À espera de um milagre

Vicente Amorim, diretor fala da cinebiografia de Irmã Dulce

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25 de novembro de 2014

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Bem-aventurada dos pobres do Brasil, adorada em orações por seu atos de caridade e cruzadas de fé, Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992), a Irmã Dulce, fará um milagre econômico para o circuito exibidor nacional e provar que o filão católico pode ser um nicho rentável para o cinema no país. Nesta quinta-feira, sua campanha missionária em prol da bondade ganha às telas, pelas mãos do diretor carioca Vicente Amorim, de “Um homem bom” (2008), tendo Bianca Comparato e Regina Braga (duas das maiores atrizes brasileiras) como intérpretes, em distintas fases de sua vida. Como toda e qualquer ação cinematográfica apoiada em bases religiosas, o longa-metragem vem sendo alvo de patrulha ideológica e mesmo mercadológica, uma vez que o último filme com a mesma toada, “Aparecida – O milagre” (2010), de Tizuka Yamasaki, naufragou nas bilheterias. Nesta entrevista por e-mail ao “Almanaque Virtual”, Amorim faz sua defesa estética de “Irmã Dulce” como um fenômeno pop e como uma reflexão sobre o conceito de Bem.

Foto: NADA Audiovisual

Que olhar “Irmã Dulce” traz sobre a discussão de Bem e de Mal? Qual é o conceito de Bondade que o filme apresenta na construção da figura de de Dulce? 

​Irmã Dulce foi uma mulher muito à frente do tempo dela.  Uma mulher extraordinária que quebrou paradigmas e desafiou regras de uma instituição que precisava de reformas.  Dito isso, não podemos ignorar que ela era um freira. O filme narra a vida de uma freira católica, portanto, e o conceito de Bondade nele não poderia ser totalmente desconectado do conceito cristão.  No cristianismo a Bondade e o Livre Arbítrio são indissociáveis.  Deus ensina o homem a fazer o bem, mas lhe dá o Livre Arbítrio para que escolha se (e como) vai fazê-lo.  A escolha que Irmã Dulce faz a partir da epifania que tem ainda criança define quem ela será o resto da vida.  Deste ponto de vista o conceito de Bondade cristã se encontra com conceitos existencialistas: somos as nossas escolhas.  Ela, contra todas as tentações da sociedade (e mesmo da instituição), escolhe fazer o bem da forma mais pura e mais cheia de sacrifícios, sem temer os obstáculos que evidentemente enfrentaria.

Seu cinema busca com recorrência autoral figuras que vivem um certo autismo em relação ao real, por estarem reféns de seus sonhos, missões ou ideologias. De que maneira a figura de Dulce se encaixa nessa sua busca artística? Os temas da fé e do autossacrifício, inerentes a filmes seus como “Um homem bom” (2008) e “O caminho das nuvens” (2003), foram a conexão? 

​A grande conexão com meus outros filmes é que Dulce é uma personagem marcada por sua escolha, como são Romão, no Caminho das Nuvens, Takahashi, em Corações Sujos, ou John Halder, no Um Homem Bom.  Todos são, como diria Romão, seres “destinados”​.  Nos quatro filmes os personagens se doam a uma causa. A grande diferença é a certeza que Dulce carrega desde criança — a certeza que vem da fé, do esteio que é a fé para quem crê.  Deste ponto de vista, ela e Romão, o personagem de Wagner Moura em o Caminho das Nuvens, se aproximam.  Eles têm a certeza que vem da fé e em nenhum momento duvidam dela — mesmo que o espectador veja que um pouco de relativização pudesse ter ajudado Romão na sua odisseia.  Já Takahashi, de Corações Sujos, e John Halder, de Um Homem Bom, fraquejam depois das suas escolhas, têm dúvidas, mas não podem mais voltar atrás depois de se darem conta que escolheram o lado errado. ​Nenhum desses personagens, aliás, pode voltar atrás.  Dulce nem cogita (e porque deveria?).  O exercício do Livre Arbítrio num determinado momento define quem são.  Dulce escolhe o Bem.​  Mesmo que nem todos os personagens tenham escolhido o Bem, nestes quatro filmes a diferença entre o Bem e o Mal é muito clara.  Sua existência define os personagens e os filmes.

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 Como fã do cineasta americano Howard Hawks, que entrava em filmes sem necessariamente ter conexões pessoais (ou autorais conscientes) com ele, você embarcou em um biopic sobre caridade. Que personagem é essa que te levou a falar de um assunto ainda distante da tua obra? 

​Mesmo que alguns dos filmes que fiz não tenham sido originados por mim, eles chegaram até mim por causa dos que eu tinha realizado antes.​ ​ Uns são consequência dos outros.  As vezes procuramos os projetos, às vezes os projetos nos procuram, mas os temas são comuns.  Se eu fizer uma comédia esta também será pessoal (​aliás, ​tenho feito o gênero na TV, e tenho adorado). As conexões entre Irmã Dulce (o longa e a personagem) e meus outros filmes, como você vê na resposta acima, são muitos.​  Nos filmes que fiz há sempre uma tentativa de ordenar o caos por parte dos personagens e, deste ponto de vista, Irmã Dulce é meu filme mais pessoal: ele é abertamente sobre a Ordem e o Caos — e o que surge deste encontro.

Qual é a responsabilidade ética de dar vida a esse mito da Fé?

​Há muito cinismo por parte de nossos pares em relação a personagens que não sejam maculados de forma irreparável, já que o senso comum, a preguiça e os manuais de roteiro dizem que um bom personagem é obrigatoriamente falho e contraditório.  Remar contra a corrente foi parte do que me moveu a fazer “Irmã Dulce”.  Fazer um filme sobre uma personagem que dedicou sua vida a fazer o Bem e, ainda por cima, limitado pelas (bem-vindas, na maioria das vezes) amarras de estar contando a história de uma personagem verdadeira que é objeto de culto e devoção foi uma viagem difícil mas inesquecível. A responsabilidade, portanto, é contar uma boa história, emocionar e ser justo e honesto.