Era O Hotel Cambridge

Mesclando a linha tênue entre matéria-prima real e produção artística que cura

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18 de outubro de 2016

Vencedor dos prêmios de público e o prêmio Fipresci da crítica no Festival do Rio 2016, “Era o Hotel Cambridge” de Eliane Caffé pulsa em suas veias sobre uma questão muito atual, a Ocupação como tática de guerrilha popular necessária para se manter uma posição de resistência perante as recentes privações de direito. Como foi o caso de estudantes que ocuparam escolas contra reformas do ensino e abandonos de infraestrutura; ou personalidades das artes que ocuparam Ministérios da Cultura quando o novo governo interino provisório anunciou que iria cortar auxílios aos setores… E, como sempre, os principais prejudicados seriam a periferia e aqueles com pouco ou nenhum acesso à cultura como elemento social libertador. Aqui, a história foca em um tipo de ocupação negligenciada há muito tempo, que ganhou luz apenas quando nas recentes Olimpíadas do Rio se noticiou que pela primeira vez atletas refugiados estariam competindo sem representar qualquer Pátria. E, assim, os brasileiros começaram a entender que possuem toda uma população acolhida de guerras e situações de extrema pobreza, como reflexo de políticas externas perante a ONU, como foi o caso do auxílio ao Haiti, gerando inúmeros sem-teto desprovidos de integração social.

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Apesar de possuir alguns nomes de extrema experiência dramatúrgica no elenco, como José Dumont e Suely Franco, cada qual com seu momento, como Suely e a complexa história do elefante Babás, a maior parte de não atores em cena é que brilha intensamente, mesclando a linha tênue entre matéria-prima real e produção artística que cura. O filme passeia de início por esquetes agridoces para ir pesando o tom mais e mais num pseudo documentário, numa função metalinguística de identificação social capitaneada pelo personagem fictício criado por José Dumont que dirige o filme dentro do filme. Até que a mistura de encenação com uma quase leitura da realidade, tipo um “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, começa a se tornar tão veraz que se fica na dúvida se a equipe de filmagem de fato estaria acompanhando o movimento de esbulho de prédios abandonados ou vice versa.

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O ritmo da projeção vai ganhando uma montagem populosa à la “Carandiru” do saudoso Hector Babenco, respeitando cada personagem com seu tempo em cena, ao mesmo tempo que o deixa respirar fora de tela para voltar com o mesmo nível de identificação de onde parou. E Eliane ainda tem a ideia de acrescentar linguagens em fontes alternativas com imagens de celular e webcam, democratizando os meios de comunicação, onde ironicamente quem pode não ter uma propriedade ou uma casa para chamar legalmente de sua, ainda tem o direito à comunicação e acessibilidade que a internet e aparelhos eletrônicos emancipam da prisão social. Vide o uso de imagens e vídeos de arquivo de veículos informativos sem quaisquer amarras, como a Mídia Ninja e Jornalistas Livres, mesmo que o filme corajosamente contenha no elenco alguns atores ‘globais’, cuja emissora acorrenta o direito à informação a leis de mercado e publicidade. Ou seja, o filme consegue retratar algo extremamente real e se usa de registros verídicos e livres, mesmo não deixando de ser Cinema com C maiúsculo à serviço do entretenimento que faz refletir.

Além disso, faz também o movimento inverso à modernidade de mídias, utilizando-se ou de muitos planos-detalhes e closes para manter o lado humano, ou de performances intimistas de dança e canto, sem perder foco humano dos indivíduos. Destaque para alguns personagens inesquecíveis como a líder do grupo na pele da inesquecível Carmem Silva, e os refugiados como o poeta palestino que também rouba todas as cenas em que aparece (Isam Ahmad Issa) e o africano apaixonado que dá um toque de romance ao coletivo…

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A narrativa consegue evoluir para um novo patamar a cartilha dos excelentes trabalhos anteriores de Eliane, como o premiado “Narradores de Javé”, sendo pungente sem maniqueísmos nem piedade. Como mostra a cena que José Dumont confere as respostas de ódio do povo aos vídeos postados pelos refugiados sem-teto no blog deles, mandando todos voltarem pra suas terras natais. Bem como também na cena final, que reflete a repressão policial aos movimentos sociais nos últimos tempos. Um filme que usa a produção de forma inteligente e elegante a parecer que foi feito modestamente com as mesmas técnicas de guerrilha que retrata, para dar o poder de volta ao cidadão.

Um filme multipremiado que merece e necessita viralizar para gerar mais e mais reflexões sobre os direitos do cidadão. Direitos que nunca foram tão urgentes e também tão combatidos pelas instituições falidas moralmente a partir do momento em que rejeitam o indivíduo como parte da coletividade. Um indivíduo que merece moradia, educação, trabalho, saúde, segurança, lazer e a defesa de seus interesses pelo mesmo poder público que lhes anda negligenciando e lançando bombas de “efeito moral”. Que moral? Que moral eles têm quando estas bombas são lançadas por policiais sem pagamento que não podem fazer greve senão podem ser presos, sob a ordem de autoridades que desviam verbas, e onde só quem sai machucado é quem já não recebe ou não tem onde morar?

Que o riquíssimo debate trazido pelo filme possa projetar cada voz em um turbilhão para se fazer ouvido. Que a discussão sobre moradia básica, direito de ocupação e de se manifestar, dos brasileiros nativos ou imigrantes ou refugiados, independente de classe, credo ou diferenças, possa tocar a todos e se prolifere como instrumento de defesa. Que este filme possa ser seu instrumento de defesa para causas humanistas.
Que o espectador se sensibilize e entenda que a moradia nunca esteve tão ameaçada, em épocas de despejos por falta de pagamentos de hipotecas ou financiamentos, e mesmo de imóveis eternamente estagnados com placas de aluga-se ou vende-se numa Diáspora imobiliária impulsionada pela bolha que superinflacionou os imóveis e os bairros, de modo a criar bolsões vazios e subaproveitados que parecem uma infeliz ironia frente tantos sem-teto abandonados pelo Estado.

Um filme cuja pungência vai além da política e arregimenta a plateia com pura linguagem cinematográfica que nunca traduziu as táticas de guerrilha popular com tanta emoção e tensão ao mesmo tempo. Forte e delicado, esse estandarte humanizado.

Festival do Rio 2016 – Première Brasil

Era o Hotel Cambridge (idem)

Brasil, 2016. 90 min

De Eliane Caffé

Com José Dumont, Suely Franco, Carmem Silva

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5