Fala Comigo

Fusão de "A Primeira Noite de Um Homem", "Terapia do Amor" e "Mãe Só Há Uma" gera renascimento do gênero dramédia romântica no cinema brasileiro

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18 de outubro de 2016

Não estranhe se a primeira coisa que vier à sua cabeça quando ler o título “Fala Comigo” for o filme cult de Almodóvar “Fale Com Ela”, pois aqui também há um protagonista masculino cercado de personagens femininas fortes que o ajudarão a entender melhor a si mesmo: Vencedor de melhor filme e atriz para Karine Teles no Festival do Rio 2016, “Fala Comigo” de Felipe Sholl resgata o brilho e a ousadia de se usar cinema de gênero com mérito e transgredir a linguagem a partir dos elementos familiares a quem o procura. O que poderia começar como uma comédia romântica, na verdade é um drama psicológico que retrata desde a melancolia com pitadas de sedução à alienação nas comunicações sociais. A premissa já diz tudo: um jovem de 17 anos usa a agenda de pacientes de sua mãe terapeuta para fazer ligações e se excitar escutando em silêncio o que é dito do outro lado por mulheres solitárias e carentes… Até que uma destas descobre tudo e acaba se apaixonando pelo jovem.

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A incapacidade de comunicação é muito importante para este filme sobre deslocamentos emocionais. E, assim, a câmera condiz com a proposta temática, exprimindo a linguagem de seus personagens com muitos closes faciais, como se isolasse suas expressões de qualquer resposta no mesmo quadro, o que ironicamente nos aproxima de suas solidões.  Ao mesmo tempo, os quadros ousam romancear além, brincando com os personagens quando eles estão sozinhos em montar os planos e contraplanos como se eles estivessem juntos, falando um com o outro, ou comendo na mesma mesa, quando na verdade primeiro um é filmado em um cenário, e depois o outro é colocado proporcionalmente na posição oposta em sua própria cena, como se as duas solidões se complementassem. E isto é feito até com os pais do garoto, com sérios problemas maritais, onde o pai dorme no sofá e espera o filho chegar madrugada adentro, até ele mesmo tomar coragem de sair da casa que oprime a todos e passar a ser a mãe aguardando agora no mesmo lugar do sofá.

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Como dita a tendência, o roteiro do próprio Felipe Sholl (que já escrevera com extrema sensibilidade filmes como “Histórias que só existem quando lembradas”), estreante na direção de longas, traz alguns elementos que se comunicam com a atualidade, como a sexualidade fluida vista recentemente em “Mãe Só Há Uma” de Anna Muylaert. Por isso, o protagonista não está fazendo qualquer declaração, e sim apenas experimentando o momento e se mantendo verdadeiro a si mesmo. De um garoto indiferente e apático, assim como a irmã mais nova dele (Anitta Ferraz) de início, ambos começam a ganhar vida através das pequenas transgressões, inclusive inspiradas um no outro. E a maior transgressão que ele poderia fazer não seria namorar uma mulher mais velha (pois já não é novidade a liberdade precoce cada vez mais jovem, especificamente a sexual); ou ‘ficar’ com seu melhor amigo de escola que está mais confuso do que ele, mentindo para si mesmo; e sim a transgressão de crer que sua maturidade púbere pode e deve mergulhar de cabeça nas experiências nietzschianas sem amarras. Esse eterno embate de gerações só funciona por causa da revelação do ator Tom Karabachian, que acerta o tom centrado em seu personagem, um rapaz entre o alternativo nerd e a rebeldia sem vergonha através da música, tirando seu contraponto pela personagem da mãe na pele da sempre segura Denise Fraga, interpretando uma psicóloga recalcada.

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É quebrando o círculo vicioso familiar que entra a parceria perfeita para o jovem no par romântico com Karine Teles, agora duplamente ganhadora do prêmio de atriz no Festival do Rio, anteriormente ganho com o filme “Riscado” em 2011. Como uma personagem que se interpretada por outra artista poderia facilmente parecer deslocada na trama, ou acima ou abaixo do tom necessário de empatia, ela consegue a perfeita combinação entre vulnerabilidade desajustada e autonomia sedutora. É a experiência da sua naturalidade cênica que faz a trama virar crível, como alcançavam apenas as grandes atrizes do neorrealismo italiano do naipe da presença de Anna Magnani e da espontaneidade faceira de Giulietta Masina, num misto de glamour com pé no chão. Tudo isso num filme que retrata a leve carga de erotismo de forma elegantemente sutil e intimista, como uma xícara de café levada na cama com sabor de algo mais, aproximando a distância da idade do casal através da identificação universal de se compreender o psicológico um do outro; Suas deficiências se tornam complementares. E se o filme sabe usar bem os arquétipos de comédia romântica para algo mais denso, usando, por exemplo, do constrangimento dos personagens para criar um humor ligeiramente negro e sarcástico, é das lacunas não preenchidas que surgem os questionamentos refletidos de uma sociedade que quer ser tratada com o mesmo carinho que este filme trata o espectador.

Sim…, o roteiro poderia decidir por problematizar um pouco mais as deficiências com que os dois protagonistas já vinham, e provavelmente os faria piorar de cabeça logo após o nirvana da novidade, como uma droga passageira. Ao mesmo tempo que o foco narrativo poderia ser mais equalizado também para a personagem de Karine, cujas lacunas necessárias são mais intrigantes. Porém, como estamos falando de um filme de gênero, a solução encontrada é lidar com os arquétipos imediatos que refletem diegeticamente o desejo dos jovens personagens da Geração Y pelo agora. E seu diretor encerra a trama com um final ligeiramente em aberto que deve agradar a gregos e troianos, o suficiente para revigorar um tipo de cinema outrora sem inspiração, e que ressurge como mais uma alternativa incandescente a juntar o autoral ao pop para conquistar o público brasileiro a ver mais filmes nacionais.

Festival do Rio 2016 – Première Brasil

Fala Comigo (idem)

Brasil, 2016. 92 min

De Felipe Sholl

Com Karine Teles, Tom Barabachian, Denise Fraga, Emílio de Mello, Anitta Ferraz

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4