‘Esquadrão Suicida’: o equívoco do ano

Idealizado para ser 'o' filme de 2016, longa sobre o supergrupo de ex-vilões não passa de um excelente rascunho, prejudicado por um roteiro em formato rocambole

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09 de agosto de 2016

Nunca se viu um Coringa mais descolado e mais subaproveitado do que o Palhaço do Crime de Jared Leto

Nunca se viu um Coringa mais descolado e mais subaproveitado do que o Palhaço do Crime de Jared Leto, desperdiçando o talento do oscarizado ator 

RODRIGO FONSECA

Visto por 2,3 milhões de pagantes em sua estreia no Brasil, Esquadrão Suicida (Suicide Squad) saiu perfumado de sucesso apesar de toda a marola negativa que cercou sua estreia, em meio a azedas (mas pertinentes) críticas negativas expressas mesmo dos fãs mais aguerridos de HQs na imprensa. O êxito aqui foi apenas uma gotinha em um mar de verdinhas no qual ele vem nadando do fim de semana para cá, contabilizando US$ 133,6 milhões nos EUA e mais US$ 133,3 milhões pelo mundo afora, totalizando US$ 266,9 nas bilheterias, contra um custo de produção estimado em US$ 175 milhões gastos em sets, refilmagens e promoção. Cifras de lucro contudo não são capazes de curar as feridas deixadas no corpo cinematográfico do diretor David Ayer após o pelotão de fuzilamento que alvejou o filme com ataques de todos os lados. Em geral, esse filão – filme HQ – é um canteiro de ataques fúteis e de correções políticas míopes. Mas, neste caso, não. Estamos diante da maior frustração do ano: é um excelente esboço do que poderia ter sido um filmaço, mas não passou de um rascunho.

 

Criado em 1987, nas páginas da revista Lendas nº 3, a partir de uma premissa dos anos 1950, de Robert Kanigher e Ross Andru, retrabalhada na década de 1980 por Len Wein, John Byrne e John Ostrander, o Esquadrão Suicida foi uma centelha de incorreção no seio das HQs da DC Comics, uma casa sempre atenta a transgressões, vide O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Um time de desvalidos condenados era reunido por uma agente cheia de traumas raciais, Amanda Waller, a fim de formar uma força capaz de enfrentar vilões que saiam dos limites, inimigos do Pentágono e heróis descontrolados. Muitos personagens passaram por suas fileiras, entre participações especiais e presenças vitalícias, com destaque para o assassino bom de mira Pistoleiro e o ladrão Capitão Bumerangue. Numa reencarnação contemporânea, mais pós-moderna, novos integrantes surgiram, sendo a psicótica Harley Quinn, a Arlequina, a mais famosa.

Margot Robbie e Will Smith são as estrelas que contam para o diretor David Ayer

Margot Robbie e Will Smith são as estrelas que contam para o diretor David Ayer

Num esforço de resposta ao sucesso de Guardiões da Galáxia (2014) da Marvel, no qual um supergrupo classe B atingiu fama, tornando-se um filme de grande sucesso, a Warner Bros. adotou o Esquadrão como sendo sua munição mais abusada. E investiu num filme mais dark e abusado, com heróis sem moral. O problema é que surgiu uma pedra no meio do caminho: Deadpool, uma comédia genial, de sucesso comercial para além de qualquer expectativa, tendo um mascarado ligado (indiretamente) aos X-Men como protagonista. A questão é que Deadpool nasceu para ser chanchada, sem nunca se levar a sério. O Esquadrão Suicida de Ayer, não. Ali havia algo de épico. Com medo de perder, mudanças foram feitas, concessões foram aplicadas. E aí… O horror! O horror! Um fliperama em potencial tornou-se uma trama embaralhada, enfraquecida pelo absoluto desperdício da figura do Coringa, ferrabrás célebre nas telas.

Viola Davis é uma garantia de qualidade como Amanda Waller: atriz singular

Viola Davis é uma garantia de qualidade como Amanda Waller: atriz singular

É difícil até definir qual é o enredo do filme, que ganha a gente mais nos momentos em que Viola Davis está em cena, impecável, como Amanda Waller. Atriz dos mais fartos recursos dramáticos, ela alcança com facilidade o perfil Dirty Harry da personagem e dá legitimidade ao esforço de empoderamento feminino que a DC sempre buscou nos gibis e vem tentando na telona, isso desde a memorável Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer em Batman, o Retorno (1992). Esperava-se o mesmo da Arlequinha de Margot Robbie, uma das melhores atrizes jovens de Hollywood hoje. Sua personagem é um ímã de atenções, não apenas pelo carisma louco, mas pelo charme sexy que a atriz usa com uma inteligência de Pandora. O problema é que sua Arlequina não alcança toda a transcendência esperada, perdendo-se sobretudo nas cenas com um constragedor Coringa de Jared Leto.

Suicide-Squad-Pizza-Party.jpg Esquadrão Suicida

Vencedor do Oscar de melhor coadjuvante por Clube de Compras Dallas (2013), Leto assumiu o papel que rendeu o Oscar a Heath Ledger e antes jogara holofotes sobre Jack Nicholson com a tarefa de reinventá-lo para as novíssimas gerações com uma carga pop de psicose. Não funcionou. A edição estreitou a presença do Palhaço do Crime em cena e, nos momentos em que ele aparece, não encontramos o arquétipo assustador a ele inerente e sim algo bufão, pouco delineado. O adversário nº1 do longa, contrariando promessas, nem é ele e sim a Bruxa, uma pombajira ameríndia encarnada numa careteira e rebolativa Cara Delevingne em uma interpretação que não se pode levar a sério. A DC tem uma relação muito original e criativa, no mundo das HQs, com a magia (é a única força, fora kryptonita, capaz de matar o Homem de Aço), mas, aqui, a feitiçaria ganha um tom carnavalesco.

A quadrilha reunida neste sucesso de público: US$ 266,9 milhões

A quadrilha reunida neste sucesso de público: US$ 266,9 milhões

Diretor do cult Marcados para Morrer – End of Watch (2012), Ayer deixou de lado a estética hiperrealista, quase documental, pela qual ganhou fama e respeito, e não teve o cuidado de administrar bem os personagens. Figuras seminais nos quadrinhos como o Capitão Bumerangue, vivido pelo australiano Jay Courtney (filho de Bruce Willis em Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer), são jogadas para escanteio de moda a Ayer se concentrar nos dois astros que lhe interessam mais: Margot e Will Smith, ótimo como o Pistoleiro. Mas o Esquadrão Suicida é um filme de turma. Existe para isso. E o diretor não foi capaz de entregar esse espírito de coletividade, dando aos espectadores pouco mais do que duas ou três cenas divertidas, alguns bons usos de efeitos sonoros e boas participações do Batman de Ben Affleck. É pouco, sobretudo frente ao bom elenco que tinha e frente à fama de personagens como Katana, que mal é explorada.

Esmerado mais nos closes ginecológicos da Arlequina, Ayer só demonstra maturidade em uma cena de bebedeira, onde os anti-heróis desabafam frustrações. Ali, quem toma o filme para si é El Diablo, defendido por Jay Hernandez. Mas o empenho dele e o brilho sazonal de seus colegas não salvam o longa. Ficou na promessa.    

 

p.s.: Uma dica, para o caso de haver uma parte dois do longa-metragem: uma edição da finada revista Super-Powers trazia o Pinguim (Oswald Coblepot) como membro interino do Esquadrão, numa missão nos confins da Europa. O vilão dos guarda-chuvas seria uma excelente aquisição para o próximo filme.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 2