Entrevista inédita e exclusiva com Marcélia Cartaxo com filme na Mostra Tiradentes

Multipremiado filme Pacarrete foi exibido no Cine Praça da 23ª Mostra Tiradentes

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28 de janeiro de 2020

Confira o bate-papo com a atriz Marcélia Cartaxo sobre o multipremiado filme “Pacarrete”, que foi exibido na Cine Praça pela 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em entrevista inédita e exclusiva cedida quando da exibição hors-concours de encerramento do 29º Cine Ceará:

Filippo Pitanga: Em primeiro lugar, se você poderia já dizer algo sobre longa que você vai dirigir, que você anunciou em Aruanda no ano passado. Já está encaminhado? Está em fase de pré-produção? Você pode falar um pouco mais?

Marcélia Cartaxo: Bom, o longa ainda está cru. A gente vai colocar em um edital em Alagoas, que vai ser por Maceió esse projeto. “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar” é o nome e conta a história de um caminhoneiro que faz sua trajetória do trabalho para sua casa e se descobre vivenciando uma nova paixão. Agora, como nós vamos fazer esse filme é que são elas, né? Vamos ter que aguardar. Mas assim, está em fase de preparação, a gente está mexendo ainda um pouco no roteiro, ainda estamos fazendo os tratamentos. Ele está no 7º tratamento, mas a gente ainda vai apurar até chegar lá. E vamos continuar apurando quando a gente tiver também filmando, mas ainda não está no processo de filmar, sabe? Ele está no processo de edital ainda.

F: Você é uma pessoa muito engajada, que se envolveu pelas políticas públicas do cinema na Paraíba, ajudou muitas coisas a seguirem em frente, teve uma comunicação com os poderes públicos. Aparentemente, todos estão muito atinados com a questão do audiovisual, crescente cada vez mais no nordeste e na Paraíba, em contra senso com o resto do Brasil que não está tendo o apoio federal. Como você sente essa apreensão mas ao mesmo tempo estar no meio de uma primavera em que o cinema nordestino está tão em alta, mesmo que o Brasil não esteja acompanhando?

M: Sim, foi extremamente importante a minha passagem. Eu saí do trabalho porque eu queria botar os meus projetos. Porque eu estando lá, eu não posso botar projeto. Aí, passei quatro anos lá e a gente agora está partindo lá para um novo edital. A gente ainda está esperando para ver como vão ficar as políticas culturais na ANCINE e tudo mais, mas estamos nos preparando para esse quarto movimento, que é trazendo roteiristas para poder avaliar nossos roteiros, tendo um aprendizado mais profundo principalmente no roteiro. E estamos assim, nesse momento de organizar, fazer os projetos e putar da melhor forma possível, com mais qualidade. Estamos nesse estágio. Mas a gente esteve uns três anos, quando a ANCINE estava bem politicamente, quando as coisas estavam andando para o Brasil inteiro, nós conseguimos e ainda estamos nos alimentando desse processo conquistado. Porque os filmes ainda vão ser lançados. Temos o filme do Marcus Vilar, que ainda vai ser lançado, temos o de Torquato, temos o de Eliéser e outros lá que agora eu não estou lembrando os nomes. Tem o de Bertrand Lira. Então, vamos todos lamber essas crias agora porque eles estão todos prontos, indo para festivais junto com os curtas também. Porque a gente também, nesses três anos, teve uma leva de curtas maravilhosos, que vai ser bom para essa nova geração, que eles estão experimentando muito. E essa repercussão dos filmes nordestinos no Brasil, que alavancou junto com Pernambuco, a turma de Pernambuco, que na Bahia estava começando a acender mas aí deu uma parada também. Mas Pernambuco, Paraíba e Ceará deu um boom muito grande. Porque era justamente isso que está acontecendo. Nós estamos, justamente, lambendo nossas crias que nós preparamos antes do Coiso entrar, entendeu? Então, a gente está vivendo essa oportunidade muito grande regional. É extremamente importante para a gente, para o nosso cinema, para a nossa história. Porque a gente sabe que a maioria dos prêmios nacionais são com histórias nordestinas, mas com diretores de outros lugares. Com diretores do Sul, que veem a gente daquele jeito. Mas agora somos nós que estamos contando essa história e é isso que está ficando bacana, sabe? Porque nós agora estamos apresentando, de fato, a nossa história, o nosso cinema, a nossa cultura. E isso só tem crescido porque a gente é baixo orçamento, a gente consegue ter muitas ideias com qualidade e nossos filmes estão aí, tocando o coração das pessoas. Eu acho que se a gente tem alguma coisa, um pouco de dinheiro que a gente possa sustentar a nossa cultura… Porque a gente viu aí outros filmes com muito dinheiro, uma puta estrutura em termos de comércio e, no entanto, não são boas ideias. Eu acho que a gente vai conseguir consolidar isso, sabe por que? Porque a gente é muito criativo, a gente consegue mostrar uma história social que não fica muito piegas, que não usa, por exemplo, a mulher como objeto para uma história. E isso que eu vou fazer, por exemplo, essa minha primeira direção nesse filme, eu tenho muitos desafios assim, mas eu não quero mostrar o caminho mais fácil, como é que faz aquelas coisas. Porque a gente já sabe. Eu acho que o grande lance de tudo isso é fazer com muita criatividade, sem magoar as pessoas, sem chocar as pessoas, mas mostrando a realidade das coisas…

