Fábulas Ruins

Ddesalinho entre dramaturgias que não se conjugam

por

26 de outubro de 2020

Favolacce (Bad Tales) na Berlinale 2020*

Linguagens conflitantes

por Filippo Pitanga, originalmente publicado em 01 de março de 2020, ora revisto e ampliado perante a 44ª Mostra de SP:

“Favolacce” (“Bad Tales”) dos Irmãos Fabio e Damiano D’Innocenzo é um filme bastante complicado. Talvez por isso mesmo tenha sido um espanto ganhar o prêmio de melhor roteiro no 70° Festival de Berlim, à frente de outros favoritos como Kelly Reichardt por “First Cow” e Hong Sang-Soo por “The Woman who ran” (sendo que este acabou levando melhor direção ao invés de melhor roteiro).

Engraçado que a primeira frase da narração em off do longa-metragem é muito boa, parodiando o fato de que “essa história foi inspirada em fatos reais que foram inspirados numa mentira, a qual não teve muita inspiração para começo de conversa”… E isso deveria conduzir o espectador a uma expectativa sarcástica e farsesca, cujo humor ácido estaria carregado por toda a narrativa a propor uma crônica sobre a suspensão da realidade contida no pressuposto de fatos reais que são “inspirados numa mentira”. Só que isso não acontece…

O que se sucede é uma sucessão de referências estilo colocadas no liquidificador, as quais não necessariamente combinariam entre si, como a estética da infância típica de “Os Batutinhas” e a picardia da descoberta sexual na adolescência de “American Pie”, porém tudo isso com as crianças (algo bem precoce). E há segredos nos armários destas famílias…, ou seja, o clima é bem mais pesado do que o tom naïf, non sense e de comédia baseada na fisicalidade levam a crer por mais de dois terços da projeção. — O que gerou uma catarse inversa à que este crítico descreveu na crítica de “The Woman who ran” de Sang-Soo, já que assisti aos dois filmes na mesma sala lotada de 2 mil lugares do Friedrichstadt-Palast no Festival de Berlim. As pessoas estavam rindo de “situações” abusivas, de forma condescendente, sem perceber isso, e qualquer pessoas que já tivesse notado essas camadas na dramaturgia começaria a se sentir bastante desconfortável com o filme.

Poderia ser um “desconforto” positivo, até porque visualmente o filme é muito belo e acertado com iluminação de veraneio (ou até cruel, já que sob tanta beleza há famílias abusivas!). Um bom exemplo de desconforto parecido, onde a plateia levada a gargalhar com o carisma das crianças só descobre depois sobre a situação de abuso, numa das maiores reviravoltas do cinema recente, foi “Projeto Flórida”. Mas aí você de fato é colocado totalmente às cegas para sentir o desconforto da descoberta tratada a sério, e depois o sentimento de culpa por ter rido é usado para potencializar a carga dramática do drama em que o filme se transforma. Sem falar que para de fazer troça com aquelas figuras partidas. Tudo funciona.

Já em “Favolacce”, os personagens não são bem desenvolvidos o suficiente para dar estofo à revelação que virá, talvez na tentativa de os cineastas se preocuparem mais em surpreender do que de potencializar uma catarse eficiente. O conceito do plot twist apenas pelo puro prazer do conceito, e não a serviço de engrandecer o filme. E pior, a narrativa continua sexualizando desnecessariamente as crianças (mesmo já tendo se compreendido que é uma denúncia), fazendo graça dos personagens e até tirando risos um pouco humilhantes, mesmo após mostrar a que veio com sua reviravolta… Ao invés de catarse, o que acontece é alcançar um clímax esvaziado, sem empatia, apenas técnica, perdendo boa parte dos espectadores na jornada. Pena, pois havia potencial, até pelo elenco coral, sem ter um determinado protagonista único, ainda continha o excelente ator Elio Germano, que brilhou na mesma competição pelo Urso de Ouro com outro filme italiano, “Volevo Nascondermi” de Giorgio Diritti, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator.

Vale ressaltar que a Itália comemorou muito possuir 6 filmes ao todo espalhados no Festival de Berlim neste ano, enquanto que o Brasil possuía o recorde histórico de 19 filmes e sequer recebeu um parabéns ou um muito obrigado do governo ou da Ancine, cuja praxe é prestar homenagem todo ano aos selecionados e premiados… Muito triste esse esvaziamento do nosso olhar cultural pela administração pública atualmente no poder…

*originalmente publicado no Almanaque Virtual durante a Berlinale 2020
almanaquevirtual.com.br/favolacce-bad-tales-na-berlinale-2020/