Entrevista Helvécio Ratton do filme “O Segredo dos Diamantes”

A Aventura Juvenil perfeita para as férias

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26 de dezembro de 2014

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Diretor de filmes bem distintos entre si como “Menino Maluquinho” (1995) e “Batismo de Sangue” (2006), Helvécio Ratton retorna aos cinemas com a produção infanto-juvenil “O Segredo dos Diamantes”. Rodado em Minas Gerais, o filme conta uma história de caça ao tesouro com tempero bem brasileiro. Nessa entrevista cedida ao Almanaque Virtual, o diretor fala das influências que o motivaram nesse filme mais recente, dos problemas enfrentados pelo cinema nacional e, principalmente, da própria infância aventureira. Confiram na íntegra a conversa:

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“O Segredo dos Diamantes” é um filme com um aspecto regionalista muito forte. Quais foram suas influências para dirigir esse filme?

Eu acho que comecei a fazer esse filme desde criança. Eu morei no interior quando era garoto e a primeira lembrança que eu tenho de cinema é com cinco, talvez seis anos de idade, olhando aqueles cartazes dos filmes da matinê de domingo na década de 1950. Lembro do fascínio pelos filmes de aventura e menos por aquele território onde a gente escutava muitas histórias. Uma região onde tem ouro e pedra preciosa, obviamente, também é um lugar repleto de lendas. A minha família, a Ratton, é de São João Del Rei e a minha avó tinha um casarão enorme na cidade. Uma vez juntamos uns primos do Rio de Janeiro e outros de Belo Horizonte e quase derrubamos o casarão da minha avó achando que tinha alguma coisa escondida lá embaixo. Isso era algo muito recorrente. Fui influenciado por muita coisa da literatura universal, desde a “Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, passando pelos personagens Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Além disso, eu adorava os quadrinhos do Tio Patinhas, roteirizado e ilustrado pelo maravilhoso Carl Barks. Ele criava aquelas histórias de tesouros perdidos, cidades perdidas, características que me alimentaram muito e acabaram desaguando no filme. Obviamente, há influência do cinema americano, um cinema que lida com essa coisa do tesouro. O filme é um pouco uma salada antropofágica disso tudo.

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Percebe-se em “O Segredo dos Diamantes” a interação da modernidade com tradicionalismo. O protagonista tem no smartphone um guia tão necessário quanto as pistas que encontra no decorrer da aventura. Como foi trabalhar com essa realidade?

Minas Gerais tem esses cenários de cidades coloniais que praticamente são cenografias a céu aberto, quem sabe se aproveitar disso recria épocas com muita facilidade. Eu sempre gostei de brincar um pouco com a cidade como máquina do tempo. Eu quis criar essa história de caça ao tesouro, mas já usando as ferramentas modernas. Hoje, por exemplo, qualquer garoto tem um smartphone, acessa o Google e acha a informação que quer. O uso da tecnologia dentro do filme não cria uma contradição, mas um signo moderno em um contexto de outra época. Eu quis fazer uma caça ao tesouro onde o celular fosse uma ferramenta necessária.

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Após dirigir “A Dança dos Bonecos” (1986) e o “Menino Maluquinho”, você ficou conhecido como cineasta especialista em histórias para o público infanto-juvenil. A qual manobra você recorre para fugir do rótulo?