F: …Com a luz que a “Pacarrete” demonstra. Uma última pergunta em relação a isso, para a gente também poder falar sobre história e história é nomear essa identidade. Como foi trabalhar com Zezita e com Soia? Vocês já tinham trabalhos anteriores, mas agora… É a primeira vez que as três estão juntas, né? Como foi, praticamente, essa bagagem revivida, mas também pela primeira vez?

M: A Soia, eu preparei ela no “Doce de coco”. Mas a Soia eu tenho uma amizade…

F: Sem falar do meu filme favorito dessa década que é o “A História da Eternidade”, que vocês, você e Zezita arrasam.

M: Então, a gente briga muito, mas a gente briga com qualidade. É tão interessante isso porque…

F: Vem novidade das tensões.

M: É. A gente briga, discute e aquele negócio ali é como se fosse um debate sobre aquela questão, mas que depois não vira briga. Ela resolve ali mesmo e dali a gente segue amigas e em paz. Mas com Zezita foi interessante porque eu fiz “A História da Eternidade”.

F: Um dos filmes mais lindos da minha vida.

M: Pois é. E a gente teve uma relação juntas. Eu muito mais do que com a Débora. Porque a Débora também foi outra. A Débora estava em “Doce de coco”, eu preparei ela, indiquei ela também para a “História da Eternidade” e ela também está no nosso filme. E também fiz junto com Zezita o “Velho Chico”. Então, eu conheço um pouco o trabalho da Zezita e é lindo demais a gente poder… E é um luxo a gente ter uma atriz nordestina, na idade que ela tem, lúcida e com muita vontade. Eu admiro demais a Zezita. E o João Miguel também, que foi extremamente importante. Porque o João Miguel entrou com um outro tom, também, de personagem nesse filme. Que é aquela pessoa doce, aquela pessoa amável, que é aquela pessoa que é apaixonante.

F: E é um retorno para o João Miguel também. Porque ele estava um pouco afastado do cinema, fazendo mais trabalhos na TV, no teatro. Então, de certa forma, esse é um grande reencontro do cinema com essas identidades.

M: Exatamente. E foi uma surpresa muito grande o João porque a gente não tinha a dimensão… O João Miguel, ele é falado, o trabalho dele, em todas as críticas, que é extremamente importante, que equilibra ali entre aquelas mulheres, que ele consegue trazer para a gente. E o João foi uma surpresa porque foi o primeiro quiquito, que abriu a nossa história dos quiquitos e a gente ficou tudo assim “Ah, quem vai buscar, quem vai buscar!”. Que surpresa linda foi essa! A gente não imaginava. Tanto que ele foi ver o filme, foi, sem nem… Com todo o desprendimento que ele tem como artista. Foi muito surpresa. E Soia também, Soia foi outra surpresa. Porque tinham outras tantas artistas coadjuvantes que podiam estar dividindo lá, mas a Soia foi uma surpresa, assim, muito linda. Porque eu vou dar entrevista nos lugares e eu tenho o luxo de levar a Soia comigo.

F: Ela conseguiu ressaltar o texto para se destacar de uma maneira especial, né? Eu estou ansioso para assistir. Eu vou ficar muito ali na animação, juntinho de vocês.

M: E faça uma crítica! Porque a gente gosta que falem, que digam alguma coisa, para a gente poder ir lapidando as coisas para os próximos projetos.

F: Pode deixar! Muito obrigado, Marcélia.