Eu, Tonya

Sátira que diverte

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15 de fevereiro de 2018

O Almanaque Virtual já havia conferido “Eu, Tonya” de Graig Gillespie (de “Horas Decisivas”) sem ter assistido nada sobre a obra antes e, de fato, agora que pôde assistir o trailer oficial lançado nos cinemas para divulgar o filme, caso fosse analisado por si só, pareceria um dos melhores exemplares da temporada. Ou pelo menos o mais divertidamente cáustico. Pena que a obra em si, ao menos para este almanaquista, não alcançou esse efeito almejado. O engraçado, contudo, é que justamente os erros e arestas do filme divertem tanto, de tal modo que o trailer dá até vontade de rever e entrar nesta frenética montanha rusa de novo. De fato, Margot Robbie e Allison Janney (respectivamente interpretando a personagem-título , a patinadora Tonya Hardy, e sua mãe, numa reprodução da história verídica intencionalmente caricatural) estão intuitivamente poderosas, especialmente a segunda que, se vier a ganhar o Oscar de coadjuvante como os termômetros estão indicando, terá merecido completamente.

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O problema foi o trailer chamar o filme de o “Bons Companheiros” da pista de gelo… Aí já é puro exagero. Só por causa da crítica à América média e suas pequenas corrupções à máfia familiar…, o que não abarca de forma alguma a questão muito mais ampla institucional e cultural de “Bons Companheiros”. “Eu, Tonya” possui muito mais crítica social nos julgamentos canhestros dos juízes nas competições da patinação no gelo do que na parte do filme que explora o crime em voga como se fosse uma risível paródia de máfia (nas revelações sobre todos os envolvidos no escândalo que fez cruelmente a personagem ficar famosa na vida real)…, o que não é suficiente para que o filme alavanque vôo mais alto afora da biografia de um drama personalíssimo, pois não fura essa bolha de forma eficaz para que o caso concreto de Tonya Hardy se tornasse uma crítica mais global no intuito de dizer que ela fosse mais do que apenas uma vítima da história. Um produto de seu meio. Um resultado de um circo de horrores provocado pelo próprio social, o que também seria condescendente em lhe retirar o poder do livre arbítrio. E o pior, um caso verídico que foi altamente explorado pelas televisões em um período que esse tipo de cobertura sensacionalista e vampirizadora estava apenas começando a ocupar os jornais — tanto que foi como programas americanos como o Hard Copy e o canal E! Entertainment.

Confira lado a lado a caracterização de Margot Robbie como Tonya Hardy, e ao lado a verdadeira Tonya

Confira lado a lado a caracterização de Margot Robbie como Tonya Hardy, e ao lado a verdadeira Tonya

Infelizmente, para que este fosse o ponto principal enfocado, várias cenas teriam de haver tangenciado mais o social do que o individual/pessoal, e tangenciado menos o clima envolto num pastiche que vilaniza facilmente as circunstâncias culturais que a confinaram suas escolhas. Em algumas cenas, até que arrisca tocar um pouco mais sim nas injustiças estruturais, como quando Tonya força um dos jurados a justificar seu voto e ele fala por todos sobre um padrão inalcançável de classe…; Ou quando o marido dela se livra da parada policial só no papo, mesmo com tudo contra ele — aliás, sério problema nesta cena a trilha querer ironizar e botar “How to mend a broken heart” — apesar de a maior parte da trilha restante ser soberba, e justamente funcionar pela escolha de algumas bandas lideradas por mulheres, mantendo o tema focado nas mulheres — O problema é que a narrativa não tem pontos suficientes para sustentar que esta autoironia à (falta de) estrutura social fosse a ótica predominante…

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A verdadeira ironia acaba sendo que, à despeito de todos esses incômodos, ao mesmo tempo, pessoalmente, e não criticamente, o filme e seus defeitos viraram um meio guilty pleasure pra mim nesta temporada. Não consigo defendê-lo criticamente, mas a garra com que Robbie e Janney defendem seus papéis e um certo frenesi escrachado com que o ritmo frenético conta a história acabam gerando uma diversão extra na qual se é divertido embarcar, e você acredita nestas duas personagens independente do resto do filme. Quase como um carrossel de diversões passageiro, descartáveis, porém inegável, mesmo que com isso diminua a força crítica de uma história real sobre uma cultura condescendente ao abuso contra as mulheres e onde a classe dominante oprime a classe trabalhadora mesmo na chamada ‘terra das oportunidades’ que são os EUA.