Na verdade, eu sempre gostei de ter obras diversificadas. Eu estreei filmando um documentário no hospício de Barbacena, foi meu primeiro filme, barra pesadíssima. Em seguida, fiz a “A Dança dos Bonecos” e o “Menino Maluquinho” veio na esteira. O Ziraldo me chamou para fazer, ele tinha adorado “A Dança dos Bonecos”. Depois disso, as pessoas me diziam que eu era um expert em cinema infantil. Não é bem assim. A “Dança” eu escrevi na época em que ia ao cinema com minhas filhas ainda crianças e vimos muitas produções bem ruins, tanto brasileiras quanto internacionais. Foi movido pela indignação com a porcaria que a gente assistia que eu escrevi “A Dança dos Bonecos”. Nasceu em mim esse sentimento de que a gente pode fazer filmes bem melhores, respeitando o público infantil e divertindo e estabelecendo uma conexão com o acompanhante adulto. Depois disso, eu quis fazer coisas diferentes, fazer o que de fato ia surgindo. Nunca quis seguir tal linha no cinema, nunca programei minha carreira.  Os filmes foram surgindo dessa forma, despertando interesse, emoção e atração. Depois eu fiz “Amor & Cia” (1998) , “Uma Onda no Ar” (2002), “Batismo de Sangue”. Os filmes infanto-juvenis eu não faço porque tenho uma missão, faço por um prazer enorme. Quando eu trabalho nesses filmes eu tenho um co-diretor comigo, o garoto que ainda mora dentro de mim, que se diverte muito com certas coisas, que me dá ótimas idéias. Com histórias desse tipo, dirigir é também uma diversão pelo fato de você não ter que ficar botando muito limite para a imaginação, o limite é o orçamento, mas dentre desse limite você pode brincar. É muito gostoso.

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O nosso cinema ainda padece de muitas fragilidades, a falta de incentivo e a burocracia que dificulta a chegada dos filmes nas salas de cinema são questões bem graves. Além disso, não estamos habituados com produções feitas aqui voltadas para o público mais jovem. Como você enxerga o atual cenário cinematográfico brasileiro?

A gente não tem tradição. O que eu sinto muito aqui no Brasil é que nós ficamos confinados entre a comédia e o filme de autor. Parece que os outros gêneros são proibidos. Eu quando cresci, vendo filmes, adorava todos os gêneros e quando me tornei cineasta achei que podia fazer de tudo. Adoro filme de terror, por exemplo, tenho vontade de fazer um filme de terror, mas aqui no Brasil parece que tem uma interdição. Existe a noção de que a gente não pode lidar com gêneros, gêneros não são a nossa praia. O cinema brasileiro, em si, tornou-se um gênero. Você chega na locadora e encontra a seção de terror, suspense, documentário e cinema brasileiro. É uma relação muito estranha que eu nunca quis me encaixar. O cinema infanto-juvenil importado atrai muita gente. Por que a gente não consegue fazer? As pessoas podem pensar que não temos competência para fazer efeitos. Pura mentira. Nós temos hoje uma competência absurda, meu filme, por exemplo, tem efeitos que não são nada simples. A possibilidade de interferir na realidade está sim muito à disposição de nós brasileiros e não custa tão caro como antes. Você tem que acostumar o público com produções nacionais. Não é difícil encontrar uma pessoa que viu o primeiro filme nacional aos dezoito anos de idade, um espectador que vai cheio de preconceito. Parece que o filme brasileiro é na realidade estrangeiro, apresentando um espelho que as pessoas não aceitam ver como se as nossas cidades não fossem tão bonitas quanto as de lá. É algo estranho que a gente fica sem conseguir quebrar.

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Você já está envolvido em outro projeto?

Eu vou filmar para a HBO, em forma de documentário, o livro “Holocausto Brasileiro” da jornalista Daniela Arbex. Nele, ela reconta a história do hospício de Barbacena do ponto de vista dos personagens que passaram a vida lá ou que perderam a vida nesse lugar. Na realidade, eu filmei no hospício há 30 anos, fiz o documentário “Em Nome da Razão” (1979) quando esse hospício era um verdadeiro inferno. Hoje ele foi humanizado, até tem algumas pessoas em regime de residência, mas com total liberdade de ir e vir. Esse meu documentário foi uma parte importante do movimento “anti-manicomial”. Agora vou voltar lá, mas do ponto de vista dos personagens, uma história forte, bem diferente do clima de um filme como “O Segredo dos Diamantes”.