Entrevista com Renata Martins, diretora, roteirista e produtora

Cineasta exibe seu novo filme "Sem Asas" na 23ª Mostra Tiradentes, e concedeu essa entrevista na 19ª Goiânia Mostra Curtas, onde ministrou laboratório de roteiro

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24 de janeiro de 2020

Temos a honra de apresentar a presente entrevista com a cineasta e roteirista Renata Martins, ora com seu novo filme “Sem Asas” na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que será exibido terça-feira dia 28/01 às 21h no Cine Copasa na Praça, e que concedeu esta entrevista no 19º Goiânia Mostra Curtas, onde ministrou laboratório de roteiros:

“Renata, obrigada por estar aqui conosco e, em primeiro lugar, claro, precisamos começar falando sobre o momento em que o país está passando de desmantelamento das políticas públicas voltadas para a cultura. Eu fiz essa pergunta para todos os membros, e eu tenho que reiterar: festivais são mais importantes do que nunca como um ponto de intercâmbio, e um laboratório como esse que vai ver as ideias que estão por vir, que vai falar sobre os projetos a nascer, a procriar, a florescer, no momento em que todos estão desesperados com o que vai acontecer, torna-se mais importante do que nunca. Como foi essa experiência de ter essa troca com tantas vozes, que com certeza deve ter agregado? E você a eles, com a sua experiência.

R: Olá! Então, foi minha primeira vez no festival, primeira participação no laboratório. Eu acho que tem uma galera não só jovem, mas, enfim, de várias idades pensando em narrativas e isso é muito bom, ouvir essas vozes vindas de vários lugares. O bacana do laboratório é a possibilidade de trazer pessoas, enfim, ampliar o laboratório para outros estados, eu acho que isso também é um ponto super positivo. As pessoas se encontram, enfim. Ler projetos aqui de Goiânia foi muito legal, porque é muito diferente de São Paulo e Rio de Janeiro, então, aqui galera daqui tem pensado sobre narrativas. Eu acho que, como você bem disse, nesse momento que a gente sabe da instabilidade, da permanência dos festivais, do próprio cinema em si, ter a possibilidade de entrar em contato com essa galera é revigorante. Para quem já está na trajetória e, acredito, para eles que estão começando. Eu acho que tem uma coisa, como que eu posso te dizer… A gente, que de alguma forma já está atuando na área, acho que alimenta os que estão vindo. Aí, a gente consegue juntos minimamente superar ou enfrentar essa tentativa de desmonte.

F: É poderoso isso porque é parte do que faz a gente continuar fazendo e trabalhando com cinema, não é verdade? E, justamente por causa disso e por essa ser uma região descentralizada também, como você bem colocou em diferença com o eixo Rio-São Paulo, como foi encontrar essas vozes tão ansiosas em ter esse diálogo e o que que elas puderam agregar nas suas próprias diferenças? E se elas conseguem enxergar isso, nesse momento? Uma nas outras e também nos professores?

R: Eu acredito que sim. Acho que os projetos que foram selecionados têm um tom crítico, no sentido de pensar as potencialidades do local e trazer isso para a dramaturgia com esse universo místico. Enfim, questões que a gente tem encontrado: “mãe solo”, a igreja como um lugar de alguma forma doutrinadora, a possibilidade do místico de interferir no cotidiano posto. Eu acho que tem também sonhos. Eles não deixaram de sonhar. Eu acho que isso também é importante, porque acho que a luta sem sonho acaba sendo um espaço muito vazio. Então, a gente precisa vislumbrar um futuro. Eu acho que eles trouxeram isso. Tem um encontro com o passado para pensar o futuro, do projeto Cabaré, que pensa nessas mulheres que foram trazidas para o Brasil de forma violenta e como elas se reorganizaram para tentar interferir na lógica social e política no começo do século XX. Sobretudo aqui em Goiânia, Goiás. E tem um projeto de uma busca de uma mãe por uma filha, que já teve uma experiência ruim no Rio de Janeiro e vem se refugiar aqui em Goiânia e encontra uma teia de… como eu posso dizer…ação política… E tem um projeto que veio de São Paulo, que é um projeto de uma garota do interior de São Paulo, que quer se tornar uma grande cantora sertaneja. Então, acho que pensar nesse feminejo e nesse desabrochar da mulher a partir da música também é uma boa…

F: Ainda mais da música popular do hoje, né?

R: Pois é! E se conectar com essa música que está aí nas rádios e que de alguma forma tem empoderado outras mulheres, né?

F: Talvez você não saiba, mas eu fiz meu trabalho, meu dever de casa aqui. E você saiba que tem muitos admiradores e admiradoras, não só na sua turma, mas inclusive pelo festival. Inclusive, nesta sala. Vou depois passar algumas perguntas que foram feitas de maneira anônima.

R: A cara delas (rindo simpática).

