Entrevista com José Dumont pelo filme “Curral”

Um dos maiores atores do cinema brasileiro troca algumas palavras sobre a situação atual no cinema e no mundo

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13 de novembro de 2020

O Almanaque Virtual pôde entrevistar o ator José Dumont pelo seu novo filme “Curral” que estreou na 44ª Mostra  Internacional de Cinema de São Paulo e garantir este bate-papo exclusivo sobre seu trabalho, num filme tão político, às vésperas das eleições municipais*. Confira:

“Eu conhecia o trabalho anterior de Marcelo Brennand, o documentário “Porta a Porta”, que também falava sobre o processo eleitoral. E, quando li o roteiro de “Curral”, concordei bastante que ainda havia muito potencial de contar essa história através da ficção. Era o primeiro roteiro que eu lia de ficção sobre o processo de boca de urna. Época em que rola dinheiro aparecendo do nada e que alguém sempre tenta botar no bolso. É essa política maluca que temos e que não muda, sempre nas mãos das mesmas pessoas. No filme, eu faço o prefeito, algo novo em minha carreira, já que sempre interpretei alguém do povo, sempre fui à margem, um gaijin… E, pela primeira vez, fiz um camarada do lado de lá. Ele é um prefeito à moda antiga, num processo que não se renova. Mas a personagem principal mesmo no filme é a água, o grande elemento que conduz a coisa toda, e que une a todos nós. Chega a ser poética a história da água como força dramática de um povo.”, diz José Dumont.

“Muitas vezes, os políticos em geral são analfabetos da emoção popular e só sabem seguir o processo deles. A política aqui veio de um processo colonial de Capitanias Hereditárias, que se mantém na mão de quem tem dinheiro. Entra ano, sai ano, e a coisa não muda. Por exemplo, vereadores que seriam a peça mais importante, mais próxima da população, e levariam ao prefeito e ao governador pra levar ao federal, são as peças que menos entram na política, apenas com espaço no horário eleitoral para verbetes que não dizem muito do currículo da pessoa. Vêm de interesse local e não conseguem se comunicar além disso. Uma política que não se renova com o velho poder político, de quem ainda manda por ter dinheiro. É uma luta de classes que continua com os coronéis. Porém, agora a cabeça da Medusa norte-americana foi cortada, e eu acho que até semana que vem já veremos a repercussão disto aqui sim, teremos modificações no Brasil também. Tenho esperança.”, completa o veterano ator.

Confira crítica do filme aqui:

http://almanaquevirtual.com.br/curral/

*matéria originalmente publicada na Revista Fórum por entrevista concedida ao almanaquista Filippo Pitanga:

https://revistaforum.com.br/cultura/curral-eleitoral-caiu-o-de-la-falta-o-de-ca-por-filippo-pitanga/