Entrevista com Lucia Murat – “Em Três Atos”

Cineasta fala sobre seu mais recente filme ao Almanaque

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09 de dezembro de 2015

O Almanaque Virtual teve o prazer de entrevistar Lucia Murat, cineasta por trás de filmes como “Quase Dois Irmãos”, “Maré, Nossa História de Amor” e “Olhar Estrangeiro”, sobre seu novo longa-metragem, “Em Três Atos”. Selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio 2015, o filme possui no elenco as atrizes Andréa Beltrão e Nathália Timberg, interpretando textos baseados em originais de Simone de Beauvoir, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe, dançando como no espetáculo que estrelaram, “Qualquer coisa a gente muda”. Confira a entrevista abaixo:

Almanaque Virtual – Filmes experimentais são cada vez mais comuns hoje em dia. “Em Três Atos” é o filme mais experimental da sua carreira. Você sempre teve vontade de fazer um filme assim ou surgiu repentinamente uma inspiração para tal?

Lucia Murat – Não sei se é o mais experimental da minha carreira. Quando você pensa que em 1989 eu fiz “Que bom te ver viva” misturando ficção e documentário, quando isso era muito pouco comum, não me parece tanto. “Em Três Atos” é um filme que segue (acho) uma tendência do cinema hoje de misturar gêneros. Concordo que ele é radical no sentido de misturar dança, teatro, ficção e documentário. Mas na verdade é uma mistura que tem uma unidade muito construída, pelo cenário e pelas duplas (de bailarinas e atrizes). Foi uma experiência muito boa construir o filme, que passou por cerca de três anos de trabalho e descobertas.

Lucia Murat e Natalia Thimberg

AV – De onde surgiu a ideia de juntar a dança do espetáculo “Qualquer coisa a gente muda” com as declamações de textos de Beauvoir num filme?

LM – Na verdade, tudo começou com um prêmio que recebi que incluía negativos 35mm, revelação, telecinagem e luz. Tinha na ocasião a ideia de fazer um filme sobre o processo de envelhecimento, mas não sabia por onde começar. Quando vi o espetáculo achei que de uma forma subliminar e bonita, ele tratava do tema ao contrapor dois corpos, Angel, aos 85 anos, com Maria Alice Poppe, no auge do seu vigor. E resolvi filmá-lo. Desde o início sabia que Simone de Beauvoir, com seus escritos sobre velhice, seria um contraponto (da palavra) em relação ao corpo expresso no espetáculo de dança. O que teve de interessante foi a descoberta durante a pesquisa do livro “Une mort très douce”, que eu não conhecia e que deu ao filme uma amplitude dos personagens, ao incluir a intelectual aos 50 anos, e ao incluir o tema da morte.

AV – As atrizes Nathália Timberg e Andréa Beltrão incluíram algo de sua experiência pessoal nos textos ou apenas interpretaram textos de Beauvoir? Como foi trabalhar com elas neste projeto?

LM – Foi excepcional. Somente duas grandes atrizes seriam capazes de dizer esses textos. Na verdade, alguns dos textos são meus, particularmente os que falam da dança (eu fui bailarina quando jovem, daí também meu interesse no assunto). O que teve de contribuição das atrizes foi o trabalho que realizaram num texto a princípio literário e que deveria ser falado. Um trabalho profundo, que contou com pequenas adaptações. A nossa ideia era deixar claro que o texto era literário, de uma escritora, mas deveria ser capaz mesmo assim de ser dito e compreendido.

Lucia Murat

AV – A velhice e a morte são questões que te afligem tanto quanto nos textos do filme?

LM – Acho que sim, como imagino a todos nós. Nesse sentido, acho os textos de Simone exemplares. Muitos de nós que perdemos parentes próximos sentimos a dor da morte de que ela trata. E seus textos sobre a velhice, apesar de densos e provocativos, são também esperançosos, como foi a velhice dela e espero seja a minha.

AV – Para você, qual a relação entre corpo e palavra?

Como disse, fui bailarina. Tenho paixão por ambos.

AV – Já tem algum projeto em andamento? Você pretende fazer outro filme do gênero em breve?

LM – Sim. Estou trabalhando numa coprodução com Portugal chamado “Praça Paris”, que também será distribuído pela Imovision, e eu diria que é quase um thriler.

Angel Vianna e Maria Alice Poppe

Festival do Rio 2015 – Première Brasil: Hors Concours ficção

Em Três Atos (Idem)

Brasil – 2015. 76 minutos.

Direção: Lucia Murat

Com: Nathália Timberg, Andréa Beltrão, Angel Vianna e Maria Alice Poppe.