F: Você vem de uma carreira múltipla, em que você também é diretora, além de roteirista. Você também é produtora, você trabalha com eventos de formação, como o “Empoderadas”, então, de uma certa maneira, como você vê que esse olhar múltiplo pôde agregar a esses alunos? E, principalmente, porque você teve um foco muito específico, que era “roteiro para séries”: Como esse olhar múltiplo pode ajudá-los e o quanto eles também podem ter olhares múltiplos mesmo dentro de uma categoria tão específica quanto “roteiro para séries”? A partir da sua experiência. “Séries para TV”, perdão.

R: Eu acho que, no meu caso específico, fazer um pouquinho de tudo no audiovisual foi e tem sido uma estratégia de sobrevivência. Quisera eu que as pessoas pudessem fazer uma coisa só, né. Então, produzir, roteirizar, dirigir, enfim, é criar espaço para atuar. Porque a gente não pode esquecer de como o nosso cinema nacional e a nossa TV é racista. E se ela é racista, ela não possibilita o acesso de outras pessoas. Pessoas não negras e não vindas da periferia. Acho que isso foi uma necessidade que se torna um diferencial e que de alguma forma acaba inspirando outras pessoas, né, que talvez percorram esse caminho também. Mas eu queria muito que as pessoas pudessem se especializar nas suas áreas, sabe? Porque é muito desgastante fazer quinhentas coisas ao mesmo tempo. Mas eu acho que além disso que você disse, eu dei aula durante muito tempo. Eu dei aula de arte educação, então eu tive acesso às crianças pequenas, aos jovens, adolescentes, então eu acho que essa minha multiplicidade de olhar e de olhar para as pessoas tem a ver com o que eu aprendi nesse processo educativo. Mas do que eu aprendi do que eu tenha ensinado em algum momento. Acho que isso resulta. E levar isso para o projeto, para pensar se o projeto será ou não exequível no futuro. Porque eu acho que o sonho de um grande projeto tem que acontecer, as pessoas têm que pôr no papel o que elas idealizam, mas trazendo para a realidade, o que possível ser feito. Sabendo que o dinheiro está escasso, de que eles são jovens roteiristas, então estão iniciando agora, como pensar esse projeto de forma possível. De poder vê-lo, se não na TV, talvez numa websérie, talvez em outro formato. Eu acho que esse papo que a gente trocou ao longo desses três dias, dois dias, foi pensando na possibilidade de viabilizar esses projetos. De amadurecer esses projetos, de enviarem para outros labs, de concorrerem a editais, enfim, foi nesse sentido.

F: Uma coisa que eu achei muito interessante, por falar nesse jogo de cintura que você citou, é que os pitchings puderam ser coletivos, então todos assistiram os pitchings de todos. O quanto você acha que talvez esse transbordamento auxilie eles nesse sentido? Principalmente dessa viabilidade, como você disse, esse jogo de cintura. De que aquele que estivesse no roteiro de um longa cinematográfico, talvez não fizesse noção de que tivesse um espaço melhor numa série para TV, ou que uma série de TV tivesse potencial para virar um longa ou uma websérie. O quanto essas trocas possibilitaram essa experiência?

R: Eu acho que não só eu, mas como os demais tutores trouxeram essas possibilidades ou plantaram essa semente em alguns dos tutorandos ou colaboradores. E eu acho que ouvir o outro também faz pensar no próprio projeto. E eu acho que ouvir os outros roteiristas, produtores, enfim, as pessoas que compuseram a banca, acho que vai ajudar a pensar no projeto deles. E mais que isso, pensar na forma de venda e de apresentação desse projeto. Porque tinham pessoas já experientes com pitching, que já passaram por outros festivais internacionais. Tem pessoas super cruas, e o pitching é um lugar difícil. Eu sou péssima no pitching. Eu tenho uma ideia boa, mas se eu tiver que ficar vendendo essa ideia, para mim, é um lugar extremamente desconfortável.

F: Um lugar que ainda foi pouco desconstruído também, né. Que serviu, durante muito tempo, a reafirmar aqueles mesmos preceitos ou o que era esperado.

R: Exatamente. Então, se as vozes mudaram, a forma de pitching talvez também tenha que mudar. Porque se expor diante de pessoas que você não conhece, para falar…

F: Numa hierarquia.

R: Numa hierarquia, exatamente. Você já se sente menor do que os demais. Nesse sentido, ainda que as pessoas reiterem que é uma das únicas formas, acho que a gente talvez possa começar a pensar em outras possibilidades. Eu por ter acesso aos três projetos dos tutorandos, tinham projetos muito bons e todos eles tiveram dificuldade para vender o projeto. Três minutos, a timidez, a insegurança com o primeiro projeto, isso de alguma forma prejudica. Mas como exercício, acho que foi bem positivo. E eu espero que os toques e a proximidade com os outros roteiristas tenha ajudado no desenvolvimento do projeto. Que ajude no futuro. Não sei se estou respondendo o que você tá perguntando.

F: Não, tá sim, tá sim.

R: Confesso que eu entro em um looping muito louco.

