Falas Negras

Potente mise-en-scène de reparação histórica

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22 de novembro de 2020

Mesmo tendo sido lançado como um especial na TV, podemos abordar a obra “Falas Negras” de Lázaro Ramos como uma obra ensaística, na melhor tradição “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, desdobrando-se para lados ainda pouco ou nada navegados desse estilo de linguagem. Portanto, iremos nos debruçar sobre o especial televisivo como a uma obra com qualidades cinematográficas passíveis de tangenciar o hibridismo com o documentário à altura de repassar a indicação como uma estreia análoga aos filmes lançados por streaming.

E quão imperdível e emocionante é “Falas Negras” dirigido por Lázaro Ramos (“Madame Satã”, “Ó Pai, Ó”, “O Homem que Copiava”) e argumento concebido por Manuela Dias (de filmes como “Love Film Festival”, da minissérie “Justiça” e da novela “Amor de Mãe”). — Assistam disponível na Globo Play!*

O especial aborda inúmeros representantes negros imprescindíveis da História, alguns muito conhecidos até mesmo pelo senso comum, como Muhammad Ali, Malcolm X, Martin Luther King, Mandela, Angela Davis e Nina Simone… Outros retratados em filmes e obras recentes do audiovisual como Harriet Tubman (quem mais libertou pessoas escravizadas nos EUA antes e durante a Guerra de Secessão); James Baldwin (grande escritor já retratado pelo documentário “Eu Não Sou seu negro”), e Rosa Parks (ícone da luta pelos direitos negros desde que se recusou a ceder o lugar no ônibus para uma segregação e discriminação racial). Bem como há representantes pouco falados ainda no imaginário popular e que deveriam ser muito mais reconhecidos, desde profissionais e acadêmicos como Luiza Bairros, Lélia Gonzales, Luis Gama, Virgínia Bicudo e Milton Santos a renomados agentes históricos como a Rainha Nzinga Mbandi (muito cantada nas letras de músicas), os escritores Olaudah Equiano e Mahommah Baquaqua, etc… E, evidente, não podiam faltar alguns nomes mais recentes, infelizmente marcados por tragédias imensuráveis, como a vereadora assassinada e ícone da luta por igualdade de direitos Marielle Franco, aos pais de vítimas da violência policial ou de classe como Neilton Matos Pinto e Mirtes Souza.

Assim como existiria lugar para mais incontáveis nomes ausentes, como as escritoras paradigmáticas Maria Firmina dos Reis (primeira romancista de todo o Brasil) e Carolina de Jesus (do norteador livro “Quarto de Despejo), bem como os famosos Machado de Assis (que por muito tempo as pessoas ignoraram o fato de ser negro) e Lima Barreto, além de muitos e muitos mais…

E isso tudo faz dessa obra algo seminal não apenas pelas referências incontornáveis, como também pelas performances e estética criada pela linguagem. Para quadros compostos por monólogos de frente pra câmera, a direção inspirada de Lázaro conseguiu evitar as armadilhas do dispositivo “talking heads” e pintou suas personagens de cores e luzes, seja no cenário ou na mise-en-scène. Belíssimas pinturas de falas e recortes de vidas cirúrgicos, tudo para nos descortinar o extracampo pela imaginação compartilhada e vontade de pesquisar muito mais sobre nossos pontos cegos.

Ouvir falas tão potentes e de intérpretes tão incríveis nos obriga a pensar todo dia, como interlocutores e produtores de cultura na sociedade, o quanto nossas narrativas e dramaturgias midiáticas continuam predominante e inexplicavelmente brancas, quiçá eurocêntricas (acorda Brasil!).

Sem falar que cada um destes intérpretes também merece profunda pesquisa por parte dos espectadores para redescobrir nossa cultura atual e evitar apagamentos futuros. Cada um deles representa um coletivo, ou uma associação, um movimento, uma criação de linguagem e muito mais. Desde Valdineia Soriano, do baiano Bando de Teatro Olodum, o qual também revelou Lázaro Ramos; ao consagrado Flavio Bauraqui fundador do Grupo Improviso; a Babu Santana que vai muito além de BBB, revelado pelo grupo Nós do Morro e já ganhador 2 vezes do prêmio Grande Otelo de Melhor ator e ator coadjuvante, respectivamente. Ou com revelações da última década como a atriz e diretora Ivy Souza de uma das peças mais revolucionárias de todos os tempos, “Isto é um negro?” e Mariana Nunes com carreira cinematográfica já Internacional tendo sido dirigida, inclusive, pela mestra argentina Lucrecia Martel em “Zama”.

Com tanta riqueza cênica e intensidade ancestral, onde estão os inúmeros filmes e peças e músicas e obras a mais que deveríamos ter neste sentido?! Precisamos que nossa cultura corresponda à riqueza desta fonte inesgotável e muitas vezes negligenciada por um apagamento histórico.

PS. Anseio o filme de Babu Santana interpretando o Maguila. Esse Mohammad Ali foi um estímulo irresistível para o que está por vir!

*Imagens via @olazaroramos e queridona amiga e eleita @tainadepaularj

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