de viagens para um último passeio, antes de os filhos decidirem coloca-los num asilo ou em um hospital. Porém, o que poderia se enveredar por uma comédia de costumes relativamente rasa, vai ganhando estofo pela forma como o casal lida com a perda de memória do marido e a mania de controle da esposa. Como se já não bastasse, ao revisitarem as lembranças com um projetor que colocam para funcionar a cada parada da viagem, eles rearranjam a ordem de afetos na tela, sem necessidade de pieguice ou compaixão. Não há necessidade de pena aqui. Nenhum deles pede por isso, e nem terá.

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Um pouco disso se deve ao humor mais irônico e empolado da atriz britânica Helen Mirren, ganhadora do Oscar por “A Rainha”, que impede que sua personagem recaia na vala comum da perfeccionista rabugenta, e é quem dirige o timão do avançar desgovernado, deixando tudo para trás, de filhos à coerência lógica do roteiro, pois Mirren funciona por si só. E a direção, inclusive, vai melhorando conforme abre mão de prestar contas ao roteiro, deixando os atores governarem absolutos a cena. Com isso, quem se permite ser a maior surpresa passivamente da questão é o desmemoriado personagem de Donald Sutherland (“MASH”), que passa a se assumir como uma argila a ser trabalhada, moldada e manipulada a bel prazer das reviravoltas do filme. Sua eficiência em ser catalisador das dores que atravessam seu espaço físico e emocional e se convertem num espiral de renovações do passado é comovente sem precisar de maniqueísmos.

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Um ritmo compassado e o descarte dos coadjuvantes que não eram necessários desde o princípio, com exceção da tocante cena em que um lampejo de lucidez dá o devido reconhecimento à personagem da filha, acabam inversamente servindo a favor do filme. Vale também fazer uma ressalva pela cromática desnecessariamente cinza da fotografia, como se insiste que qualquer filme sobre a terceira idade pareça pender para tons pastéis ou desbotados, como se não desejasse provocar muita problematização visual para além dos conflitos que o espelho produzido no público já adviria a despertar. Portanto, não obstante tangenciar muitos temas de maior complexidade do que cabia ali, incluindo orientação sexual, adultério, abandono ou mesmo o direito de autoadministração do próprio corpo, a força com que todos giram num liquidificador para desembocar na inesquecível e sensível sequência final compensa tudo o que pode ser atropelado por atalhos no caminho.

*Texto originalmente publicado por Filippo Pitanga para o Almanaque Virtual durante o Festival do Rio em 22 de outubro de 2017.