Fernando

Terceira Idade Afetiva

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27 de janeiro de 2018

Curioso notar logo na 21ª edição da Mostra de Tiradentes, cujo tema foi cunhado como “Chamado Realista”, e ainda mais se considerando dentro de um espectro tido como ‘realidade’, que a maioria dos filmes selecionados, na verdade, evoca certa força lúdica e fabular para catalisar a realidade. Seria metaforicamente como olhos que não poderiam enxergar sem óculos especiais, cujo grau pode distorcer para uns ou cair como uma luva para outros. Ainda que três filmes de Mostras diferentes tenham focado no mesmo tipo de lentes norteadoras. Cada uma dessas três obras acompanha uma personalidade verídica que vai ser documentada sob um microscópio. E ao mesmo tempo que esta captura do momento distinto de três personagens seja objetiva e baseada em veracidades, também é subjetivo a partir da entrega do imaginário documental para acompanhar a abstração de pensamento dos personagens centrais, de mãos dadas com os quais acompanhamos a história. Estamos falando dos filmes “Fernando” de Igor Angelkorte, Julia Arani e Paula Vilela, “Inaudito” de Gregorio Gananian e “Madrigal para Um Poeta Vivo” de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho.

“Fernando” de Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela já havia sido conferido pelo Almanaque Virtual no 6° Olhar de Cinema em Curitiba/2017, e talvez seja o mais afetuoso dos três filmes citados. Acompanhando um casal homoafetivo de dois senhores de idade, a possibilidade de filmar estes seres como personagens centrais de uma narrativa cinematográfica dá a chance de desinvisibilizar e ressignificar uma história que talvez sem isso não viesse à luz. Um dos diretores, o também ator Igor Angelkorte, informa inclusive que seu personagem central, Fernando, já foi seu preparador de papéis e de muitos colegas de profissão, além de ter educado muitas crianças por meio das artes para que se realizassem melhor na vida como um todo. As artes podem salvar. E são as artes nas grandes e pequenas coisas que guiam a vida cotidiana do personagem. Tudo o que ele faz. De certo modo, até pela relação com seu companheiro em casa, é permeado por uma extrema complexidade em sua simplicidade doce, apesar de o roteiro dar mais subjetiva ao próprio Fernando do que ao companheiro.

Estes atravessamentos de soslaio, como de sexualidade e raça por parte do casal interracial, não necessariamente se preocupam em se autorreconhecer como questões afirmativas, apesar de que nem precisariam fazê-lo como tal: Ao existirem em tela, apenas pelo espaço que ocupam, já estão fazendo uma declaração nas telas. Porém, como o foco é bem mais no protagonista do que no companheiro, talvez fique faltando um pouco de pluralidade subjetiva que poderia ser melhor aproveitada, como no maravilhoso “Esse Amor que Nos Consome” de Allan Ribeiro. Neste, um resultado bastante equilibrado e feliz, também de um casal interracial do meio das artes, se fazia dividir a narrativa e os pontos de vista através de ambos parceiros, um o diretor artístico e outro o coreógrafo de uma Companhia de Dança que faz de um imóvel desutilizado na Lapa sua ocupação de resistência artística. O conteúdo político é claro e evidente, mesmo sem precisar ser pronunciado. Afinal, durante o filme eles enfrentam processos e pressões de despejo da casa a que eles estão dando função social e liberdade de comportamento social, como uma pequena utopia que abraça todos os dançarinos com quem trabalham.

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“Fernando” é lírico e também resiste em sua pequena vivência pacífica, nas praias de Niteroi ou nas rodas de samba da Lapa. Com uma câmera de fluxo, como se os três diretores soubessem onde deixá-la ligada e para onde apontar até que ocorra algo ímpar, os personagens vão simplesmente existindo. Mas é na cena final que alcança a bela catarse que justifica escolher e focar neste personagem magnético que é Fernando: um jogo de tabuleiro entre ele e seu companheiro de modo a exemplificar que nossas pequenas existências se tocam e são sentidas, mesmo que à distância e por afinidade de afetos.