‘Estrelas Além do Tempo’

Indicado a três estatuetas do Oscar, longa é uma das estreias desta quinta-feira, dia 02.

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01 de fevereiro de 2017

Em plena Guerra Fria, sob o temor de um ataque soviético, assolada por conflitos internos oriundos da luta pelos direitos civis, a sociedade americana vivia um dos períodos mais conturbados de sua história. Era o início da década de 1960, marcada também pela corrida pela exploração do espaço, que acirrava ainda mais os ânimos entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Octavia Spencer, Taraji P. Henson e Janelle Monáe em cena (Foto: Divulgação).

Octavia Spencer, Taraji P. Henson e Janelle Monáe em cena (Foto: Divulgação).

Mas os bastidores desta corrida espacial refletia cada problema enfrentado pela sociedade americana, pois a segregação na NASA era uma realidade. Equipes divididas entre brancos e negros, banheiros e prédios separados, salários diferenciados e todo o tipo de humilhação contra negros que exerciam seu trabalho com dignidade e competência, mas sem o reconhecimento e respeito concedidos aos brancos – “Faça seu trabalho, cabeça baixa”, era regra básica. No caso de mulheres negras, a situação ainda era pior porque existia a desconfiança de que tais profissionais não renderiam como os funcionários do sexo masculino. Isto é mostrado em “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures – 2016), uma das estreias desta quinta-feira, dia 02.

Produzido por Pharrell Williams e baseado numa história real, o longa conta a trajetória de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas negras que trabalhavam como “computadores” para a NASA, realizando cálculos dificílimos e essenciais para o desenvolvimento seguro do programa espacial. Grandes amigas, as três se tornaram pioneiras na agência após muita luta para vencerem não somente o preconceito, mas também para provarem sua competência frente ao avanço tecnológico e aos colegas de trabalho, a maioria composta por homens brancos. O curioso, aqui, é o fato de terem sofrido mais preconceito por parte de outra minoria, mulheres.

Por ser um reflexo da sociedade americana de 1961, “Estrelas Além do Tempo” mostra o preconceito com muita naturalidade, mas peca por não abordá-lo com mais afinco e, acima de tudo, com a seriedade exigida pelo tema. Objetivando oferecer uma experiência melodramática, porém leve e com pitadas de comicidade, o roteiro de Allison Schroeder e Theodore Melfi desperdiça a força da história que se propôs a contar. Isto pode ser exemplificado com as diversas sequências em que Katherine, já como computador do Grupo de Tarefas chefiado por Al Harrison (Kevin Costner), precisa andar aproximadamente 800 metros até o prédio ocupado pela equipe de computadores negros para utilizar o banheiro. Tais sequências são conduzidas de maneira a levar o espectador ao riso, algo inconcebível, considerando o absurdo ao qual tais profissionais foram expostas até Harrison iniciar uma revolução interna na agência em relação à segregação racial.

Katherine se tornou nome de confiança de Al Harrison (Foto: Divulgação).

Katherine se tornou nome de confiança de Al Harrison (Foto: Divulgação).

Outro problema do roteiro é o fato de não aprofundar o suficiente a história de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson – que se tornou a primeira engenheira negra da NASA. Na verdade, não dá a elas o mesmo peso na trama, focando mais em Katherine, por vezes, ignorando as outras duas e suas respectivas lutas no ambiente de trabalho.

Segundo longa-metragem de Theodore Melfi, o primeiro foi “Um Santo Vizinho” (St. Vincent – 2014), “Estrelas Além do Tempo” conta com um elenco em total sintonia. Contudo, é necessário ressaltar que os atores fazem o trabalho corretamente e só, pois não há nenhuma atuação realmente soberba, nem mesmo a de Octavia Spencer, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Histórias Cruzadas” (The Help – 2011) e um dos nomes que tem se destacado na atual temporada de premiações.

Baseado no livro “Hidden Figures: The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, de Margot Lee Shetterly, “Estrelas Além do Tempo” é um filme que funciona como melodrama e é bastante eficiente ao utilizar imagens de arquivo para contextualizar a trama, bem como em apresentar essas pioneiras ao grande público. No entanto, ao optar pela leveza em detrimento da força narrativa, tornou-se o típico telefilme exibido no “Supercine” ou na “Sessão da Tarde”.

*Indicado a três estatuetas do Oscar: melhor filme, atriz coadjuvante para Octavia Spencer e roteiro adaptado.

Avaliação Ana Carolina Garcia

Nota 3