Entrevista com Miriam Chnaiderman e Johnny Luxo – “De Gravata e Unha Vermelha”

Diretora e entrevistado comentam sobre o tema tão atual da diversificada sexualidade humana, tratada no documentário

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06 de maio de 2015

“De Gravata e Unha Vermelha”, documentário que entrou na disputa pelo Troféu Mucuripe no Cine Ceará 2014 junto com o filme “A Estrada 47” e ganhou o Prêmio Félix de Melhor documentário no Festival do Rio de 2014, estreia nesta quinta-feira nos cinemas e, com tema polêmico e necessário, vem para confundir a cabeça do público. Dirigido por Miriam Chnaiderman (“Dizem que sou louco”, “Sobreviventes”), o longa discorre sobre o papel dos transexuais na sociedade e trata de questões complexas de gênero e identidade sexual, além do preconceito irracional sofrido até hoje. Na última segunda-feira (4 de maio), o Almanaque Virtual conversou brevemente com a diretora Miriam Chnaiderman e com o entrevistado Johnny Luxo, clubber e DJ, que esbanjaram simpatia e falaram um pouco sobre as questões da sexualidade e o problema do preconceito da sociedade.

Miriam Chnaiderman:

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A diretora Miriam Chnaiderman

Você se define como “uma psicanalista que faz cinema” e seus documentários sempre tratam de temas polêmicos e pessoas que vivem à margem da sociedade que sofrem preconceito. Em “De Gravata e Unha Vermelha” não é diferente. A escolha pelo tema dos transexuais e questões de identidade sexual tem relação com o fato de você ser psicanalista e de ser um assunto tão atual? Por que você elegeu esse tema para tratar? Você já tinha essa vontade?

Sim, tem tudo a ver com eu ser psicanalista e, como o Laerte fala em sua entrevista, hoje o revolucionário está em que você quebrar com padrões da sexualidade da forma como você trabalha o seu corpo. Para mim, essa abertura de diferentes formas de viver a sexualidade foi deslumbrante. Os meus outros documentários também foram feitos de eu fazer pesquisa como psicanalista. Então ter ido para o mundo e ter me aberto para ver e entender a sexualidade foi fundamental para o meu percurso. Trabalho com questões que ficam escondidas embaixo do tapete, então eu chego lá e tento olhar para isso. Fico muito feliz em lançar esse filme neste momento em que a questão da sexualidade no Brasil conservador, onde ainda há pessoas que perseguem os gays, está tão vigente.

Como o nome do documentário foi escolhido?

Nas entrevistas, o Laerte falava da alegria de passar esmalte vermelho nas unhas. Aí pensei “como deve ser isso: o lado feminino de gravata e unha vermelha?”. Fiquei pensando em batom, em unha vermelha, e aí surgiu. Há, ainda, uma bolsa que circula durante o filme que foi bem inspiradora, que é uma bolsa feminina com uma gravata masculina. Acabou gerando um nome interessante que deu certo.

De Gravata e Unha Vermelha

Quando assisti ao documentário, pude perceber a sua intenção de mostrar a maior variedade possível de pessoas com suas diferentes questões de gênero. Como se deu a escolha desse elenco tão variado?

Eu queria produzir uma vertigem. Tinha o desejo de que as pessoas saíssem do cinema sem saber mais o que é homem e o que é mulher. Queria que o documentário tocasse o coração, que não fosse uma coisa do outro lado da vida à margem, que fosse uma questão de ser humano. Quanto mais histórias eu pensava, mais queria que fosse algo onde nos perdêssemos delas. Então foi o que me motivou. O que me levou à escolha realmente foram pessoas que radicalizaram o padrão, de viver aquilo que querem em relação à sua sexualidade. É engraçado que sempre acho que tem algo de heroico nos personagens tão à margem da sociedade. Meu primeiro filme foi sobre loucos de rua, o segundo foi sobre trabalhadores que lidam com cadáveres, pessoas bem à margem que heroicamente carregam o que fazem e o que são. Acho que agora trabalhei com heróis da censura dos padrões que regem a sexualidade. São figuras muito tocantes; todas tinham coisas para contar.

 Quanto tempo durou entre filmar e lançar o filme?

Foi um filme relativamente rápido – demorei 1 ano e meio para filmar. A primeira filmagem ocorreu no Carnaval de 2013, há dois anos e dois meses, então foi muito rápido até o seu lançamento.

 Você já tem algum novo projeto em andamento?

Agora vou fazer um curta sobre as Clínicas do Testemunho, que é um projeto da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça que atende sequelados psíquicos da Ditadura. Também tenho vários outros projetos pelos quais preciso começar a batalhar.

Johnny Luxo:

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Johnny Luxo sendo entrevistado em “De Gravata e Unha Vermelha”

Como foi participar deste documentário?

Foi super bacana. Para falar a verdade, eu conto em eco coisas que vivenciei na infância e na adolescência.

 Você é muito seguro quanto às suas questões de gênero e identidade, e não se prende a rótulos. Você acha que a sua versatilidade como pessoa te ajudou a romper algumas barreiras do preconceito e a ser bem-sucedido em sua profissão?

Acho que sim. Desde criança, eu já sabia o que eu era e o que eu gostava, e não achava que estava errado – tinha ciência de que estava tudo certo comigo. Na verdade, o barulho que rolava em torno disso era o problema das outras pessoas que não queriam aceitar, e resolver as próprias questões pessoais de sexualidade. Então elas ficavam loucas comigo e falavam “nossa, como pode?”, mas eu sempre fui muito seguro do eu era, do eu queria e do que gostava. Então acho que isso contribuiu muito para tudo.

 Como você venceu essas barreiras do preconceito durante a sua vida?

Isso foi bem difícil. Como disse antes, desde cedo sabia o que eu era, então sempre tive muito problema desde a infância. Meus pais estavam cientes disso. Não cheguei para os meus pais e disse “eu sou gay”, porque com 5 anos de idade ainda não sabia o que era isso, mas já tinha um problema. Eu destoava das outras crianças na escola, então sempre tinha a diretora chamando os meus pais para conversar e dizer que eu era “assim, assado”. Aos 7 anos de idade, me colocaram na terapia, e fiquei nela dos 7 aos 18 por conta disso. Eu não era uma pessoa que dava problema: era um aluno quieto, tirava boas notas. A única questão era que eu era um menino-menina, e isso gerava um problema de bullying, principalmente por parte dos meninos. Essa foi a minha parte complicada da infância.

Você também sofreu muito bullying na adolescência e no início da juventude?

Sim. Na verdade, passo por isso até hoje, mas quando você está na fase escolar da vida que é mais extensivo, porque você é obrigado a ir para a escola, você convive com muitas pessoas diariamente, e são pessoas que estão passando por transição, pois geralmente adolescência é um período complicado. Então você acaba virando o “Cristo” da história. Acho que, na verdade, está tudo certo: é difícil, sofrível, mas a gente não pode se deixar abater por conta disso. Acho que temos que tocar a vida e acreditar no que achamos que está certo, que era o que eu fazia.

Ancorado por Dudu Bertholini, o longa conta ainda com Laerte, Rogéria, Ney Matogrosso, João Nery, Candy Mel, Letícia Lanz, Eduardo Laurino e Walério Araújo no elenco.