Entrevista com Alan Minas – A Família Dionti

Diretor conversa sobre seu primeiro filme de ficção com o Almanaque

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30 de outubro de 2015

O Almanaque Virtual conversou com exclusividade com Alan Minas, diretor e roteirista de “A Família Dionti”, longa vencedor da categoria melhor longa-metragem de ficção pelo Júri Popular no 48º Festival de Brasília 2015, que também foi exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Minas conta sobre a concepção de seu filme ficcional de estreia, de seu tom lúdico e poético, e fala sobre a forte relação entre o homem e a natureza presente na trama.

Confira a entrevista completa abaixo:

Alan Minas no 48º Festival de Brasília 2015 – Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles

Almanaque Virtual – De onde surgiu a ideia para criar “A Família Dionti”? Quais foram as suas maiores inspirações?

Alan Minas – A ideia surgiu numa imagem que veio à minha mente, de um menino a levitar. Essa imagem trazia em si um traço não humano, o que me instigou muito. Decidi puxar esse fio, desentrelaçar o enredo que se escondia por trás dele; o que também acabou servindo como elemento disparador na exploração de um mote que há muito me seduz: a possibilidade de se reinventar, e ser outro. As literaturas de Guimarães Rosa e Manoel de Barros são permeadas pela atmosfera lúdica, poética e fantástica, são fontes inesgotáveis de inspiração e que me influenciam bastante, a quem sempre recorro.

AV – O filme mostra uma relação profunda entre o homem e a natureza. Alguns personagens até se transformam em elementos da natureza. Como foi esse processo de criação?

AM – Eu gosto de pensar que estamos em constante transformação, influenciando e sendo influenciados por tudo que nos cerca. Mas, infelizmente, na correria do nosso dia a dia, acabamos nos esquecendo disso. Acho que o jogo de associar as personagens a elementos na natureza é uma forma sutil e bem humorada de tocar nesse assunto, e discutir nossa condição. Por exemplo, após tomar a decisão de que a personagem principal seria inteiramente feita de água, se derreteria literalmente de amor, restava ao irmão mais velho a oposição a essa força: ser completamente seco por dentro, e chorar areia. Essa oposição estabeleceu de imediato uma premissa interessante, que obviamente eu iria tirar proveito na relação entre eles. Dentro desse jogo, escolhi para o pai a ocupação como funcionário numa olaria, onde o fruto de seu trabalho, a produção de tijolos, dependesse da habilidade em saber lidar com a mistura entre esses dois elementos: terra e água, o que lhe confere um dado interessante ao perfil.

AV – Quando você decidiu fazer o filme, logo pensou num cenário interiorano, talvez pela simplicidade e ingenuidade das crianças? Ou a ideia foi surgindo conforme a elaboração do roteiro?

AM – O isolamento geográfico foi um ponto de partida na estória, a ambiência não é um pano de fundo, adquire papel maior como significante. Ela ganha força, opera sobre a trama. Eu quis que a casa da família estivesse num local ermo, onde viveriam isolados, remoendo suas dores. Nesse caso, aquela região de Minas agregou ainda mais força: eu quis que a solidão da família se esparramasse pelo lugar, e que o abandono da região invadisse cada um deles. Enfim, que a realidade perdesse seus limites, e tudo se misturasse. A secura e o calor são elementos constantes nos dramas e dilemas que as personagens carregam, ajuda a torná-los ainda mais profundos, interessantes. A água surge nos sonhos e devaneios, é catártico: uma quimera.

Cena de “A Família Dionti”

AV – O filme é muito poético – há, inclusive, personagens com nomes como Poesina e Ilusângela, e o próprio sobrenome Dionti. Você chegou a pensar em criar nomes do tipo para todos os personagens para dar um tom mais lúdico e infantil ao longa? Ou sempre teve na cabeça a ideia de fazer um filme tanto para crianças quanto para adultos, com elementos com que ambos se identificassem?

AM – “A Família Dionti” é um filme que se comunica com pessoas dos 7 aos 90 anos. Mas é claro que sua absorção é subjetiva, cada um apreende o filme à sua maneira. O que me importa é que as motivações e sentimentos principais que estão em jogo na trama, a transcendência através do amor, são percebidos e sentidos por todos, independe de condição ou informação prévia. Os nomes das personagens também chegam com variadas cargas de humor para os diferentes públicos. É um prazer brincar com as palavras, criar neologismos, corruptelas, num “mineirês” típico; é um humor que está arraigado à nossa cultura.

AV – O realismo fantástico, bastante presente em “A Família Dionti” de maneira delicada com efeitos especiais discretos, não é um gênero muito explorado no Brasil. Você pretende mudar esta realidade daqui em diante?

AM – Não tenho a pretensão de mudar a realidade cinematográfica do país, nem o filme se propõe a isso, apesar de eu reconhecer que pouquíssimos filmes brasileiros exploram o realismo fantástico atualmente. Gostaria que houvesse mais, é um gênero que me fascina. No universo infantil ele é comum, onde me parece que é mais permitido e aceito. É uma pena, pois o realismo fantástico é uma porta aberta para o lúdico e para a poesia: para o sonho. Mas, infelizmente, esquecemos que nesse jogo o adulto também pode entrar, lhe é permitido sonhar.