Febre Ondulante

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11 de outubro de 2015

Em “Febre Ondulante”, filme japonês dirigido por Ando Hiroshi, um romance de iniciação sexual perdura em uma jornada de dor e amadurecimento. O início da história de amor dos estudantes Hiroshi (Sosuke Ikematsu) e Emiko (Yui Ichikawa) é repleto de obstáculos que envolvem rejeição, receio no processo de descoberta e até certa rigidez dos costumes comportamentais. A atração mútua, motivada por diferentes motivos, começa nos bastidores dos estudos. Emiko apoia-se no amor declarado e Hiroshi é sincero ao afirmar que tem apenas interesse no corpo de uma mulher, qualquer uma serviria segundo o rapaz. No entanto, nada é tão simples assim na complexidade dos sentimentos de “Febre Ondulante” − a moça, sempre disposta a subjugar o próprio corpo aos prazeres de Hiroshi, deixa transparecer uma disposição sexual que domina o desejo puro do parceiro. Desta forma, ela se põe como escrava sexual do jovem que não consegue manter o distanciamento. A pergunta é: quem é o verdadeiro dependente nessa relação de ininterrupta combustão?

O filme, baseado em um romance erótico de Nakasawa Kei, é sutil nos momentos de intimidade dos personagens principais, mas a economia nas cenas de sexo não significa ineficiência no relato do magnetismo carnal que une o casal. Merece destaque a forma como é desenvolvida as noções de tempo − o presente e o futuro de cada um não segue exatamente uma estrutura linear de narrativa. Com frequência, as cenas correspondentes aos diferentes períodos de vida se alternam até que, mais adiante, é possível organizar os fragmentos da trajetória do namoro.

Maior fomentador da complexidade de “Febre Ondulante” é o elemento da submissão da mulher, sempre sugerido nas ações de Emiko para garantir a proximidade daquele que ama. O diferencial da abordagem está justamente nos aspectos velados do comportamento da jovem, tachado de humilhante e machista por uma concepção mais superficial. Na verdade, a submissão desenrolada no filme é mais ilusória do que propriamente incontestável. Emiko, objeto sexual pensante, desafia os ditames da cultura com a qual foi criada, batendo de frente com a mãe conservadora. O objetivo dela é correr atrás de sua independência e, assim, ser livre para se entregar a Hiroshi. Das muitas belezas que o filme acumula com o passar dos minutos, o rosto de Emiko encostado na mãe, que chora desesperada em virtude das opções da filha que proclama já ser mulher, é uma singeleza que se aproxima do inesquecível. Já Hiroshi, que antes buscava a superioridade no romance ao adotar o comportamento de rejeição, sempre derrubado pela sedução de Emiko, surge no futuro mais acorrentado do que nunca. Se Emiko conseguiu a independência, Hiroshi não consegue livrar-se do domínio do sexo oposto, uma necessidade que também se revela na relação confessional que ele mantém com a irmã. Outro belo indício da soberania do feminino é providenciado justamente pela câmera de Ando Hiroshi: Emiko é o centro das atenções do começo ao lindo fim, quando ela acalma a febre de seus desejos nas águas ondulantes do mar.

Festival do Rio 2015

Expectativa 2015

Umi o kanjiru toki, Japão, 2014, 118’

Ando Hiroshi

Elenco: Sosuke Ikematsu, Yui Ichikawa


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