Filme B com essências da Hollywood dos anos 1980 e alma 100% brasileira

Mistura de 'CopLand', 'Warriors' e 'Os imperdoáveis', o thriller 'Cano Serrado' garante à Première Brasil momentos de tensão em um filme do (e sobre o) Centro-Oeste, que faz um delicado estudo de personagens abrutalhados

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08 de novembro de 2018

 

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Rodrigo Fonseca
Certa vez, em uma visita ao “Programa do Jô”, Rubens Caribé foi saudado com um pedido do apresentador para que o público o aplaudisse com o empenho e o respeito que ele merecia por sua trajetória nos palcos de São Paulo – na noite do dia 7 de novembro, quem conferiu a sessão de “Cano Serrado” no Festival do Rio 2018 entendeu o entusiasmo de Jô Soares. Tem algo de inusitado na composição da asquerosa, porém magnética figura do Sargento Sebastião que parece não pertencer ao léxico habitual do cinema brasileiro. Há um tempo de distensão de espera nas falas, uma sensação quase brechtiana de distanciamento em seu olhar, um ar de fragilidade à moda Iago (de Othelo), disfarçado de velhacaria. É algo que havia na composição do Corisco de Othon Bastos, um filho de Brecht, e na guerrilheira encarnada por Dina Sfat em “Macunaíma” – paramos por aí. Caribé não afirma, ele sugere, insinua. Isso dá a um oficial fardado de impunidade múltiplas camadas morais, que vão sendo desfolhadas pelo diretor camada a camada. Isso dá ao segundo longa-metragem de ficção de Erik de Castro (“Senta a Pua”) uma dimensão inesperada (e positiva) de estudo de personagem, de análise de psiquê, e isso num mundo saído dos filmes de Charles Bronson, no caso, um Centro-Oeste mítico.

A trama parte de um vetor de revanchismo: Sebastião quer o escalpo de quem matou seu irmão, capturando pessoas respaldadas pela polícia da Capital. Mas as balas dele não dão bola para hierarquias.

CANO-SERRADO-Rubens-Caribé-SGT-Sebastião-2 7 Cano Serrado

É raro ver o cinema brasileiro investir na ação com desenvoltura. Erik Castro tem investido nessa trilha com muita eficácia. Ele volta agora com uma mistura de “CopLand” com “Warriors – Os Guerreiros da Noite”, com algo de “Os Imperdoáveis”.  Quem curtiu “Federal” (2010), o longa-metragem anterior do cineasta do DF, sabe que Erik de Castro é um hábil artesão na representação da brutalidade. Isso já seria suficiente para que se esperasse eficiência técnica de seu novo trabalho: “Cano Serrado”. Porém, ele nos dá algo mais agora… bem mais. É uma pesquisa arquetípica riquíssima, numa análise do Mal institucionalizado e do Bem encenado na forma da crença cristã em Deus acima de todos. Nisso, na vereda da fé, Jonathan Haagensen dá uma contribuição inestimável ao filme: em sua melhor atuação, ele empresta veracidade à figura de Luca, tira que abraçou Jesus e renegou a corrupção. Mas o pecado mora ao lado: a serpente ronda o Éden do Senhor, aqui na figura de Rubens Caribé destilando perfídia na pele do mais sórdido anti-herói do cinema nacional de ação. Um anti-herói às margens do que seu distintivo impõe.

Fernando Eiras tem mais uma memorável atuação como o delegado da Capital

Fernando Eiras tem mais uma memorável atuação como o delegado da Capital

Seu Sargento Sebastião é o Little Bill de um Centro-Oeste com ares de “Os imperdoáveis”. Um Gene Hackman candango que besunta seu pão francês de manteiga na opulência de quem tem pequeno poder.  Com “Cano Serrado”, apoiado nas dicas do bamba do thriller Edu Felistoque (de “Toro”), Erik volta ao filão policial a fim de dissecar a ciranda de traições nos bastidores do universo policial, apostando numa trama de vingança. E com direito a Fernando Eiras no elenco, sublime como sempre, na pele do delegado Marcos Sá, um Lee Van Cleef almofadinha.

Desde a primeira cena, empoeirada, turva, suarenta, o clima de filme b, tipo western spaghetti se faz notar na fotografia pardacenta de Edu Felistoque e Willian Pacini, adequada ao conceito estético que alinhava o longa. Estamos diante de uma releitura pós-moderna das cartilhas do cinema de ação clássica, na qual o personagem central beira a repulsa, de modo adorável e na qual as mulheres são empoderadas, agindo em prol do amor, do dever ou do benefício próprio do bolso, o que valoriza as atrizes Naruna Costa, Sílvia Lourenço e Cibele Amaral como Sergio Leone valorizava Claudia Cardinale. É um mundo só para os fortes – e força não escolhe gênero.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4