Eu, Minha Mãe e Wallace

Um Inventário Familiar de Ausências

por

01 de novembro de 2019

409846

*Uma “foto” desdobrada e marcada pela manipulação do tempo. Assim começa e assim termina o filme “Eu, Minha Mãe e Wallace” dos irmãos Eduardo e Marcos Carvalho. Apesar de se adiantar aqui algo sobre o final do filme, não estamos falando de nenhum spoiler. São fotos completamente diferentes, a do início e a do final, ambas com uma criança e uma forte presença materna emoldurando o registro. A primeira foto com a ausência paterna e, já a segunda…, bem, não estar “ausente” nem sempre quer dizer estar “presente”. Este é o mote do filme que transcorre sobre o retorno de um homem para a sociedade, após ser solto em condicional da prisão, e sua busca pela filha que não assumiu por ter sido preso antes que pudesse fazê-lo. Mas será que a reconhecerá agora? Quais são as condições para compreendermos este personagem e não apenas o julgarmos?

maxresdefault

Sim, vivemos em uma sistema opressivo, de violência policial e políticas de encarceramento em massa, especialmente sobre parte da população historicamente mais marcada por perseguições execucionistas, como a inserida em recortes de raça e classe. E a história que é contada por nossos registros oficiais também não contribui com defender ou propor outras narrativas que não as mesmas subalternidades imagéticas da opressão de sempre, reiterando estereótipos no imaginário popular. Mas será que toda pessoa condenada à prisão de fato teve o julgamento mais justo antes de ser encarcerada? Será que recebeu uma pena proporcional a seus atos? Será que de fato ofereceu resistência aos policiais para justificar que disparassem em suposta “legítima defesa”? Será que esta pessoa se encerra ou se resume a esse estereótipo e não apresenta muitas mais camadas que apenas uma foto de jornal pode mostrar sobre condições injustas? Talvez o grande trunfo de “Eu, Minha Mãe e Wallace” dos irmãos Carvalho seja o de não julgar seus personagens nem hierarquizar as opressões que sofrem, pois “não há hierarquia entre opressões”, como diria Audre Lorde (todos saem perdendo).

eu-minha-mae-wallace-1-510x475

O personagem do pai (Fabrício Boliveira de “Faroeste Caboclo”) jamais tem revelada a razão de seu encarceramento, tampouco sabemos o que os personagens em torno dos quais a trama irá orbitar pensam disso – apenas sabemos que é difícil vermos um acolhimento de pessoas liberadas pelo sistema prisional, e que aqueles que ficaram do lado de fora também sofrem a pena executada, pois são privados de uma parte de sua estrutura social. Isto explica a recepção sisuda que a mãe da filha do protagonista irá oferecer em sua chegada, numa interpretação hipnotizante de Noêmia Oliveira (que já ganhou prêmio de atuação com este papel, como no último 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e atualmente pode ser vista no elenco fixo do programa “Porta dos Fundos” do Youtube). É interessante o jogo criado como se transformando a casa num tabuleiro de movimentos de perdas e danos recíprocos na mágoa acumulada.

2-1024x576

O próprio título já indica o ponto de vista a partir do qual se irá narrar a história, apesar de esta ótica só aparecer da metade do curta-metragem em diante, quando entendemos que o “Eu” de “Eu, Minha Mãe e Wallace” é que determina a verdadeira protagonista, a criança-revelação Sophia Rocha. E Wallace, o pai, mesmo presente agora, será representado com vários efeitos e dispositivos que representarão sua ausência a conviver junto com as cenas e espaços ao mesmo tempo em que sua atual presença não substitui a dor passada. A direção de fotografia de Safira Moreira não se privará de seguir cada ação da personagem da mãe, que amplia bastante o incômodo com os sons e barulhos ambientes materializados a partir da direção de arte de Cleissa Regina, tornando a casa um verdadeiro inventário familiar de ausências. Há de exmeplo a fritura das rabanadas de Natal, feriado de maior simbolismo familiar no qual veio a calhar a visita do pai omisso — da mesma forma que a filha caminha dentre as fronteiras de realidades lançadas sobre ela com um toque lúdico em outro tempo diferente do que o do filme. As memórias convivem em cena como fantasmas palpáveis, como as crianças jogando futebol, no meio das quais aparece o mesmo ator mirim que interpreta o protagonista Wallace mais jovem na foto da primeira cena. – influência provável do toque de cinema fantástico que os irmãos Carvalho trazem de seu trabalho anterior: “Chico”, que se passa numa realidade distópica.

23897_e

Para completar, existe um olhar de fato que transpõe em metalinguagem a iluminação típica de uma foto instantânea com o flash estourado, da mesma forma como algumas passagens do filme possuem uma luz solar ofuscante para o protagonista, como se demonstrassem o quanto dói olhar diretamente para as recordações mais ocultas quando se retira elas das sombras. Todo este trabalho metalinguístico com a existência da foto como um arquivo dentro do filme decerto recebe influência também do trabalho imediatamente anterior da diretora de fotografia Safira Moreira, o filme que ela própria dirigiu, “Travessia”. Este filme falou sobre a ausência histórica de fotos das pessoas negras até o século passado, ainda condicionadas pelas famílias brancas, que exerciam um controle sobre aqueles que trabalhavam para elas como se ainda estivéssemos no Brasil-Colônia. – Pessoas negras em posições subalternizadas e uniformizadas para serem apenas fotografadas quando criavam as crianças brancas de seus empregadores, ao invés de poder guardar registros de suas próprias famílias por causa do alto custo que uma foto tinha. Esta obra acaba também por dialogar com “Liberdade” de Vinícius Silva e Pedro Nishi, que fala através de fotos e material de arquivo sobre a invisibilização das pessoas negras no bairro paulista de nome Liberdade, mais associado em geral a descendentes de orientais que ajudam a compor a região. Atualizando, assim, os estudos do saudoso pensador clássico Walter Benjamin, sobre a reprodução de um artefato com representação cultural deslocada no tempo, como uma foto, que pode ter significados diferentes em momentos diferentes ou sob olhares diversos; bem como os irmãos Carvalho ora associam esta teoria a pesquisas mais atuais como sobre a necropolítica teorizada por Achille Mbembe, e quais corpos estão sendo eliminados e apagados pelo sistema (inclusive o carcerário), para além do poder cultural da foto, mas como uma verdadeira biopolítica por trás da imagem.

No fundo, um trabalho com mais camadas do que aparenta sua superfície, assim como mais tempos do que apenas o presente em que é lançado.

*Confira debate sobre o filme durante o Festival de Cine Jardim, mediado por este que vos escreve, o almanaquista Filippo Pitanga:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-curta-cinema-abre-inscricoes-para-seu-laboratorio-de-projetos/

**Crítica originalmente publicada em 26 de maio durante o Cine Jardim – Festival de Cinema em Belo Jardim – Pernambuco, ora repostada pelo Festival Panorama Coisa de Cinema em Salvador.