Era Uma Vez Brasília

Atropelados por um caminhão cinematográfico sci-fi brasileiríssimo

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20 de novembro de 2017

Sabe quando você é atropelado por um caminhão?! Ou talvez não, pois se fôssemos atropelados por um caminhão não estaríamos aqui comungando esse texto sobre este filme. Mas é como se “Era Uma Vez Brasília”, novo longa do revolucionário Adirley Queirós, houvesse tido efeito similar, metaforicamente falando. Adirley já havia conseguido com seu primeiro longa-metragem, “A Cidade é Uma Só?”, subverter o gênero cinematográfico com a metáfora de um pseudo-documentário, que é mais documental do que muita ficção ao acompanhar uma campanha política de fato de um dos moradores da Ceilândia, comunidade periférica de direitos no opressor Distrito Federal de Brasília, que é protagonista de todos os seus filmes. Depois, em “Branco Sai, Preto Fica” deu um salto maior ainda e misturou ficção-científica na fusão trazida do filme anterior de docuficção, retratando a luta de resistência política de uma estação de rádio e simultaneamente a viagem no tempo de um agente do futuro que queria impedir que as coisas dessem ainda mais errado nas realidades alternativas a que o presente poderia levar. Seus filmes foram multipremiados, especialmente “Branco Sai, Preto Fica” no 47° Festival de Brasília em 2014.20708437_10207919669309421_8926321783847588568_n

Adirley volta à Competição na qual se consagrou, agora com “Era Uma Vez Brasília”. E, logo numa quinquagésima edição histórica de aniversário do Festival, que acompanha a história e as revoluções do Audiovisual Brasileiro desde o Cinema Novo, dois duros e difíceis triunfos incomparáveis são alcançados: o primeiro é realizar o sonho de criança, a minha criança interna e qualquer criança que tenha vivido a década de 80, em conseguir verter para a Telona Brasileira de raiz a ficção-científica de “Blade Runner”, “Mad Max”, “1984” e até “Fuga de Nova York”, sem jamais perder o foco social de nosso presente engajado. E, em segundo lugar, conseguir alcançar a representação de uma assumida derrota aterrorizadora que a sociedade anda vivendo desde o desmonte do Estado pela nova administração pública em esferas tanto Federal quanto Estaduais e Municipais, desde a manobra político-parlamentar que gerou uma dança das cadeiras na Presidência do Brasil, sem o poder do voto em eleições populares de seus cidadãos legitimados pela Constituição Federal. Todavia, por favor, não confundir o corajoso grau de pessimismo com derrotismo, pois é justamente entre estas duas fronteiras tênues que Adirley tece sua teia de conexões.

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Como é ousado desde o anúncio de sua primeira exibição no 70° Locarno Film Festival este ano que Adirley tenha classificado sua ficção-científica como um documentário, valendo-se do fato de que o que pode ser visto como sci-fi ou cinema fantástico, também pode ser visto como devaneio concreto da válvula de escape de personagens que de fato coexistem com a realidade ao nosso redor. O ato consciente de omitir a espinha dorsal que seria considerada uma narrativa tradicional, e simplesmente nos lançar em meio a uma poderosa ambientação à la Joãozinho Trinta, que transforma com extrema elegância material reciclado em direção de arte retrô-futurista, abre um leque sem precedentes de possibilidades.

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De repente, estamos misturados a personagens que poderiam ser nossos conhecidos ou vizinhos na vida fora da tela, com relatos verazes que confundem a realidade com sonho, ou pesadelo. Um misto de depoimentos que podem ter advindo da experiência pessoal do elenco, da equipe ou que estamparia jornais sensacionalistas, pois a mídia principal não está interessada em relatos de gente como a gente. Gente de fora dos centros urbanos, dos meios de capital. Gente que apenas começa a agir de forma estranha por começar a trajar armaduras improvisadas em campos de treinamento montados de forma criativa, para combater com táticas de guerrilha um mal que é ao mesmo tempo concreto e abstrato, passível de ser derrotado e invencível. A frágil linha tênue descrita acima entre pessimismo e derrotismo.

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Este mal recente todo brasileiro conhece bem. Está nas televisões, na internet, além de estar dentro do filme como se estivéssemos escutando as mesmas notícias que os personagens, desde o famigerado Impeachment. Uma ocupação política ilegítima e de extrema direita conservadora, a partir do que parte da população convencionou chamar juridicamente de Golpe Parlamentar (em comparação com o Militar de 1964). E, como os reordenamentos governamentais continuam a mudar leis e regras a bel prazer, no geral em detrimento do povo/cidadão, compreende-se de onde vem o mal-estar do tal pessimismo referido nesse texto. Um filme que admite que o Brasil perdeu a batalha, mas não a guerra. E talvez por isso que a recepção ao novo trabalho tenha sido tão dividida. Não é fácil receber nossa própria derrota impotente.