F: É a influência da energia, não se preocupe. São as crianças que fizeram isso por nós. Mas digo, o Di trouxe uma coisa interessante sobre muitos dos alunos terem até trazido histórias curiosas, intrigantes, mas não terem se colocado nas histórias. E não se colocar em primeira pessoa, mas talvez um olhar muito frio sobre aquilo que retratavam, sem colocar talvez uma paixão ou sua própria visão. Dentro dos seus alunos, você sentiu que eles aproveitaram a própria visão e o quanto cada recorte, cada identidade pode agregar aos projetos de forma até política, de uma relevância de suas histórias?

R: Acredito que sim. Acho que no projeto da Viviane em especial, o “Cabaré”, tinha muito mais dela do que dramaturgia. O exercício dela era: às vezes, o discurso não pode ser maior que a história. Qual é a história que você está contando, ainda que o discurso esteja como plano de fundo. Então, talvez dizer “o arco da sua personagem seja mais importante do que dizer que está pensando sobre a questão queer ” e quer trazer essa questão. Então, independente de ser queer ou não, que história é essa? Gay, lésbica, negro, enfim, todos esses personagens que a gente anseia por serem mais humanizadas na dramaturgia. O da Lígia Zapola (ou Lívia, a Renata ficou na dúvida), ainda que não seja uma história pessoal dela, tem elementos da infância dela. Ela não viveu a situação da Malua, que é a personagem da série dela, mas ela flerta com o pai, com o irmão e com a dinâmica da casa dela. O próprio Arthur Sena também, que escreveu “Teu Sangue”, se eu não me engano, ele também traz que veio para Goiânia, ele era da Bahia, então, esse processo de migrar de uma cidade para a outra, de um estado para outro, ajudou ele a pensar nessa história. Que quando você chega, você acha que Goiânia, segundo ele, é um lugar muito diferente da Bahia, mas ao mesmo tempo, quando você se aprofunda nas entranhas, existe uma teia tão ou mais violenta do que a violência aparente. De alguma forma, eles trouxeram elementos do cotidiano, ou da vivência, ou da experiência deles. (Renata pede para beber uma água).

F: Seus próprios filmes trazem um alto grau de uma auto fabulação, de uma auto recriação, através do imaginário, através do abstrato. O quanto você acha, por exemplo, que os alunos podem se beneficiar com isso? Até mesmo, se a realidade é tão cruel e está caçando a cultura, o quanto ela pode ser redesenhada de dentro para fora, através da arte.

R: Eu tenho esse desejo de, não só interferir na realidade, mas transformar numa realidade possível. E eu acho que a fantasia e o realismo fantástico são ferramentas que me auxiliam nessa leitura de mundo e aí, nesse sentido, ainda que a fabulação não seja um desejo deles, eu acho que plantar essa semente foi um desafio. Para pensar qual é a possibilidade. Acho que alguns projetos já trazem essa mística. De alguma forma, na leitura e na seleção dos projetos, eu também acabei escolhendo projetos que dialoguem mais com as coisas que eu tenho feito. Não tudo, mas projetos que eu poderia auxiliar muito mais do que projetos que eu não tenho nenhum tipo de relação.

F: Voltando um pouco para o início, para a gente completar um ciclo. O cinema também é formação, assim como aqui nesse festival e em inúmeros outros, e que talvez deveriam seguir esse exemplo de formação e você, por exemplo, com eventos como o “Empoderadas”… Já pensou se talvez pudesse transformar o “Empoderadas” em um festival?

R: Então, a gente fez em 2017 ou 2018 o 1º Encontro Nacional Mulheres Negras do Audiovisual, que aconteceu em São Paulo, no Aparelha Luzia, com edital do PROAC e parceria do Cine SESC. Então, a gente fez uma mostra audiovisual. Um festival de cinema, na verdade. Eu falo audiovisual porque a gente pensou em filmes que tivessem mulheres negras na equipe, nas chefias das equipes, para valorizar outras áreas do audiovisual. Então, não era só diretora e a roteirista. Era a técnica de som, a diretora de produção… A gente fez essa mostra em 2017, a gente exibiu no Cine SESC, a gente fez uma mostra especial para a Everlane Moraes, que é uma cineasta de Sergipe e que morou em Cuba durante muito tempo e que tem uma produção constante. Foi uma forma de homenageá-la. Uma mulher tão jovem, com tantos filmes e tão politizada, assim, acho que ela é uma figura. E a gente fez esse ano… a gente inscreveu no PROAC, de novo, o 2º Encontro Nacional Mulheres Negras do Audiovisual e me parece que a gente ganhou! Olha só, que coisa! Então teremos um segundo encontro em 2020 e comemorando o dia 25/07, da mulher negra, latina e caribenha, em São Paulo. Quando eu vi, faltava abrir o envelope de documentos, mas, para a banca, a gente estava dentre os 10 projetos selecionados. Então, teremos um encontro com mostra e lab, pensando com mulheres negras.

 

F: Agora a pergunta dos universitários (risos mútuos), por fim, no processo criativo, você realmente acha que o Red Bull te dá asas?

R: Assim como sem asas (risos). Assistam, por favor!

F: As perguntas foram selecionadas. Foi muito difícil, eram muitas perguntas, essas foram as mais criativas. Obrigada, Rê!

R: Que bom que foi rápido!