Entrevista com o diretor Aaron Salles Torres

Cineasta brasileiro fala sobre seu filme de estreia no cinema, "Quando o Galo Cantar Pela Terceira Vez Renegarás Tua Mãe"

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23 de novembro de 2017

Na última terça-feira, ocorreu na Gávea a pré-estreia do longa-metragem “Quando o Galo Cantar Pela Terceira Vez Renegarás Tua Mãe”, debute de Aaron Salles Torres no cinema como diretor e roteirista. Ontem, quarta-feira (22/11), o cineasta concedeu uma entrevista exclusiva ao Almanaque Virtual sobre seu filme, que estreia hoje nas telonas e acompanha a difícil e violenta relação entre uma mãe e seu filho esquizofrênico.

Como surgiu a ideia de fazer esse filme? Quais foram as suas inspirações? Como foi o processo de criação?

Ingredientes do filme vieram do meu processo de adaptação cultural ao Brasil (e ao Rio de Janeiro) após 10 anos morando nos Estados Unidos – processo que foi muito mais difícil e longo que minha adaptação nos EUA. O sistema de classes e os “serviçais” ao mesmo tempo tão presentes e invisíveis na sociedade brasileira me saltaram aos olhos. Quis retratar um porteiro porque lidava com eles todos os dias, e porque ao mesmo tempo em que precisam ser quase imperceptíveis e ter muita discrição, sabem de toda a vida do prédio e conhecem a rotina de seus moradores, o que pode colocar estes em uma posição muito vulnerável.

Também fui arrebatado pela dinâmica explosiva da relação mãe e filho de meus vizinhos de fundo – ele, esquizofrênico-, cujos gritos invadiam meu quarto e minha cozinha diariamente, das 8h00 da manhã às 04h00 da madrugada. Devido à altura de meu apartamento, podia assisti-los em quase todos os cômodos da residência deles, e assim também presenciei inúmeras agressões físicas e cenas que estão no filme. Porém, nunca consegui identificar o apartamento ou o prédio onde moravam (para mim, é um grande paredão de janelas), e assim nunca pude fazer uma denúncia à polícia. Os diálogos foram transpostos no roteiro ipsis litteris.

Por fim, havia mais de dez anos, desejava escrever uma história cujo título fosse “Quando o Galo Cantar Pela Terceira Vez Renegarás Tua Mãe”, uma frase de Clarice Lispector do conto Feliz Aniversário.

O título do filme, inspirado no conto “Feliz aniversário” de Clarice Lispector, é bastante curioso. Como você chegou a ele?

Clarice, utilizando do fluxo de consciência que tanto marcou sua literatura, “deixa escapar” a frase solta “Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe”, enquanto narra uma cena da festa de aniversário da história. Por sua sonoridade e também significado, essa frase sempre me saltou aos olhos, e decidi que queria utilizá-la como título de uma história minha.

Sobretudo, porque subverte a história de São Pedro como contada pela bíblia, em que, na Santa Ceia, Jesus profetizou que Pedro o renegaria três vezes antes de o galo cantar. Após renegar Jesus pela terceira vez, Pedro disse: “Mulher, eu não conheço Jesus”, e o galo cantou. Pedro chorou em arrependimento, verificando que a profecia era verdadeira, e até o fim da Idade Média sempre foi retratado ao lado de um galo em pinturas e afins.

Na última cena do filme, Inácio conversa com o galo e fala, apontando para uma lata de lixo utilizada por sua mãe: “Eu não conheço esta mulher”.

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Ney Matogrosso cantando “Perigos Razões”, música-tema do filme

A música “Perigos Razões”, escrita por você e interpretada por Ney Matogrosso, descreve perfeitamente todo o filme. Você já tinha escrito alguma música antes? Como foi escrever a música-tema de seu próprio filme?

Desde os 12 anos, escrevo diariamente. Tenho dois romances publicados. Entre outros, há fases em que escrevo poesias, e entre elas algumas que poderiam ser facilmente musicadas. Uma letra minha já virou música anteriormente, mas não fiquei feliz com o resultado, e passei a guardar essas poesias/letras apenas para mim.

