Em Um Pátio de Paris

Como tratar a depressão com sutil humor e leveza

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17 de abril de 2015

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É raro tratar o tema da depressão, tão em voga nos tempos atuais, com tanta delicadeza e fino humor como no filme “Em Um Pátio de Paris” (“Dans le Cour”, de Pierre Salvadori). Mas vale avisar que há duas idiossincrasias perigosas passíveis de desviar a atenção do público para o que realmente importa. A primeira foi o doce título equivocado na tradução para o português, onde dá a entender que se trata de mais uma daquelas comédias francesas quase turísticas, com inúmeras imagens lindas da Cidade Luz. Pois não há. Melhor avisar logo de cara. Raras são as imagens externas ao condomínio no qual se passa a história. A segunda é que a protagonista se trata de ninguém menos que a diva Catherine Deneuve, apesar de que às vezes sua personagem se torna quase coadjuvante frente ao rouba-cenas Gustave Kervern, no papel do homem fracassado e sem perspectivas que é contratado como zelador do prédio da personagem de Deneuve, que se revela aos poucos também outra deprimida.
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Ou seja, desmistificando estas duas impressões que podem levar o público a uma expectativa injusta relativa ao filme, fadada a ser frustrada, eis que surge uma deliciosa e sutil dramédia no ponto para refletir e sentir. O cineasta de filmes despretensiosos como “Uma Doce Mentira” e “Amar Não Tem Preço”, ambos com outra musa francesa, só que mais recente, Audrey Tautou, consegue desta vez atingir um ponto mais nevrálgico, como um equilíbrio mais acertado entre os gêneros cinematográficos diferentes. Além disso, com uma história que dispensa revelar demais o background justamente para que todo espectador possa se identificar, demonstra que qualquer pessoa na vida que chegue a um ponto de fracasso e dependência (no caso do protagonista, ele é viciado em drogas), talvez descubra que a máxima “nenhum homem é uma ilha” leva ao compartilhamento como aprendizado mútuo e inevitável, pois os mesmos problemas que isolam alguém em incompreensão pode ser a afinidade com que outra pessoa isolada se aproxime desta e mude seus destinos.
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O roteiro amplia a participação de Deneuve para tramas paralelas não tão úteis para a história, mas ainda assim divertidas, como a suspeita de que seu prédio vai desabar, o que traga à paranoia os vizinhos do bairro todo, ou mesmo a bela cena em que revisita sua casa de infância só para ver que viver sob a pesada sombra da lembrança do passado pode deturpar memórias e fingir que fugir do presente seja menos assustador do que encarar o verdadeiro passado. Porém definitivamente é nos silêncios e trocas de olhares entre ela e seu coprotagonista que brilham mais, lembrando a nós o porquê do sagrado pedestal onde colocamos a atriz ser válido até hoje.
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