Esplendor

Lugar de Escuta

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23 de outubro de 2017

Muito falamos do necessário “lugar de fala” atualmente, porém talvez as mesmas pessoas que rejeitam a expressão, ou mesmo falar sobre quotas em universidades e outras questões correlacionadas, sejam as mesmas que precisassem ouvir sobre outra expressão complementar que lhes cabe: o lugar de escuta. E se um filme com todo o seu poder imagético lembrasse que cinema é som, para além de apenas um conjunto de imagens, e conseguisse despertar uma explosão sensorial capaz de ir além do que está posto? Um filme que fosse além das aparências e provasse que podemos substituir nossa percepção-primária através dos olhos que tudo olham, mas nada vêem, e nos deixasse banhar como corpos nus na cadeira do cinema, a preencher cada poro da pele em todos os outros sentidos adormecidos por trás da nossa negação de empatia.

“Nada é mais lindo do que aquilo que desaparece diante de nossos olhos”

Tal frase possui destaque no novo filme da cineasta japonesa consagrada Naomi Kawase, “Esplendor” (com o melhor título em inglês “Radiance”, remetendo mais claramente à luz que possibilita enxergar as imagens e o tema principal da obra). Concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, acabou vencedor do Prêmio do Júri Ecumênico, provavelmente pela enorme sensibilidade captada numa lírica poesia ao cinema em forma de dedicatória fílmica feita por Kawase (de “O Segredo das Águas”, outro forte concorrente à Palma de Ouro no ano de 2014).

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“Esplendor” segue uma autora de audiodescrição cinematográfica, que é a profissional a descrever as cenas dos filmes para deficientes visuais, a partir da interação dela com um grupo teste que irá avaliar seu trabalho final, até que ela encontra dificuldades para comunicar a linguagem especialmente para um dos ouvintes, que ainda possui visão parcial e está perdendo o que lhe resta a cada dia. É a partir da dupla que irá se desafiar de quantas formas se pode contar uma história, revelando mais coisas ou menos, e o quanto deixar para a imaginação e criatividade sem subestimar a inteligência do espectador, numa metalinguagem com os personagens dentro da tela que também estão assistindo um filme e os de fora (nós). Com linguagem extremamente sensorial, a cineasta realça os sons e sensações de cena, como o calor de um raio de sol ou o molhado de um leite derramado sobre os pés descalços, como se quisesse desafiar o espectador a como seria sentir na pele o que está acontecendo na tela para além do único sentido da visão.

Radiance

E, para contar essa história, logo somos levados por uma série de imagens editadas em ritmo de versos numa poesia, conforme a narração em off a decupa verbalmente. Uma torrente de pessoas correndo em suas atribulações na rotina do dia-a-dia, sem parar para perceber o que está ao redor. O tempo inteiro nos é proposto sentir por diferentes vertentes, seja a pressa inicial descrita acima, seja quando o filme respira e cria um contraste com a imanência do que está dentro da pessoa, tomando mais tempo de tela em repousar nos objetos e na luz. A radiação da luz é crucial na história, pois não é apenas através da visão que se irá captá-la.

Se de início o filme se ocupa ainda mais da descrição literal, a própria protagonista e o filme por osmose vão aprendendo a não subestimar o que a interpretação dos outros sentidos do espectador podem conceber. E os tempos de câmera vão mudando e repousando para dar preferência ao som. O interessante do som no cinema é que ele não nos é captado unicamente pelo sentido da audição. Muita gente se esquece que o tato e o contato também sofrem muita ressonância das vibrações do som. Até os sentidos do olfato e do paladar podem ser enganados quando, então, a combinação de imagem e som nos passam um novo resultado da mistura, da impressão de memória dos pequenos fragmentos a que o filme possa remeter. E são o bastante, como farelos de pão num labirinto, para nos guiar na completude daquela sensação apenas aludida.

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Para tanto, Kawase talvez deixe a ênfase menos no roteiro e mais na sensação do que apreendemos da história, deixando personagens coadjuvantes e mesmo detalhes importantes um poucode lado. Há de exemplo o pai da protagonista que a deixou muito pequena e até hoje ela procura por esta figura partena, como no homem mais maduro que ela vem a se familiarizar no grupo que avalia seu trabalho de audiodescrição. Há uma profunda amizade independente da diferença de idades, que talvez até ficasse mais inovadora se mantivesse a amizade sem aprofundar num romance — o que acaba acontecendo. Mas talvez por Kawase entender que faltasse a a mesma identificação, caso não gerasse um vínculo seguindo a cartilha de interesse do espectador padrão. Ainda assim é belo e sutil o desenvolvimento, com destaque para a atuação leve porém carismática da jovem Ayame Misaki, sobre os ombros da qual muito da intimidade de câmera é explorada: Como se a lente que a diretora lhe dirige fossem as mãos de um deficiente visual tateando e sentindo os formatos da expressão e sentimentos da atriz, que é bastante prolífica desde que começou a carreira há uns dez anos atrás. Talvez ela ainda não tivesse encontrado um papel de destaque autoral como este para explorar outros lados menos comerciais.

E quem rouba a cena é decerto Masatochi Nagase, que já brilhara no filme anterior de Kawase, o lírico “Sabor da Vida”, onde também experimentavam, diretora e ator juntos, com os sentidos humanos. Todavia, aqui, definitivamente ganha espaço para emprestar seu ponto de vista para a fotografia do filme, visto que sua perda gradual de visão é passada por osmose para a câmera. E vamos sentindo pouco a pouco o incômodo de igualmente não podermos enxergar.

Por fim, fica um filme cujo conteúdo pode parecer simples ou de pouca ousadia, mas cuja forma transcende a história que se quer ser contada. Como outrora tentou fazer também Lars Von Trier com o ligeiramente sádico “Dançando no Escuro”, que não colocava o espectador necessariamente na deficiência da personagem que estava perdendo sua visão, e sim apenas na sua dor, o que pode ser visto hoje como unilateral e com menos subjetividade de fala (ou de escuta). Alguns recursos maravilhosos, por exemplo, poderiam até ser mais utilizados, como o borrão da cegueira na câmera nos passando como é se sentir assim. Creio que o filme poderia, inclusive, ter inovado ao manter essa tela por talvez cinco ou até dez minutos finais, e só pudéssemos escutar os efeitos sonoros e os diálogos… O impacto definitivamente teria sido histórico, caso o tivesse feito.

E também que, ao término da projeção, quando referencia o filme “Shirin” do saudoso mestre iraniano Abbas Kiarostami, onde a câmera apenas capta as atrizes que estão assistindo a um filme, porém jamais o filme a que elas estão assistindo, o próprio “Esplendor” poderia também ter deixado mais para a imaginação. Porém, vale a explicitação das imagens pela homenagem final durante os créditos com o registro real das pessoas que verdadeiramente inspiraram essa história. Afinal, num mundo onde muitas pessoas olham, mas não vêem; ouvem, mas não escutam; e falam, mas não têm nada a dizer, que bom seria se o cinema conjugasse mais vezes com as vozes de quem habitualmente não recebe incentivo de escuta…