Entrevista com Emmanuelle Bercot diretora do filme ‘De Cabeça Erguida’

Diretora francesa debate sobre polêmica brasileira da redução da maioridade penal

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16 de junho de 2015

Após a primeira sessão do filme “De Cabeça Erguida” (“La Tête Haute”) no Festival Varilux de Cinema Francês, e de ter visto seu filme abrir o Festival de Cannes 2015, a diretora Emmanuelle Bercot aterrissou especialmente no Rio para um caloroso debate com o público e com o Almanaque Virtual, ainda mais em época que o tema de seu filme se comunica tão sensivelmente com alguns contras sobre a Lei que propõe no Brasil diminuir a maioridade penal de 18 para 16 anos.

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AV – Com um claro embasamento verídico de casos crus e pungentes envolvendo menores de idade marginalizados na criminalização na França, sem abrir concessões poéticas para retratar a dura realidade, de onde veio sua inspiração para escolher este projeto? E como foi realizar a pesquisa que fundamentou o filme?

Bercot – Meu tio foi um assistente social nas medidas reeducativas mostradas no filme, e ajudava jovens com problemas sociais em Centros Juvenis de ressocialização. Quando eu era criança, me lembro muito claramente de quando ele me levou para visitar um destes Centros, e aquela memória ficou comigo desde então. A ideia para este filme sempre existiu, pois era algo que queria trabalhar há muito tempo. A pesquisa foi ampla de inúmeros casos e acompanhando o Juizado de Menores durante um bom tempo.

Neste momento, alguém emocionado na plateia, em lágrimas tocantes de solidariedade com o caso do filme, associa a história com a supracitada e injusta Proposta de Lei que está tentando reduzir a maioridade penal no Brasil, que pode ou não tapar o sol com a peneira, enquanto que o filme demonstra de maneira muito lúcida e sincera as dificuldades, sim, porém também os bons resultados de se tentar ressociabilizar um jovem que já tenha descaso ou falta de infraestrutura familiar e social. Outra pessoa na plateia diz que amaria que o filme fosse visto pelo Congresso Nacional.

Bercot – Sim, também acharia muito bonito. E agradeço o prestígio da sugestão. A verdade é que onde a família pode ser omissa, existe uma responsabilidade do Estado de suprir esta omissão, e não apenas de forma corretiva. A França tem uma alta estatística de recuperação dos jovens através das medidas sócio-educativas em até 80% dos casos. É uma realidade que não se dá para prover para todos os jovens, porém muitas vezes meramente prendê-los como adultos é reinseri-los num sistema criminalizante. Muitos dos agentes sociais (como meu tio) se envolvem pessoalmente com estes jovens em termos de lutar por eles como se fossem família.

Voltando a falar de cinema, a próxima pergunta elogiou as atuações viscerais no filme, e inquiriu sobre como foi trabalhar misturando não-atores com profissionais do nível da diva Catherine Deneuve e também gente nova muito boa como Sara Forestier? E como o excelente jovem que interpretou o protagonista atuou com tanto instinto e intuição para interagir com a grande Deneuve?

Bercot – Na verdade, não foi por instinto que o protagonista foi guiado. Na vida real, ele é o completo oposto de seu personagem. Tivemos que ensaiar bastante para alcançar aquele tipo de naturalidade. Para mim não faz diferença atuar com não-atores ou profissionais. Talvez seja mais difícil para os profissionais mais experientes, pois chegam com muita preparação e têm de se adaptar aos improvisos do não-ator, o que gera sempre uma nova dinâmica que eu incentivo desde meus filmes anteriores.

Além disso, a cineasta respondeu aos elogios pelos cenários verazes escolhidos como fruto de uma ampla pesquisa em campo, acompanhando as atividades de perto, para poder reproduzir as salas de julgamento, os Centros de reabilitação e etc