Em Três Atos

Ensaio poético de Lucia Murat versa sobre morte e velhice

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09 de dezembro de 2015

O ciclo da vida é algo implacável: você nasce, cresce, torna-se adulto, torna-se idoso e morre. Não dá para fugir disso – um misto de medo e alívio que divide opiniões. Há quem acredite em vida após a morte, o que prolonga ainda mais o ciclo; mas isto não será discutido nesta crítica. Quem nunca pensou em viver para sempre? A eternidade, palavra imponente, é condição que atrai. E o que dizer sobre o medo do esquecimento causado pela morte, que nada mais é do que a perda do corpo? Não é preciso estar vivo para ser lembrado: a memória de alguém se perpetua por meio de palavras, imagens e sentimentos deixados aos que permanecem vivos, algo bem evidenciado no novo filme de Lucia Murat (“Quase Dois Irmãos”), “Em Três Atos”.

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Numa mistura de ficção com documentário, de poesia com lucidez, de dança com palavras, o longa conta com Andréa Beltrão e Nathália Timberg representando o mesmo papel aos 50 e 80 anos, respectivamente: uma intelectual que reflete sobre velhice e morte ao relembrar da morte de sua mãe, ocorrida 30 anos antes, através de textos baseados em originais de Simone de Beauvoir. Paralelamente, estão as dançarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe, bailando como no espetáculo que estrelaram, “Qualquer coisa a gente muda”, num contraste entre os movimentos limitados de um corpo de 85 anos e os movimentos leves e ágeis de um corpo no auge da idade.

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Começo, meio e fim. Os três atos que regem a vida e que dão nome ao filme, também o dividem: o corpo, a morte e a despedida. Ao longo das três partes, Vianna e Poppe protagonizam belas cenas de dança contemporânea coreografada por João Saldanha, enquanto Timberg e Beltrão versam sobre a fragilidade do corpo, o tabu do corpo materno, sua difícil relação com a mãe, o doloroso fim de seus dias, a chegada da morte e como é encarada, bem como o tabu em torno dos problemas da terceira idade. A câmera de Lucia Murat, que assina roteiro e direção, confere um olhar sensível aos temas propostos ao realizar um ensaio poético que se entremeia à crueza que representam. Para Murat, que dirigiu “Que Bom Te Ver Viva” e “Uma Longa Viagem”, o formato que mistura documentário e ficção não é novidade, porém a natureza delicada e teatral de “Em Três Atos” elevam o filme a um patamar lírico. Uma bela experiência cinematográfica que tomara que se repita.

 

Festival do Rio 2015 – Première Brasil: Hors Concours ficção

Em Três Atos (Idem)

Brasil – 2015. 76 minutos.

Direção: Lucia Murat

Com: Nathália Timberg, Andréa Beltrão, Angel Vianna e Maria Alice Poppe.


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