Fakir

Yoguismo xamânico

por

31 de janeiro de 2020

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Como um crítico que também é pesquisador da carreira da grande atriz e cineasta Helena Ignez, a primeira coisa que me perguntei foi de onde surgiu a motivação e ideia para o tema do novo filme da mestra e que também lhe dá título, “Fakir”, pois não pude me conter a sentir o mesmo que os leitores devem estar sentindo ao ler esse texto: estranhamento e curiosidade… Um filme que vai falar não só de uma arte secular e esquecida, como também sobre as (não tão) raras mulheres invisibilizadas que também foram faquiresas (feminino de fakir). A própria palavra em sua origem etimológica quer dizer “pobreza”, como um voto de humildade e desprendimento material, algo ligado ao modo de vida yoguista, ou melhor, Yogue. Ou seja, neste ponto, conhecendo muito bem a jornada profissional e espiritual de nossa guru das energias cósmicas Helena Ignez, que também se reconhecesse como seguidora de influências indígenas a xamânicas, fica bem mais evidente a correlação entre as ideologias supracitadas de modo a almejar o pleno domínio da mente sobre o corpo, sobre a matéria, que é algo em comum a todas elas.

De fato, apenas pelo maravilhamento e deslumbramento deste universo, além do apuro técnico em utilizar de imagens de arquivo e da eficácia narrativa em contar a história através da montagem, Helena provavelmente possui em mãos um dos exemplares com maior potencial e apelo popular até o presente, de modo que definitivamente esta obra poderá encontrar respaldo de público no circuito comercial. Porém, para estarmos debatendo o longa-metragem em meio a um dos Festivais mais experimentais e exigentes em termos da matéria de invenção para o cinema contemporâneo, como o é a Mostra Tiradentes, há outras questões a se levar em consideração aqui.

Em primeiro lugar, o próprio ofício do fakir (e das faquiresas) possui algo moralmente complexo em sua essência que é o voto de jejum em abdicar completamente da comida — ou seja, envolve o ato bastante controverso de passar fome voluntariamente, o que acrescenta um recorte de classe bastante delicado para aqueles para quem passar fome não é uma opção. Evidentemente que Helena é uma diretora bastante responsável e cuidadosa com todas estas questões, sempre foi, e não deixaria um tema do passado, mesmo que geracional, poder ser entendido como desrespeitoso. Porém, o fato de o filme fazer a escolha consciente de narrar a história primordialmente através de recortes e citações de jornais e pesquisas de época, esvazia de certo modo a possibilidade de se acrescentar um olhar mais crítico e editorial às manchetes sensacionalistas que reduziam algumas destas questões como de classe e gênero a meros preconceitos da época. Evidente que há um esforço na montagem do filme em suceder matérias de jornais que se autocontradigam, de maneira a opor umas às outras de modo desconstrutivo, só que mesmo assim fica faltando uma problematização maior do que apenas os jornais poderiam lhe dar.

Se a montagem prioriza os jornais da época, não se pode dizer o mesmo das cenas filmadas no tempo presente, pois elas escolhem conscientemente filmar performances atuais com alguns dos nomes citados na pesquisa que ainda estejam vivos, encenando verdadeiros tableaux vivant (quadros vivos)… Ao mesmo tempo, se o dispositivo da performance pôde ser acrescentado como atualização daquelas questões, por que não entrevistar um pouco mais os envolvidos no tempo presente? Ou mesmo por que não deixar os pesquisadores que auxiliam nestas montagens a soltar um pouco mais o verbo nas motivações que os levaram às pesquisas para que tivéssemos chance de ficar tão fascinados quanto o assunto merece?

Além disso, algumas questões realmente ficaram datadas, e quando o roteiro prefere contar estas partes mais retrógradas da história apenas através das manchetes, há muitas coisas que não podem ser contextualizadas o suficiente quando encerramos nosso olhar no microcosmos da visão voltada por trás de nossos ombros para o caminho que já trilhamos ao invés de alternarmos o olhar para frente. É uma potência que poderia ser melhor aproveitada, pois as faquiresas contempladas são absolutamente fascinantes, mas mesmo a maioria delas que foi casada e constituiu famílias, com crianças e modelos padrões de sociedade, estas também foram muitas vezes alvo de misoginia na sociedade patriarcal tanto no âmbito de suas próprias casas quanto no da imprensa e sob o olhar dos fãs e público.

Sim, isto é uma preocupação por toda a carreira de Helena, e de fato ela dispõe o raccord do filme de modo a suceder as faquiresas selecionadas sempre a responder a questões em que umas complementam às outras historicamente, nos mesmos desafios enfrentados em épocas diferentes. Mas ao mesmo tempo, algumas coisas não são tão trabalhadas quanto poderiam ser, como a faquiresa que era tratada pelos jornais como a que “sofria de amor”, quando na verdade sua tragédia de saúde prescindia da relação amorosa dela…; ou mesmo a faquiresa que foi assasinada pelo marido ciumento não passa de uma nota de rodapé nas páginas dos jornais da época, que chegaram a inocentar o marido homicida… Algo que necessitava urgente de um princípio do contraditório trazido mais para o presente do que aquelas questões realmente o foram.

Há também participação de outros exemplos e chaves diferentes de performance sem a devida contextualização de conexões entre as faquiresas e as outras mulheres com apenas poucos elementos as interligando, como a famosa Luz Del Fuego, que apesar de dançar com cobras (animais que eram envolvidos também nas performances das faquiresas), não tinha mais nada a ver com as outras documentadas no filme… Bem como as atletas de luta livre que também não possuem muito a ver com as outras performances do filme, mas que foram colocadas lá como força das mulheres historicamente em esportes tipicamente tidos como masculinos — um ato louvável como ética documental, mas que poderia ser melhor conectado aos outros elementos, o que faz com que a narrativa se perca um pouco por vezes na trama…

O balanço final, porém, é um filme divertido e de fácil imersão. Provavelmente não haverá espectador deixado do lado de fora desta bolha de desinvisibilização muito necessária de mais setores de nossa história que não conhecíamos ou que estivéssemos permitindo ser esquecidos… Um ato de bravura histórica e metafísica catártica em recuperar para o presente com este corajoso filme sobre a força das mulheres.

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