Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros (42ª Mostra de SP)

A Romênia nunca esteve tão próxima do Brasil

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31 de outubro de 2018

Outro dos filmes mais surpreendentes na 42ª Mostra de São Paulo. Que grata surpresa. “Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros” de Radu Jude pode parecer um título longo, com projeção mais longa ainda, porém cada minuto conta nesta obra que se engrandece pelo momento de novo crescimento do fascismo no Brasil e no mundo, portanto, sendo difícil dissociar uma coisa da outra para analisar cinematograficamente esta obra — valendo ressaltar que outros filmes do diretor já foram grandes sucessos na Mostra de São Paulo, como “Aferim!”, “Corações Cicatrizados” e, mais cedo neste ano de 2018, o diretor ainda teve outra de suas obras, ainda inédita no circuito comercial, exibida no 7º Olhar de Cinema – Festival em Curitiba, o filme “The Dead Nation” (“A Nação Morta”), cujo trabalho de pesquisa foi tão extenso que o próprio diretor revela que se desdobrou na feitura deste segundo filme inédito: “Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História Como Bárbaros”.

idc Claro, precisamos analisar com cautela e perspectiva adequada, porque o filme se agiganta para nós no momento por causa do período histórico que estamos vivendo. Não dá pra se falar deste filme sem falar da política brasileira atual. Sobre o que está acontecendo no Brasil e em outros lugares do planeta. Um avanço do conservadorismo e do neofascismo em vários países do mundo, não apenas o nosso, assim como os shows internacionais do roqueiro Roger Waters do Pink Floyd vem denunciando e levantando tantas polêmicas nas manchetes diárias. Tudo isto traça um surpreendente e análogo paralelo muito próximo do que estamos enfrentando com o que é mostrado na telona neste filme romeno em que a sociedade deles demonstra um retrocesso familiar até demais. Assustador!

A proposta do filme, bastante metalinguística, acompanhando uma atriz (Ioana Iacob, visceral e firme no papel) que logo na primeira cena se apresenta e assume seu lugar de atriz a interpretar a diretora de uma apresentação artística dentro do filme que celebraria a história Romena e, mesmo contra a vontade de todos os patrocinadores, ela irá escolher um dos momentos mais vergonhosos em que a Romênia se aliou a Hitler e massacrou o maior número de judeus na 2° Guerra Mundial para além do número creditado à Alemanha. Ela escolhe denunciar justo um momento histórico tão controverso para alertar sobre o perigo do novo crescimento de um padrão de comportamento reiterado lá e em outros lugares da Europa de forma extremamente xenofóbica e excludente, de uma vontade de eliminar o próximo; de extermínio e anulação do outro em detrimento do “eu”. — muito próximo da política brasileira atual. E o melhor é que o filme conseguiu falar e denunciar questões no campo da macropolítica sem negligenciar em nenhum momento as micropolíticas que compõem o quadro maior, geralmente negligenciadas e passadas por cima, justamente gerando brechas e lacunas para a opressão entrar. E tudo no roteiro que aborda a política do país ou a prepotência do exército vem sempre acompanhado de o quanto afeta os indivíduos em suas intimidades, seja no feminismo (o fato de a diretora personagem da protagonista estar num cargo de chefia e sempre sendo testada pelos homens que a cercam é muito autoevidenciativo), bem como questões étnicas, de classe, territoriais (como sobre os ciganos), LGBTQ (quando acusam mulher bem resolvida de lésbica como se precisasse de um homem ao lado para colocá-la “no seu lugar” de subserviência)…

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A linguagem do filme passeia entre o ficcional naturalista, acompanhando a vida privada da personagem da diretora, bem como o trabalho dela em praça pública, de forma mais documental, montando o evento com profissionais e voluntários, todos de opiniões completamente diversas. Alguns contrários a ela e outros a favor, em alguma diálogos inteligentemente longos e excruciantes que poderiam parecer protelatórios na narrativa da projeção que ao todo soma mais de 2 horas de duração, mas que na prática transcorre muito bem e reflete exatamente conversas tão longas e desesperadoras quanto as que os brasileiros andam passando para tentar fazer o outro lado compreender o seu lado político da história. Algumas frases são tão iguais às das nossas discussões locais da defesa da democracia contra o fascismo que chegam a assustar! E tudo culmina na apresentação tão suada que é treinada o filme inteiro, filmada, inclusive, como um filme dentro do filme dentro da performance, com o realismo em tempo real de câmeras digitais, no meio da rua e com interação de público, cujo amargo resultado final ficará incrustado na cabeça do espectador por muito tempo. Brilhante. Mas só o tempo dirá o que acontecerá com a história e qual será a real relevância deste filme extremamente necessário quando o momento perturbador passar.