Entrevista com Thomas Cailley sobre o filme “Amor à primeira briga”

Diretor e roteirista francês conta tudo sobre seu filme de estreia

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26 de março de 2015

Na última segunda-feira, 23 de março, o diretor e roteirista francês Thomas Cailley esteve no Consulado Geral da França para entrevista com jornalistas acerca de seu longa-metragem de estreia, “Amor à primeira briga”. O Almanaque Virtual esteve presente para conversar com o responsável pelo filme que faturou todos os prêmios da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2014. Em “Amor à primeira briga”, Arnaud (Kévin Azaïs) e Madeleine (Adèle Haenel) se conhecem durante o verão e, apesar da primeira impressão negativa, vão se envolvendo aos poucos. Os dois possuem personalidades completamente opostas: ele é tranquilo e ela, explosiva, e por isso têm muito a aprender um com o outro nessa história de amor e sobrevivência.

Thomas Cailley começou a conversa contando que o que mais lhe interessa em sua trama é “a experiência e a colisão entre os personagens”. Ele admitiu ter assistido a poucos filmes de comédia romântica até hoje e disse que escolheu trabalhar com códigos de gêneros de cinema que conhece melhor, como ação e aventura. Por isso, o resultado final do filme pode ser considerado estranho. Ele afirmou que, por ser uma história de iniciação e aprendizado, os personagens escolhem o que querem fazer, não é algo programático. Disse, ainda, que lhe agrada bastante a ideia de que o público possa decidir o final do filme.

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O diretor e roteirista Thomas Cailley (foto por Raíssa Rossi)

O diretor-roteirista disse que escolheu tratar o início da idade adulta, com personagens que possuem em torno de 22 anos, porque o cinema adora e produz muitos filmes sobre a adolescência e a fase dos 30 anos, mas ainda explora pouco a questão de como é ter 20 anos, que ele considera uma idade bastante interessante. “Na adolescência, há a questão da identidade, da iniciação sexual, da transgressão familiar. Aqui as questões são a relação com o mundo, como escolhemos o nosso lugar no mundo – o que vamos fazer, com o que vamos trabalhar, etc. São questões enormes, pois podem ser definitivas”, afirmou. “É uma idade que me interessa muito, porque é muito dupla. Aos 20 anos, a sociedade diz à juventude ‘você precisa se projetar na vida, ser capaz disso’, e ao mesmo tempo também diz ‘não há lugar para vocês, não há emprego’”, completou Cailley. Segundo ele, para os dois personagens é muito complicado existir e dar um senso a sua existência, e é isso o que chama a sua atenção. Madeleine sente-se angustiada por seu futuro, assim como Arnaud, e eles compartilham o fato de fazerem parte da geração que conheceu a crise.

Cailley, que começou a escrever a história há 3 anos, confessa achar os reality shows que passam na televisão patéticos, mas diz que adorou um programa britânico que assistiu sobre sobrevivência na selva, de um homem que é jogado lá e precisa sobreviver com uma faca (provavelmente “Survivorman”). O homem, sempre o mesmo, era um ex-paraquedista britânico e sua motivação para repetir várias vezes o programa lhe despertou interesse por ter uma dupla dimensão de suicida e de algo que vai além disso, com um quê existencial. “Para o homem em questão, a sobrevivência é superior à vida; para ele, a vida não basta”, pondera. Ele explica que essas histórias de sobrevivência são geralmente histórias de solidão, que priorizam o instinto de sobrevivência a outro ser humano. Então ele resolveu contar uma história de sobrevivência a dois.

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Adèle Haenel e Kévin Azaïs em cena de “Amor à Primeira Briga”

Sobre trabalhar com os atores Adèle Haenel e Kévin Azaïs, Cailley falou ter sido ótimo e natural, porque ambos se parecem muito com seus personagens, por serem atores muito físicos (como o filme exigia) e tipológicos, então não havia necessidade de explicar muita coisa. O diretor ainda contou que a filmagem durou aproximadamente 1 mês e que ele e a equipe trabalharam com os atores separados – “evitei que eles se encontrassem por algum tempo para não estragar a magia que iria acontecer entre eles”. Cailley também explica porque escolheu escrever sobre personagens tão contrastantes entre si: “os dois são mais fortes juntos que separados, e têm muitas coisas a transmitir um ao outro. É uma verdadeira razão para amar alguém”.

Cailley declara que não é a favor da improvisação em cena e prefere que os diálogos sejam bem definidos. Como ele escreveu e adaptou os diálogos aos atores, não havia necessidade de improvisar. Quanto às atuações, ele falou que dá liberdade aos atores para lhe fazerem propostas e gosta dessa troca, mas não no momento da filmagem. Assim, não há muita improvisação, e sim modificações planejadas. Cada decisão tinha uma consequência na cena seguinte, pois a filmagem foi feita de maneira linear, então era preciso planejar bem antes de executar alguma mudança no roteiro. Ele cita como exemplo uma cena em que Madeleine chuta um poste com uma bandeira, que foi sugerida por Adèle Haenel, e o diretor lhe disse que só funcionaria se ela derrubasse o poste; e foi o que aconteceu.

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O diretor e roteirista Thomas Cailley (foto por Raíssa Rossi)

Ao ser perguntado sobre a escolha de misturar vários gêneros em “Les combattants” (no original), Cailley argumenta: “De repente, atravessamos mundos diferentes como em um videogame, onde passamos de fase e vamos ganhando pontos. Isso é muito prazeroso e excitante em termos de mise-en-scène, porque cada hora é um código diferente, e isso recarrega o desejo de continuar filmando a história. Nesse filme, é impossível voltar, deve-se sempre avançar.  Os personagens são assim: eles avançam sempre. Filmes onde os personagens retornam e consertam os erros já foram vistos muitas vezes. Hoje em dia, podemos nos permitir misturar os gêneros, pois o público começou a ter uma cultura muito grande de cinema, de séries e de televisão. Vemos milhares de filmes.”

Por fim, Thomas Cailley afirmou já ter novos projetos em andamento, mas que não fala sobre eles.