Entrevista – Sandra Kogut diretora de Campo Grande

"Campo Grande" estreia em circuito aberto, após ter passado com grande expectativa na Mostra Competitiva da Première Brasil do Festival do Rio 2015

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26 de maio de 2016

Quando às vésperas de pré-estrear seu novo filme no Festival do Rio na sexta-feira do dia 09 de outubro, Sandra Kogut concedeu uma entrevista exclusiva ao Almanaque Virtual, compartilhando o friozinho natural na barriga de quem vê pela primeira vez seu próprio filme todo de novo pelos olhos dos outros que verão sua estreia. Agora, enfim “Campo Grande” chega ao circuito aberto de distribuição, e retoma com ainda mais urgência e relevância a necessidade desta entrevista:

O método característico de Sandra filmar é completamente diferente do que se vê em geral na ficção: “Não gosto de fechar ruas, como se diria. Prefiro um estilo quase documental.”, afirmou. Ainda mais porque com todas as obras do metrô e BRT no Rio estamos todos vivendo uma cidade do caos. Ela complementa: “Então, por que não abraçar isto? Por exemplo: em determinada cena do filme, as personagens esperam em um ponto ônibus na Av. Epitácio pessoa, Jardim de Alah, e vários ônibus vão parando enquanto pessoas vão embarcando e pegando seus respectivos ônibus, entrando na frente da câmera e tudo mais.” Mas Sandra filma sabendo que ocorrem acidentes, em vários níveis, o que gera muitas vezes um trabalho invisível: “Trabalho pra parecer que foi sorte, ou às vezes se mistura a sorte com o planejamento total, pois não gosto de figurantes.” Seguranças, por exemplo, são obrigatórios e necessários hoje em dia, mas Sandra pedia pra não avisar quem eram, e aí combinava os pontos de filmar para eles não atrapalharem, e se aparecessem que fosse de forma natural. Ou mesmo de repente operários apareciam ali, faziam uma roda e sentavam para comer e conversar bem na frente de onde filmava. Sem falar que as obras faziam o cenário da cidade mudar completamente a cada semana. Um lado vivo. Às vezes mudando pra melhor.

Sobre o elenco adulto, apesar de o Almanaque Virtual perguntar se o sucesso da premiada peça “E Se Elas fossem Para Moscou” teria influenciado na escalação da ótima revelação Júlia Bernart, acontece que foi escalada muito antes da realização da peça. Grande amigo de Sandra, Pedro Freire, diretor e roteirista e preparador de elenco, com quem já trabalhou inclusive, soprou o nome de Júlia, e como Sandra estava fora do Brasil, foi muito útil receber dicas quando regressou e precisava compor o elenco. Já a Carla Ribas adveio do filme do Chico Teixeira, “A Casa de Alice”. E logo na preparação de ambas elas foram desenvolvendo uma química tão grande que foram até parecendo cada vez mais semelhantes fisicamente.

Sandra: “Não procuro atuações necessariamente,  e sim semelhanças com papel para poder encarnar e fazer conexões. Por exemplo, as atrizes, e juntando-se a elas Mary Sheila, que interpreta a personagem da empregada, ficaram todas morando juntas durante um tempo naquele apartamento.”

Como o próprio apartamento também era um personagem importantíssimo, assim que o conseguiram, ali entre Ipanema e Leblon, ele estava completamente vazio e tudo ali dentro foi completamente construído por Marcos Pedroso, e sua primorosa Direção de arte: “Tudo ali conta histórias, como por que o apartamento tinha aqueles móveis…. Constrói o mundo ao redor das personagens. Carla chorou quando se sentou no sofá por reconhecer seu personagem ali, ainda mais logo o sofá que é de extrema relevância para sua personagem. O apartamento como personagem aproxima da vida, vive-se dentro, acompanha-se todas as fases do apartamento e a cronologia nas filmagens.” O piano, por exemplo, é o pai que tocava para a filha. O que leva a uma das cenas mais líricas do filme, em que a personagem de Júlia toca Beatles para o menino desabrigado que ela e a mãe acolhem. Beatles era da época do pai, e seria o tipo de música que ele tocaria para ela menor, e a emocionaria sendo uma personagem tão doce.

Para a escalação das Crianças, Sandra não queria atores mirins. Achava que se encontrasse não-atores ideais, eles poderiam ser mais intuitivos e viver a personagem. Foi até mais fácil e rápido de encontrar tanto o Ygor quanto a Rayane, apesar de terem procurado outras crianças depois, mas permaneceram com as que haviam selecionado no início pra serem irmãos. Sandra também elogia muito a preparação de elenco tão especial de Fátima Toledo (também preparadora do elenco de “Boi Neon”, outro filme presente na Première Brasil este ano), pois Fátima faz uma preparação surpreendentemente física, que exige também emocionalmente dos atores: “Tanto que as crianças não puderam ver o apartamento onde se situaria a trama até serem levadas para filmar as primeiras cenas lá e levarem o choque por si próprias. Da mesma forma que suas respectivas personagens, começando por não poder ultrapassar a porta da área de serviço, e só depois ir adentrando mesmo a casa, como se fossem estranhos ali. Ygor até passou mais tempo com o elenco adulto, por possuir mais cenas com elas”, declara a diretora.

Sobre o final mais abertos, Sandra diz que não chegou a filmar mais de um final, pois crê que são perguntas que o espectador vai querer responder após a sessão sobre o destino de suas personagens. Muito do que acontece em tela é muito mais implícito do que explícito, como o fato de durante toda a projeção as personagens estarem sutilmente encaixotando coisas no apartamento sem nunca dizer para quê ou por quê. Esses detalhes realmente fazem a obra continuar mesmo após a sessão.

Sobre planejamentos futuros, Sandra afirma que possui vários textos com que pretenderia trabalhar, mas prefere não falar mais profundamente deles até que estejam mais concretos. Mas comunga um fato curioso e recompensador que ocorreu no final das filmagens de “Campo Grande”, quando Ygor Manoel que interpreta o menino pequeno chegou para Sandra e falou que quando crescer quer ser igual a ela, o diretor do set. É o cinema nacional fazendo filmes e plantando a cultura do futuro.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Campo Grande (idem)

Brasil, 2015. 109 min.

De Sandra Kogut

Com Carla Ribas, Júlia Bernart, Mary Sheila, Ygor Manoel, Rayane do Amaral