Era uma vez… no Rio Grande do Sul

Sem a solenidade habitual de seus épicos históricos, o escritor e cineasta Tabajara Ruas faz de 'A cabeça de Gumercindo Saraiva' uma preciosa e brasileiríssima releitura do faroeste, como gênero e como espaço de reflexão sobre a honra

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25 de outubro de 2018

Tabajara Ruas dá instruções à equipe e ao elenco de "A cabeça de Gumercindo Saraiva" nos sets de filmagem

Tabajara Ruas dá instruções à equipe e ao elenco de “A cabeça de Gumercindo Saraiva” nos sets de filmagem de seu longa-metragem: um bangue-bangue à gaúcha

Rodrigo Fonseca
Tem bangue-bangue em múltiplas mídias, na esteira da dupla consagração do filão em Veneza, com o prêmio de Melhor Roteiro para “The ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Joel e Ethan Coen (pepita da grade da Netflix), e o troféu de Melhor Direção para “The Sisters brothers”, do francês Jacques Audiard. Mas o Brasil também tem a sua cota de western, na forma de um “Rastros de ódio” à moda gaúcha que entra nesta quinta-feira em circuito: “A cabeça de Gumercindo Saraiva”, canto de cisne do genial ator Leonardo Machado (de “Em teu nome”), morto após uma batalha contra o câncer. A tensão deste longa-metragem evoca a tradição mais trágica do gênero, que sempre tem releituras fora dos EUA.

Pautado no revisionismo crítico histórico, elegendo índios e mulheres para o posto de protagonismo antes ocupado por pistoleiros sem lei, nem alma, o bangue-bangue amplia sua presença na grade dos canais de streaming (vide “Godless” na Netflix) e no circuito. Mas a América Latina é repleta de filmes recentes – do México, da Argentina e do Paraguai – que usam a cartilha do western de maneira original, com êxito de público. A maioria dos casos cai na categoria do “faroeste contemporâneo”, ou seja, a cartilha clássica do filão aplicada em tramas ambientadas em nossos dias, como é o caso do paraguaio “Luna de cigarras”, de Jorge Diaz de Bedoya. Agora é a vez de uma produção brasileira avançar por essas pradarias. E o mérito é de Tabajara Ruas.

Embora seja mais reconhecido em âmbito regional, nas estâncias do Sul, o escritor e cineasta gaúcho, autor de romances saborosos como “A região submersa”, conquistou para o gênero épico (histórico) um espaço de honra nas telas brasileiras. Trata-se do mais prolífico realizador do filão no país, com filmes como “Netto perde sua alma” (2001). Há bons filmes dele, como “Senhores da guerra” (2014) e “Netto e o domador de cavalos” (2008), pouco conhecidos por estas paragens. Mas há nele um léxico muito particular, que funde História, Howard Hawks e elementos da cultura gaúcha. Há um tom solene em sua obra – com ecos de John Ford – cuja digestão nem sempre é fácil num país pouco cuidadoso com seu passado, como é o Brasil. Mas a solenidade que, em geral, rege a obra de Tabajara dá licença a uma narrativa mais arejada e pop no frenético “A cabeça de Gumercindo Saraiva”, uma das melhores surpresas nacionais de 2018… de longe. Tem ação, tem debate crítico, tem memória e tem uma reflexão sobre a lealdade como um patrimônio dos afetos.

É um ensaio sobre honra na linha dos faroestes B feitos por italianos como Tonino Valerii (“O dia da ira”) e Giorgi Ferroni (“O dólar furado) nos 1960 e pelo americano Sam Peckinpah, em “Meu ódio será sua herança” (1969). Um cheiro de pólvora perfuma os planos (muito bem) fotografados por Alexandre Berra (de “#garotas: O Filme” e “A oeste do fim do mundo”) com um apuro humanista de sempre buscar os olhos de seus personagens nesta releitura de uma lenda gauchesca, relativa à Revolução Federalista de 1895. Na lenda, já transposta para o seio da literatura pelo próprio Tabajara, um oficial legalista ordena que o crânio de um famigerado inimigo, Gumercindo, seja levado até o governador pelo major Ramiro de Oliveira (papel de Murilo Rosa, inspiradíssimo, com ares de Giuliano Gemma). Mas no rastro de Ramiro está o filho de Gumercindo, Francisco, vivido pelo já saudoso Leonardo Machado, que nos deixou em setembro deste ano. Um bom elenco gaúcho, com destaque para Marcos Verza (no papel do iracundo Caçapava), amplia o calibre de tensão deste western nacional.

Marcos Verza vive o indomável Caçapava, destaque do elenco  (fotos de Dulce Helfer)

Marcos Verza vive o indomável Caçapava, destaque do elenco (fotos de Dulce Helfer)

Vale lembrar que o faroeste já esteve entre nós antes em filmes como “Rogo a Deus e mando bala” (1972), de Oswaldo de Oliveira, e “Gegório 38” (1969), de Rubens da Silva Prado, sem contar o momento Ford de Glauber Rocha no seminal “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, que completa 50 anos em 2019. O filme de Tabajara areja nossas recordações mais emotivas desse terreno da ficção, cheio de contradições, mas riquíssimo em nossa análise sobre honra, palavra que justifica muitos crimes, mas que norteia muitas conexões.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4