Porém, ainda durante as filmagens do longa, Catarina Abdalla e eu conversamos sobre a necessidade de fechar o filme com uma canção que apaziguasse os espectadores. Nessa mesma conversa, mencionamos que Ney Matogrosso seria o artista ideal para interpretar essa canção. Isso ficou ainda mais claro para mim quando passei a fazer projeções do filme para amigos e conhecidos e alguns deles saíam quase em choque com a conclusão da história. Gostaria de algo que elaborasse todos os sentimentos que o personagem Inácio não conseguiu elaborar ou verbalizar ao longo do filme, algo que colocasse a história em perspectiva para que os espectadores não saíssem do cinema em pânico, mas sim com uma mensagem.

Escrevi a letra e ouvi de um músico que ela era tão complexa que, para a musicar, “apenas Chico Buarque”. E ouvi de outro que a letra era simplesmente “uim”. Mas acreditei em meu trabalho e quando Ney me disse que havia gostado da letra, perguntei a ele se sugeriria cortes a ela. Ele respondeu que a letra possuía uma dramaturgia e trazia uma mensagem, e qualquer corte faria falta. Aproveitei e mostrei a ele uma canção de Lana del Rey, que possui letras igualmente complexas e longas, mas possui viradas na melodia de suas canções que tornam essas letras possíveis. Ney gostou muito. Isso foi o que eu precisava para chegar a Bruno di Lullo (o terceiro músico a olhar a letra e único a topar o desafio) e dizer: “Ney gosta da letra, disse que não há nada a cortar”. Também conversamos sobre Lana, que Bruno também admira, e ele compôs os dois trechos iniciais da canção. Ney e eu gostamos, e Bruno finalizou os três trechos restantes. Ficamos muito contentes com o resultado, que remete muito aos tempos dos Secos e Molhados. E mais surpreendente ainda foi assistir Ney interpretar uma canção tão complexa (na letra e na melodia) e, ainda por cima, interpretar em sua gravação o mesmo personagem que Nando Alves Pinto interpreta no filme, Inácio. Um trabalho feito com maestria por Ney, que também é ator.

O personagem Inácio tem esquizofrenia funcional. Você quis levantar uma discussão sobre a questão das doenças mentais de alguma forma ou apenas dar ao personagem uma característica especial que fosse agregar na história?

O personagem Inácio é inspirado em meu vizinho de fundo, que é esquizofrênico. Essa foi uma das características da pessoa real que fizeram com que eu quisesse retratá-lo no cinema. Em minha obra, noto que há um grande número de personagens com doenças mentais ou que sofrem surtos momentâneos. Por algum motivo, a esquizofrenia me interessa bastante – apesar de eu não possuir qualquer familiaridade com essa doença, ou talvez justamente por ser o meu oposto. Curiosamente, a “loucura” também sempre fascinou Ney Matogrosso e Catarina Abdalla, e tratamos disso em uma conversa – o medo da loucura os levou à arte.

Você já tem outro projeto a caminho? Pretende investir nos filmes de gênero, como é tendência do cinema nacional atualmente?

Estou atualmente me dedicando a minha próxima imersão em cinema, um terror clássico que trata de magia negra, assombração por fantasmas e demônios, e experiências extra-corpóreas, em parceria com a Raccord. Simultaneamente, estou desenvolvendo um projeto transmídia sobre o aplicativo gay Grindr, que gerou bastante interesse quando estive no mercado de Cannes este ano. Não penso que estou desenvolvendo filmes de gênero – são apenas assuntos que me atraem, assim como vários cineastas transitam por vários gêneros. O thriller psicológico, o suspense, o terror e o drama me interessam. Engraçado, porque na TV trabalho com comédia. Mas há sempre um elemento de humor negro no que escrevo, e assistindo no cinema vi que as pessoas riem durante vários momentos em “Quando o Galo Cantar…” Geralmente estou focado naquilo que me atrai (que costuma diferir bastante do que está em voga em determinado momento) e acabo por gerar tendências, em vez de as seguir.

Leia a crítica aqui: http://almanaquevirtual.com.br/quando-o-galo-cantar-pela-terceira-vez-renegaras-tua-mae/