Este não é um conto de Natal…

... As Festas foram canceladas

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16 de dezembro de 2020

E todos se sentaram para a última ceia…

Não era grandes coisas. Juntaram uma das mesas de canto junto com outra e junto com outra… até formar uma extensão considerável. As mesas eram de ferro, meio enferrujadas, mas dariam pro gasto. Assim como as cadeiras capengas e bambas. O que importava é que estariam juntos pela última vez.

Quando foi a última vez? Não se lembravam. Era tão difícil lembrar que chegava a doer. Sabe quando o mero ato de tentar acessar uma memória fugidia já é o suficiente para gerar uma pontada dolorosa? Como se ela não quisesse ser remexida? Havia amor ali. Abundante. Isso era inegável. Mas amor pode também às vezes machucar. A lacuna que ele deixa após a perfeita realização de um desejo consumado. O prazer imediato sorvido dura pouco…, e depois o que sobra é o esforço infinito de tentar reviver aquele fugaz momento que já se foi quando você mal percebe que o vivenciou…

As bebidas vinham sendo servidas. Não havia milagre da multiplicação ali. Pelo menos não o que se consideraria como padrão. Os tira-gostos idem, representando o sangue e o corpo espiritual que todos compartilhavam. Mas eles se amavam, não havia nada a se envergonhar. Todos um só corpo, um só sangue.

Banhavam-se em conjunto, como se estivessem todos nus. Todos despidos de suas vestes, de suas feridas, de seus medos, suas vulnerabilidades, de suas máscaras do dia a dia… Todos com absoluta exposição total. Seria insuportável se a saudade não fosse maior. Por ela valia tudo… quase tudo. Valia mergulhar num abismo cegamente e não olhar pra trás. Encarar o chão que se aproxima na queda até o amargo impacto. Ou assim acreditariam…

O nome da doença era nostalgia. Todos compartilhavam de seu contágio. Todos queriam reviver algo que nem tinham certeza se algum dia haveriam vivido. Valeria a pena correr atrás do que não se tem certeza? Colocar nesta incerteza a aparência de segurança e abraçar o sol escaldante como se não fosse se queimar? Achavam que não iriam se queimar? Ou achavam que seria fácil se livrar das chamas? Que daria pra apagar o sol conforme as labaredas os consomem às cinzas?

Em cinzas, nada mais poderia ser sentido. Nada mais seria lembrado. Todos juntos em suas cinzas. Poeira. Pó. No ar. Ao vento. Perdidos. Mas juntos. Valeu a pena? Do pó ao pó. Mas juntos. Grãos que se misturam de forma tão indistinta que não sabemos mais quem foi quem. Não lembramos. É impossível recordar o que não há mais. Qual seria o rastro? O que sobraria? Nada.

Minto. Sobrariam as mesas de ferro. Tortas. Enferrujadas. As cadeiras capengas. Bambas. As tigelas do tira-gosto. Os copos das bebidas. Sujeira. Poeira. Pó. Objetos sem sentido se não vividos. Mas não dá mais pra viver. Compartilhavam tudo. Compartilhavam a vida. Compartilhavam a despedida.

Não há uma visão romântica da história. Estes não são salmos, nem versículos, nem parábolas, nem linhas de um livro antigo que esperava por um salvador. Não há um salvador especial que irá ressuscitar a todos se você próprio não fizer tudo pra se salvar. E, ao se colocar a salvo, talvez o sacrifício de fato fosse compartilhar a solitude que garantiria que o seu próximo também estivesse a salvo. Senão, a alternativa seria o nada. O vazio. O esquecimento. Porque se não sobrar ninguém, quem vai sobrar para lembrar? Para contar a história…?

Este não é um conto de Natal…
Muito menos de Ano Novo…
As festas estão canceladas.
2021 compensa pra gente.

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Imagem: Volodymyr Hryshchenko/Unsplash

Origem de publicação da imagem:

https://www.uol.com.br/vivabem/faq/festas-fim-de-ano-cuidados-com-covid-19.htm