Entrevista com Clovis Mello – “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos”

Diretor conversa com Almanaque sobre seu primeiro longa-metragem

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15 de outubro de 2015

O Almanaque Virtual conversou com exclusividade com Clovis Mello, diretor que debuta no mundo cinematográfico com o longa “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos”, que teve sua estreia no Festival do Rio 2015. Mello conta sobre o desejo de adaptar Nelson Rodrigues e como foi trabalhar pela primeira vez com cinema. Com grandes nomes no elenco, como Gabriela Duarte, Ernani Moraes, Marcelo Faria, Michel Melamed, o filme se baseia em contos de Nelson Rodrigues da obra “A Vida Como Ela É…”, tem como tema central o desamor e estreia em 12 de novembro nos cinemas.

Confira abaixo a entrevista completa:

Almanaque Virtual: Como surgiu a ideia de adaptar os contos de Nelson Rodrigues para o cinema?

Clovis Mello: Não foi bem uma ideia, e sim uma vontade. Estávamos em 2011, portanto um ano antes do centenário de vida de Nelson, daí veio o desejo de fazer algo baseado na obra dele. Inicialmente, pensei em refilmar uma de suas obras já adaptadas para o cinema, mas fui convencido pelo Nelsinho Rodrigues (filho do autor) a mergulhar no universo de “A Vida Como Ela É…”

Clovis Mello

O diretor Clovis Mello

AV: Como foram eleitos os contos que iriam integrar o filme e os que figurariam como destaque na trama?

CM: Nelson escreveu, num período de onze anos, cerca de dois mil contos. Deste total, li uns duzentos que, evidentemente, não caberiam no filme, então, a partir da leitura, numa tarefa de cortar o coração (já que descartar 190 contos de Nelson não é exatamente uma tarefa fácil), eu e Nelsinho separamos inicialmente uns dez contos apenas, com estórias bem diferentes, mas que atendessem ao recorte do “desamor”, definido por nós.

AV: Como se deu a escolha do elenco?

CM: A escolha do elenco, como deve ser, se deu por adequação às personagens – ninguém foi escolhido por ser famoso, amigo, gente fina, ou qualquer outra razão que não estivesse ligada à dramaturgia. Num trabalho conjunto com Marcela Altberg, produtora de elenco, eu imaginava um perfil psicológico, comportamental e emocional para cada personagem, qual a lógica do seu pensamento e como ela deveria ser do ponto de vista de aparência. A partir disso, as imagens dos atores pulavam na nossa mente de forma quase automática, às vezes mais de um para cada personagem. Evidentemente que o talento de cada um deles para interpretar cada personagem determinou a escolha.

AV: Como o título do filme foi escolhido?

CM: Precisávamos de uma frase que definisse o conceito do “desamor” proposto por nós como um recorte possível da obra e embasar o roteiro. Durante as leituras dos tais duzentos contos, a frase “ninguém ama ninguém por mais de dois anos” era recorrente e aparecia nas mais variadas situações, então foi quase uma escolha óbvia; não me lembro de ter tido uma outra opção.

AV: Este é seu primeiro longa-metragem. Você já tem planos para novos projetos para o cinema?

CM: Tenho pelo menos outros quatro projetos em mente, alguns já mais adiantados e outros engatinhando – projetos próprios, de terceiros que me propuseram a direção e até alguns remakes de roteiros gringos, mas como fazer cinema é a arte de esperar e de se surpreender, pode ser que tudo isso mude e apareça um fato novo que passe na frente desses que já estão na fila.

Ninguém Ama Ninguém3

Ator Marcelo Faria em cena de “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos”

AV: Vi que você trabalha com publicidade. Quais as maiores dificuldades que você encontrou na transição do filme publicitário para o cinematográfico? Para você, quais são as maiores diferenças entre os dois?

CM: Na verdade, pode parecer leviandade, mas eu não encontrei dificuldade nenhuma. Em primeiro lugar, porque eu não sou publicitário; aliás, não seria demérito nenhum se fosse, mas publicitário é o profissional que trabalha em agência de propaganda. Eu sou diretor de filmes e passo boa parte do meu tempo fazendo filmes publicitários, mas a minha formação de base foi televisiva, já que comecei minha carreira como editor de videotape na TV Globo, em 1981, portanto, o contato com a dramaturgia vem desde esta época. Saindo da TV, me mudei de malas e cuias para a propaganda, onde eu dirigi mais de dois mil filmes, desde a época em que eles ainda eram feitos em película. Meu trabalho em publicidade é totalmente focado nos atores, na interpretação deles e na narrativa de pequenas estórias que estão a serviço de vender um determinado produto, mas não faço muitos trabalhos onde o produto é, exclusivamente, o ator principal do filme.

Essa trajetória na propaganda me deu muita rodagem. A quase totalidade dos atores do “Ninguém Ama…”, sejam eles famosos ou não, já haviam trabalhado comigo na publicidade. Filmo semanalmente e sempre fui um diretor que filma muito, de maneira que quando entrei no set do longa, estava totalmente em casa, pois a equipe é a mesma, as câmeras são as mesmas, tudo é igual, até mesmo muitas locações. Aliás, exatamente uma semana antes de rodar o longa, eu estava com a mesma equipe fazendo um trabalho para as sandálias Havaianas e exatamente uma semana depois estava eu no set novamente, com a mesma equipe, fazendo um comercial de cerveja. O fato é que um bom diretor de propaganda tem mais experiência de set do que um diretor que faz um longa a cada cinco anos. Esse último, passa seis semanas filmando e depois passa os próximos cinco anos correndo atrás de dinheiro, quando ele entra no set novamente, tem que se readaptar àquele meio, as câmeras mudaram, os equipamentos também, e por aí vai. Basta imaginar um diretor que fez o seu último trabalho em película e no próximo, vários anos depois, teve que fazer em digital, pois não havia mais negativo. Imagine o choque que esse cara levou. O diretor que, também, faz filmes publicitários, filma toda semana e isso vai te permitindo assimilar as mudanças de forma suave. Por exemplo: na transição da película para o digital, eu pude ficar alternando as duas por um bom tempo, até me sentir seguro para largar a película.

A realidade é que poucas coisas mudaram, pelo menos para mim. Na verdade, só precisei tomar cuidado com a decupagem, para evitar não ser muito condescendente com os movimentos e duração das cenas, pois uma característica da propaganda é o tempo exíguo para contar as estórias, então poderia haver uma certa tendência em mim de querer alongar demais as cenas, demorar a cortar e essa escolha tornar o filme lento ou pausado demais, enchendo o saco do espectador. Porém, o montador que ainda existe em mim e que foi comigo para a filmagem, editou qualquer desejo meu de querer deixar a cena durar mais que o necessário.

Para não dizer que nada mudou e responder mais assertivamente a pergunta, eu diria que o que realmente mudou foi o tempo de convivência com a equipe, o que pode levar qualquer um à loucura. Na propaganda, ficamos, no máximo, uma semana convivendo com uma equipe e, se foi uma experiência ruim, na semana seguinte trocamos todo mundo. No longa, a convivência pode ser de 6 meses, o que, dependendo de quem está em torno de você, pode ser um martírio. Afinal de contas, como diria Euzébio, numa das cenas do filme: “namorar é uma coisa, casar é outra.”