Vem a calhar aqui uma analogia utilizada pelo amigo crítico e almanaquista, Rodrigo Fonseca, para descrever “Era Uma Vez Brasília” como uma ‘bomba de efeito retardado”. Não apenas pela dificuldade de se falar em algo que ainda não foi totalmente digerido nem aceito. Até porque esta impotência não é apenas individual, mas coletiva, em uma culpa permissiva e pregressa ao estado atual das coisas, que já desunia e desagregava a população em geral. O que diria, então, de todo o filme ser feito com, onde e por uma territorialidade e seu povo que são demarcados pela Ceilândia, comunidade em Brasília de onde vem o próprio diretor, sua equipe e elenco. Tudo tem sua propriedade de fala numa união social que, pelo próprio modo de produção, já demonstra a antítese da nossa impotência como espectadores, que não conseguimos impedir a crise política que nos foi imposta.

Porém, ao mesmo tempo, a ‘bomba de efeito retardado’ também se refere ao soterramento que sofreram todos os concorrentes incríveis desta edição histórica do 50° Festival de Brasília pelas polêmicas e tretas geradas por outro competidor: “Vazante” de Daniela Thomas. Isto seria uma inversão cruel e injusta da disputa de narrativas, visto que a própria produção de “Era Uma Vez Brasília”, aquecendo e visibilizando todo o entorno da comunidade regional como um sujeito coletivo, estaria para uma antítese à invisibilização objetificante provocada por “Vazante”.

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Passada a revoada desde o Golpe, ou mesmo do 50° Festival de Brasília e o glacê de bolo da polêmica de “Vazante”, o que fica?! “Era Uma Vez Brasília” é um salto gigantesco de refinamento e criatividade imaginativa perante seus filmes anteriores, reflexo da amplitude do espírito de unidade que a equipe do filme lhe emprega, com um equilíbrio plural de nomes masculinos e femininos muito fortes, como a produção de Simone Queiroz e a fotografia premiada em Brasília de Joana Pimenta, além da direção de arte revolucionária de Denise Vieira que eleva o quesito no Cinema Brasileiro para outro patamar. Há de exemplo o carro/espaçonave e a homenagem à Cúpula do Trovão do terceiro filme da franquia “Mad Max”. Há de exemplo o carro/espaçonave e a homenagem à Cúpula do Trovão do terceiro filme da franquia “Mad Max”. Carrega enorme poder cenas em que seus personagens apontam e disparam armas fictícias na direção da Praça dos Três Poderes na Esplanada do Planalto, possibilitado pela junção entre arte e fotografia, em alguns dos frames mais possantes da década.

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Há de se ressaltar, porém, outro nome feminino do filme que rouba a cena, a atriz Andreia Vieira, que evoluiu de vez a cartilha narrativa de Adirley, acrescentando uma protagonista incrivelmente forte ao conjunto textual que antes lhe era predominantemente masculino. Esta pluralidade era extremamente importante se Adirley de fato almejava representar o povo em toda a sua autenticidade. Andreia tem um vigor em cena que consegue até ofuscar às vezes o ator-assinatura de Adirley, Marquim do Tropa, desta vez em papel menor, porém não menos importante. Definitivamente um passo à frente na filmografia do cineasta, sem nenhuma pretensão de superar ou continuar o cult máximo “Branco Sai, Preto Fica”, apenas ampliar o escopo de abraçar a dissonância e a aceitação da possibilidade de derrota como manifesto de triunfo.

Um filme dos mais ousados por ter a coragem de lidar com o difícil pessimismo que o povo Brasileiro está enfrentando agora, a admissão da própria derrota na batalha presente, mas não na Guerra! Um filme que nos convoca a sentir um mal estar inebriante como poucos, evocando fluidos de uma ficção-científica demasiadamente humana à la Andrei Tarkovsky, em meio a personagens tão verazes que poderiam ser eu e você, que nos convocam a virar a página da culpa pessoal pela derrota e a lutar (em um dos maiores anticlímax propositais da história do cinema brasileiro, pois a luta final não estará ali contida na tela de maneira ficcional, e sim da plateia para fora das salas de cinema).

O filme ganhou Menção Honrosa no Prêmio ‘Signs of Life Section’ no 70º Locarno Film Festival, além dos prêmios de melhor direção, melhor fotografia e som. E, agora, recebe a láurea máxima de melhor filme pelo Júri Oficial da 9ª Semana – Festival de Cinema do RJ.