Escolas em Luta

Cartilha de resistência para sobreviventes do Golpe

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22 de novembro de 2017

E o grande prêmio da 4ª Mostra de Cinema de Gostoso em Maceió foi o longa-metragem “Escolas em Luta” dirigido por Eduardo Consonni, Rodrigo Marques e Tiago Tambelli e produzido por Fernanda Lomba.

Confira a lista completa de vencedores aqui:

http://almanaquevirtual.com.br/4a-mostra-de-cinema-de-gostoso-premiacao/

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E a crítica do filme no Almanaque Virtual, o qual também já havia sido exibido na 9ª Semana – Festival de Cinema no RJ, no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e no Cachoeira Doc:

O Brasil está em plena transformação. Estamos em meio a uma ascensão do conservadorismo político com inúmeras recessões não apenas econômicas, como de ideais. Estas recessões estão revogando ou esvaziando leis e instituições que nos últimos anos haviam tido fomentos públicos em prol de políticas afirmativas com grandes avanços democráticos, como o sistema de quotas, por exemplo. E um dos setores com maiores ataques claros e assumidos decerto é a educação e a cultura, dois direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de forma extremamente entrelaçados. À conta disso, começou a ser visto um forte movimento de ocupação estudantil de escolas por todo o Brasil contra a modificação extremamente danosa do ensino público, porém com foco mais organizado em larga escala justamente em São Paulo, o que se tornou o foco do documentário revolucionário por si só: “Escolas em Luta” de Eduardo Consonni, Rodrigo Marques e Tiago Tambelli.

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Diga-se revolucionário não necessariamente por reinventar a roda, todavia por ser, o próprio filme, uma cartilha de defesa de direitos e perpetuação da resistência por si só, na elaboração da forma e do conteúdo. Um exemplo a ser seguido tanto quanto o dos estudantes. Em primeiro lugar porque a obra se coloca na crista da onda dos movimentos afirmativos do cinema também, como respeitando o lugar de fala dos estudantes ao providenciar câmeras para que eles próprios pudessem filmar sua rotina dentro das escolas ocupadas. Isto foi imprescindível para que não apenas os pais desses jovens como os espectadores perplexos que assistiam do conforto de suas casas pudessem entender que não se tratava de anarquia púbere, e sim de um movimento consciente e bem estruturado de uma juventude que resolveu assumir a responsabilidade sobre sua própria formação. E não apenas em fazer uma declaração em conservar a escola onde apenas estudantes transitavam e se comunicavam oficialmente, mas também por eles próprios se reavaliarem como receptores culturais de uma base que está prejudicada e parcial há muito tempo, sem atentar para a pluralidade dos jovens que ensina. Uma educação unidimensional e sem via recíproca, homogeneizante e anódina.

As imagens, na verdade, são uma compilação de muitas fontes e mídias. Claro que há uma parte da narrativa que recorta entrevistas de telejornais bastante conhecidas, com gafes de políticos completamente alheios à potência dos estudantes em mudar um país, tanto quanto em reconhecer os próprios erros. E com tanta visibilidade que eles já recebem, é de se convir que bastasse o inebriante discurso ali contido nas imagens de arquivo sem necessitar trazê-los para um debate em que já começam aquém do assunto tratado, pois verticalizam a hierarquia de fala a suprimir os jovens, aqueles que justamente interessam e cuja vida está em jogo. Portanto, ao entrecortar a narrativa com a dialética entre o discurso do opressor e a resposta dos oprimidos, o filme ganha uma potência de luta na tela que pode ser reproduzida e continuada na consciência do espectador.

Há cenas de extrema força bem como de inesperada dor, como quando a câmera sai de dentro das ocupações para mostrar os estudantes (lembremos que a maioria é menor de idade) em ação e sendo rechaçados violentamente pela polícia sem qualquer cerimônia. E, mesmo que se diga estarem apenas seguindo ordens, e que os estudantes paralisaram o tráfego da grande São Paulo ante trabalhadores que também possuíam o direito de ir e vir no trânsito, há de se reconhecer o impacto da falta total de comunicação ou negociação que falhou absurdamente ao evidenciar a ignorância do Estado e sua política de repressão à força a qualquer custo. Tudo poderia ser negociado. E o filme é, hoje, uma prova pós-fato. Uma evidência jurídica. Útil para a defesa dos próprios estudantes que, após as ocupações que saíram vitoriosas em impedir as modificações da Lei no esvaziamento do ensino público, ainda tiveram de mudar de escolas ou mesmo de cidade, pois foram perseguidos e estigmatizados. Uma inversão de valores, pois foram eles os bravos guerreiros que defenderam um ideal em benefício de todo um precedente nacional. E o que poderia ser melhor do que um filme virar libelo e registro cabal de um direito público e personalíssimo?! Não dá para se pedir mais.

Um documentário com fortes momentos de tensão, suspense e terror como amostras exemplificativas do que todo brasileiro está enfrentando na defesa de seus direitos, mas igualmente um documentário com belos momentos de lucidez e consciência coletiva, de união sem precedentes que fez história entre escolas de regiões diferentes que nunca haviam antes se integrado em uma só voz. Um documentário de poder dos estudantes, de senso de autocrítica dos próprios direitos e de que formação almejam para si. Um documentário que mostra a liderança das mulheres, que eram a maioria das líderes estudantis. Vale denotar que este filme se complementa muito bem com outro longa sobre o mesmo assunto, mas com pontos de vista diversos, o filme “Lute como Uma Menina” de Flávio Colombini e Beatriz Alonso (liberado no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oA ), que foca mais nas líderes mulheres do movimento, ao mesmo tempo que se liga ao curta “Educação” de Isaac Pipano e Cezar Migliorin. Além do livro “Escolas de Luta” de Antonia Malta Campos, Jonas Medeiros e Márcio Moretto Ribeiro.