Café Society

Confira como foi a recepção ao aguardado filme do mestre Allen

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26 de agosto de 2016

Alinhado com o drama, apesar do humor bem pontual, Café Society abre Cannes com o visual mais sofisticado da obra recente de Woody Allen

Diretor reconstitui a Hollywood e a Nova York dos anos 1930 acompanhando a jornada de sucessos profissionais e (des)encontros afetivos de um judeu promissor, vivido por um Jesse Eisenberg nas raias do esplendor

Assim como Berlim este ano abriu a disputa pelo Urso de Ouro com uma reconstituição histórica do passado de Hollywood, ao exibir Ave, César, os irmãos Coen, o Festival de Cannes 2016 onde o novo filme de Woody Allen estreou parecia ter escolhido uma trama sobre os primórdios da indústria cinematográfica quando anunciou como filme de abertura de sua edição número 69 a “comédia” Café Society, de Woody Allen. Sublinhe bem o termo “pareceu” e ponha negrito nas aspas de “comédia” porque esta produção orçada em US$ 30 milhões vai muito além de ambas as expectativas, vitaminada pelo que pode ser encarado como a fotografia mais sofisticada da obra recente do cineasta desde Match Point – Ponto Final (2005).

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Salta aos olhos a beleza dos enquadramentos na fotografia do romano Vittorio Storaro ao visitar a memória dos EUA nesta trama centrada na evolução financeira e afetiva de um personagem atípico na obra do realizador de Blue Jasmine (2013): Bobby Dorfman não é mais um herói romântico e sim um “herói do rendimento”. O termo vem da literatura do século XIX, da qual Allen é fã, e define figuras cuja jornada nos é apresentada pelas vias de sua escalada de trabalho por um lugar ao sol. É um traço típico das narrativas naruralistas, às quais Allen se reporta ao retratar a guerra pela sobrevivência numa Hollywood erguida à sombra da hecatombe financeira que foi o crack da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Este episódio não está na tela como informação factual, mas entra no clima um tanto melancólico – e sempre poético – do longa, traduzido no olhar desesperado de Bobby, crível graças à atuação encantada de Jesse Eisenberg.

Íntimo de Allen depois de filmar Para Roma, Com Amor (2012), o novo (e brilhante) Lex Luthor nos dá um protagonista complexo, que se desapega do patético habitual (e autoral) do diretor e apresentar Bobby como um sujeito de múltiplos desejo, mas de um só amor eterno (e eterno por ser, como Woody, defende sempre, mal correspondido). Sua paixão é Vonnie, uma heroína também distante da chave de passividade comum ao cineasta, mais feminista do que a média das mulheres retratadas por ele, alimentada pelos olhares melados e pela voz de leve rouquidão de Kristen Stewart. Mais sólida do que a musa anterior de Allen, o engodo de atriz Emma Stone, Kristen dá a Vonnie tridimensionalidade, liberando suas escolhas de maniqueísmos.

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Apesar do encantamento por Bobby, Vonnie ama o tio dele, o respeitado agente caça-talentos Phil, defendido com firmeza por um Steve Carell sem as caretas de sempre. O papel foi oferecido a Bruce Willis, mas este, fazendo Louca Obsessão na Broadway, não pôde filmar. Carell o substituiu bem, permitindo, a partir de sua figura autoconfiante, que Allen descortinasse a alta sociedade da América dos anos 1930 num meio tom de sensações, sem juízos morais.

Trata-se, afinal, de um filme mais investigativo e inquieto do que a linha convencional de Allen, que volta aqui sem certezas, num colorido mais sensual e trágico. Até violência e sangue tem, com o (delicioso) personagem Ben, gângster irmão de Bobby, vivido com esplendor por Corey Stoll, o vilão de Homem-Formiga. A partir dele, nota-se Allen interessado em abordar seu mundinho de amores por outras latitudes e profundidades dramáticas. E nessa escavação de paixões, ele nos dá um enredo virótico, que contagia nossa reflexão com digressões sobre a relatividade das emoções. Belo começo para Cannes.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4