Entrevista – Diretora de “Mate-me, Por Favor” bate papo com o Almanaque

Filme-Revelação do Festival do Rio 2015 revela bastidores que são uma lição de fazer cinema

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15 de setembro de 2016

O Almanaque teve um bate papo descontraído e exclusivo com a diretora Anita Rocha da Silveira de “Mate-me Por Favor”, com logo seu primeiro longa-metragem, selecionado para a Mostra Competitiva da Première Brasil na edição do Festival do Rio 2015.

Após ganhar no Festival de Veneza deste ano o prêmio da crítica de melhor atriz dividido pelo elenco feminino, ela conversa sobre muitas coisas, desde como foi o trabalho árduo para selecionar e ensaiar as meninas que tiveram seu trabalho laureado, bem como sobre futuros projetos:

Anita já começa explicando como o teste de elenco foi bastante extenso. Divulgou em redes sociais e escolas de teatro sobre os papéis para seu longa. Começou com por volta de 200 pessoas no teste rápido. Reduziu pra 50, depois pra 12 e, enfim, chegou as 4 selecionadas. Ela precisava que compreendessem as nuances e alcançassem o desenvolvimento emocional apropriado. Ensaiou, por exemplo, algumas cenas que chocam mais logo de cara, como dizer que a atriz iria beijar uma morta, ou um garoto, ou mesmo beijar outra menina, e ir vendo como reagiam a isto. As meninas receberam vários filmes pra ver – tinham 14 ou 15 anos na época – pois as referências antes para elas eram ‘Malhação’ e ‘Glee’, sem desmerecer estas artes, porém Anita precisava incidir mais no naturalismo. Por isso trabalhou cenas juntas, às vezes adaptando palavras para se sentirem mais confortáveis, como ao invés de ‘cara’ usar ‘leque’ (diminutivo popular de moleque). Em geral as cenas foram filmadas de modo muito fiel ao roteiro, apesar de algumas coisas terem sido cortadas (quem sabe aparecem no futuro Bluray/DVD do filme).

Alguns dos filmes que Anita fez questão que o elenco visse, mais para a preparação cênica e tipos de interpretação mais introspectivas do que pelo conteúdo em si, foram “As Virgens suicidas”, “Paranoid Park” e “L’Apollonide”. O ensaio após essas referências foram chocantes, com outro modelo de atuação. Deu um clique muito rápido. Acabou que foram inseridos pouquíssimos improvisos, como a cena em que as meninas brincam de botar as pernas pra cima na grama. E só. Tudo estava descrito além dos diálogos no roteiro, que foi trabalhado por um bom tempo. A cena chapada no banheiro – plano sequência muito ensaiado – teve cada passo marcado, para apurar a reação de cada atriz. Uma não entende nada, outra ri muito…. Obviamente não estão chapadas, tudo interpretação milimétrica.

Na montagem final Anita confessa o quão pesaroso foi ter de cortar certas cenas e subtramas, apesar de gostar muito.

Sobre as escolhas de locação, que colocam a Barra da Tijuca num microscópio, ela procurou uma identificação universal. Afinal, aqueles condomínios gigantescos, cheio de segurança interna, mas isolados do resto existem muito na Índia, Argentina, etc…, ou seja, em vários países em desenvolvimento. Seu curta “Handball” já tinha sido filmado na Barra. E ela queria filmar lá. Os Terrenos pertencem a construtoras e não deixariam filmar sem cobrar muito. Mas várias áreas a Prefeitura vai cortar pra virar ruas e permitiu filmar lá, graças à ideia de um membro da equipe. Não iria poder fechar acesso público porque é ilegal, mas lá era excepcionalmente permitido com autorização prévia. E Fotos a paisagem muda muito, por isso estavam sempre lá acompanhando as mudanças. Em um mês e meio depois mudou tudo. O Terreno do final do filme, por exemplo, pegou fogo. E tinham de toda hora aferir o quanto tinha queimado o terreno pra ver se não havia estragado para as filmagens. Se o espectador for atento, perceberá na tomada final fumaça de verdade no canto da tela.

Quanto as ecolhas de conteúdo, os primeiros tratamentos do roteiro eram muito mais expressos, trabalhavam o que era expressamente ‘dito’. Só depois que foi chegando ao ‘não-dito’. Filmou, inclusive, dois finais diferentes até chegar a este. No fundo é sobre esses jovens e o que eles sentem e não sobre o assassino. Como eles sentem e vivenciam pela existência de um serial killer no bairro. Anita abriu mão da trama mais detetivesca. No primeiro tratamento do roteiro, tudo se resolvia no final, com muito mais pistas e narrativa policial tradicional. Numa consultoria de roteiro, viram que o primeiro final não funcionava. Depois, mais anotações.

A essência de suas personagens era a apatia. Não se sabe pra onde estão indo com suas vidas… Por isso a Barra – total falta de projetos e vontade – geração distópica, meio zumbi mesmo. Todo esse desejo e encanto com a morte e testar o corpo com o que a protagonista passa — é de todo adolescente.

Já a trilha sonora bastante composta de funk, muito característico do Rio, inclui tanto coisas mais modernas como funk evangélico, quanto  funk melódico, mais romântico e das antigas, com o do irmão que é o mais velho e trabalha como DJ. “Novinha vem cá” que toca na cena em que uma janela é quebrada na escola também foi feita para o filme. O Bonde do Rolê fez esta e a do culto evangélico “Vem Jesus”, que com certeza vai virar hit em memes da internet, pois é hilária. E a última música, a canção tema que encerra o filme a própria Anita fez, porque não tinha mais orçamento para nada.

Como próximos projetos, Anita possui outro argumento de longa-metragem também com mulheres fortes, porém desta vez talvez mais velhas. Perguntada se trabalhará de novo com as protagonistas premiadas que descobriu e revelou para o mundo, a diretora responde com segurança: “Claro, vamos ver se demoram as filmagens e as meninas envelheceram um pouco mais até lá. Sonho em 2017 já estar no set de filmagem novamente.” E com o sucesso garantido de “Mate-me Por Favor”, com certeza estará.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil Mostra Competitiva

Mate-me Por Favor (Idem)

Brasil, 2015. 105 min

De Anita Rocha Silveira

Com Valentina Herszage, Mari Oliveira, Julia Roliz, Dora Freind, Bernardo Marinho