Filme de Domingo

Cheiro de livro novo

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30 de janeiro de 2021

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Filme não tem cheiro de livro novo. Filme não tem cheiro, pelo menos não ainda a experiência normal, apesar de já existirem algumas experiências 4D ou mesmo 5D… Contudo, na experiência tradicional do sensível, temos personagens que podem experimentar o cheiro, reagir a ele, e até mesmo nos proporcionar outros sentidos, como o som de cheirar um livro novo, que os espectadores irão escutar. Nós escutamos o que outra pessoa cheira. Sentidos diversos que se complementam numa imersão somada. Sem a adição de suas partes seria impossível alcançar o mesmo resultado.

Sobre soma e coletivos é que se faz o cinema de Lincoln Péricles, em geral representando uma visão à margem dos grandes centros urbanos, no bairro do Capão Redondo, periferia de São Paulo, feito com recursos e parcerias locais. Algo que por si só e por suas existências já seriam militantes de uma causa maior, e cujo cinema é um canalisador que pode potencializar a visibilidade e identificação com a mensagem. Não haveria a necessidade de nada mais para demonstrar o engajamento existente ali. Apenas existir. E, ao mostrar o que existe por trás das cortinas de realidades falsas do cinema, trocadas pelo cotidiano genuíno, pelo dia a dia da ordem do possível, tornaria o cinema mais humano e menos câmera.

É muito poderosa a forma de Lincoln fazer seu cinema, fundindo técnicas de documentário com ficcionalização narrativa, de modo a se tornar indissociável e homogêneo. Até mesmo recursos que poderiam ser tidos como engessados ou engessantes, como a narração em off, ou cartelas para descrever cenas por vir, se tornam redimensionamento e reapropriação da linguagem do status quo pela estética ativista de um cinema com reflexão – como até o grande Jean-Claude Bernadet já reconheceu em Lincoln uma renovação estética até dos arquétipos mais estereotipados, só que em algo novo .

Isso já foi objeto de verdadeiros giros Copérnicos no cinema, como “Ruim é ter que trabalhar” (2015) e “Aluguel: o filme” (2015), através de processos autônomos de educação pelo cinema, participando ativamente de sua comunidade com cineclubes e coletivos periféricos, em banquinhas de camelô etc. E até recebeu reconhecimento por seu cinema da Cahiers du Cinéma: “um cinema longe do imaginário ligado às favelas, que inventa sua própria forma, áspera e necessariamente imperfeita, entre intervenção e arquivo visual do bairro”.

Agora Lincoln abraça uma premissa que talvez poderia ser encarada como um facilitador, que é seguir o ponto de vista de uma criança incrivelmente carismática e nos apresentar este mundo a partir da pureza de seu olhar. Não apenas no roteiro, que foi escrito por Péricles junto com Adriano Araújo e Francineide Bandeira a partir de vivências combinadas entre o naturalismo e a autofabulação, porém também na própria direção, com cenas conduzidas pela câmera do celular da menina, em selfie, como se fosse um programa de youtube (e ela chega a pedir para se inscreverem no canal e curtirem seu vídeo). Não é a primeira vez que vemos essa perspectiva, como no excelente “Mesmo com Tanta Agonia” de Alice Drummond, mas vale ressaltar que neste exemplar de Lincoln estamos falando de outra identidade construída a partir das redes, outras performatividades, como da família em foco: um tio cirurgião e uma beatmaker (quem faz a batida da sonoridade da música) bem-sucedidos, provenientes de outras origens, e que validam com que a jovem possa sonhar em ser o que ela quiser e conquistar qualquer objetivo almejado.

E estas outras formas de experimentar a vida, esta outra fonte e origem do olhar traz outras potências a partir do ponto de vista infantil. Por exemplo, a incrível seqüência da economia familiar através do famoso pastel de feira – como, ao invés de comprar uma fruta, comprar um pastel pra sentir esse afeto por associação. – E, então, a câmera se distancia de modo a ampliar o escopo da feira tão rápido quanto depois retoma a proximidade em plano-detalhe, nos lábios da criança degustando o pastel intensamente, bem como acrescenta outras pessoas que trabalham na feira segurando a criança no colo, em planos-conjuntos, retomando a coletividade do plano, dos sentidos de vivências integradas na fotografia de Ronaldo Dimer. E isto não tem como mensurar de modo quantitativo, pois nada substitui seu valor qualitativo.