Fique Comigo

Dramédia francesa não consegue alcançar a profundidade pretendida

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04 de março de 2016

Em um prédio num bairro da periferia da França, o elevador sempre com defeito causa a interação de três solitários moradores com três pessoas cuja amizade seria bastante improvável. É deste argumento que parte o diretor e roteirista Samuel Benchetrit (“Eu Sempre Quis Ser um Gângster”), pouco conhecido no Brasil, em seu quinto longa-metragem “Fique Comigo”. Uma divertida reunião de condomínio inicia a trama e abre um leque de possibilidades de interessantes personagens que poderiam vir a ganhar destaque, mas apenas um deles ali tem sua história desenvolvida: Sterkowitz (Gustave Kervern) conhece uma enfermeira do plantão noturno após um incidente com sua bicicleta ergométrica que o deixou temporariamente na cadeira de rodas. Em outro andar, o adolescente Charly (Jules Benchetrit, filho do diretor) conhece a nova vizinha (Isabelle Huppert), uma atriz de cinema com idade para ser sua mãe, que está sempre ausente. Enquanto isso, o astronauta da NASA John McKenzie (Michael Pitt) despenca do espaço e passa uns dias no apartamento da imigrante argelina Madame Hamida (Tassadit Mandi), cujo filho está na prisão.

O filme de Benchetrit traz seis almas perdidas que sofrem do mal da solidão na cidade grande e se encontram por acaso, trazendo conforto uma para a outra. O título traduzido para o português, apesar de bem diferente do original “Alphalte” (asfalto, em tradução), acabou se encaixando muito bem no tema do filme: “Fique Comigo” denota a falta que os personagens sentem de uma companhia. Cada nova pessoa que chega à vida de um morador do prédio preenche um vazio: a enfermeira preenche o vazio de uma possível companheira, a atriz preenche o vazio da mãe do garoto e o astronauta preenche a saudade que a senhora sente do filho.

O longa de aura melancólica é todo pautado na ausência e no silêncio que a acompanha. Apesar da sensibilidade empregada na trama, fica a sensação de que falta algo que a complete, talvez a mesma sensação vivenciada pelos personagens. “Fique Comigo” parece uma montagem de curtas, em que nenhuma das histórias possui relação entre si e não funcionam juntas. Benchetrit desperdiça o enorme potencial de fazer do elevador um grande personagem do filme; no entanto, o deixa apenas como mero coadjuvante que participa um pouco mais ativamente de uma só subtrama. Por sua proposta diferente e seu ritmo lento, não é um filme que vai agradar ao grande público, e sim a um público do circuito alternativo. “Fique Comigo” é uma daquelas comédias dramáticas francesas que tentam ser profundas, mas que acabam ficando na superfície. Uma pena.

 

Fique Comigo (Alphalte)

França – 2016. 100 minutos.

Direção: Samuel Benchetrit

Com: Isabelle Huppert, Michael Pitt, Gustave Kervern, Valeria Bruni Tedeschi, Tassadit Mandi e Jules Benchetrit.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3