Eu, Daniel Blake

Palma de Ouro em Cannes 2016 estreia no Festival do Rio

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08 de janeiro de 2017

Ken Loach é um diretor britânico consagrado por sua filmografia de altíssimo cunho social, fazendo política pelo povo com cada fotograma e personagem. Já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes anteriormente, mas andava um pouco sumido das premiações faz um tempinho, no que voltou este ano a ser consagrado com a láurea máxima da Croisette pelo filme “Eu, Daniel Blake”.

A história versa sobre um senhor da terceira idade com uma condição cardíaca que o impediria de trabalhar, mas o sistema burocrático e injusto do governo recusa o seguro desemprego a que teria direito, até que vem a conhecer a família de uma jovem mãe solteira que lhe ajudará a lutar pela coisa certa.

A partir de uma injustiça social que quase todo britânico de classe média/baixa já passou, com severas ondas de desemprego na Europa, a representação criada por Loach não é distante da realidade de fácil identificação. Talvez por isso o filme foi tão aclamado e devolveu o nome do cineasta às manchetes mundiais.

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Perante as turbulências políticas que o Brasil vem enfrentando no momento, com certeza “Eu, Daniel Blake” será aclamado por tratar da opressão do sistema governamental em cuidar do cidadão, com muita sensibilidade e tentando evitar a pieguice em seu tom mais seco tipicamente britânico dosado com toques de humor irônico. E, de fato, esta indignação social crescente irá encontrar respaldo na trama simples e eficaz do senhor Daniel Blake, personagem homônimo ao título do filme, que acrescenta o ‘Eu’ na frente como sinal de autoafirmação perante a anulação de identidade: ‘eu existo e mereço ser tratado com respeito’. E Ken Loach é um cineasta extremamente eficaz, com mais de trinta filmes em seu repertório, construindo a narrativa com três pilares importantes: o primeiro é o som, onde as vozes dos protagonistas são gravadas em áudio separado para abafá-las ligeiramente, quase que recitadas gentilmente, perante a interferência de camadas de vozes ao redor que as abafam, para fazer uma declaração política com o som. Para além do barulho das ruas e lugares públicos, isto funciona principalmente nas cabines de atendimento da agência do seguro-desemprego onde o personagem passa boa parte de seu tempo, há uma constância sobreposição de sons para criar real desconforto, no personagem e no espectador; para acuar.

Outro aspecto técnico, muito bem cuidado, é a textura cromática de iluminação do filme, que contrasta as tomadas internas, especialmente dentro das duas casas principais do filme, de Daniel e da amiga, com ambientação calorosa e luz quente, alaranjada, enquanto as ruas e departamentos de atendimento do governo são todos frios e cinzas, azulados, dando um aspecto melancólico até à dicotomia de atendentes, porque não é interesse do diretor demonizar todo mundo que trabalha ali, já que são gente como a gente e como Daniel, demonstrando que mesmo servidores que se preocupam e individualizam caso a caso também sofrem com a homogeneização do sofrimento alheio. E o terceiro aspecto da triangulação técnica onde o filme se sustenta é o casting e caracterização de personagens, com acessibilidade e representatividade, pois não só o povo britânico quer se ver na tela, mas o mundo inteiro: então temos o senhor representante da terceira idade; a mãe solteira; a filha negra; os vizinhos que trabalham na informalidade; e até o advogado cadeirante. Ele quis que os personagens refletissem a gama existencial da veracidade.

Não é a primeira vez que Loach acerta um tom mordaz com gentileza, como já o fez no brilhante “Kes” ou no lírico “Pão e Rosas”, além de criar grandes personas carismáticas, como o fez com “À Procura de Eric”, sempre em prol das causas sociais. A diferença é que aqui o diretor conscientemente decide caminhar na corda bamba da fronteira entre denúncia e emoção, tentando fugir do maniqueísmo e permanecer no bom sentimento para não escorregar no sentimental. E consegue diversas vezes, como na melhor cena do filme, no mercado do governo em que Daniel ajuda a conseguir uma cesta básica para a nova amiga, e onde ela comete um ato de desespero visceralmente tocante. Contudo, ao mesmo tempo, Loach comete algumas obviedades ou facilitações de continuidade, quebrando às vezes a aura realista, em contradição ao esforço do ator Dave Johns, advindo da improvisação da comédia em pé e do teatro, em tentar de tudo para o humor parecer sutil o bastante a ponto de sua personificação de Daniel Blake poder até ser documental em um filme ficcional. Neste sentido, há cortes de cena e montagem às vezes que soam tão ingênuas ou burocráticos que parecem telefilme, diminuindo o potencial, como inúmeros cortes de elipses com tela preta quase aludindo o momento em que irão inserir os comerciais quando o filme chegar na TV.

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

Reino Unido / França, 2016. 100 min

De Ken Loach

Com: Dave Johns, Hayley Squires, Briana Sahnn, Dylan Phillip McKiernan, Sharon Percy

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3