A Forma da Água

Filme de abertura do Festival do Rio 2017 é mais um imenso acerto de Guillermo del Toro

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07 de outubro de 2017

Guillermo del Toro se mostrou um excelente storyteller em sua obra-prima “O Labirinto do Fauno” (2006) ao transformar uma história que deveria ser muito mais triste e pesada numa fábula encantadora cheia de criaturas mágicas. Em seu novo longa-metragem “A Forma da Água”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2017, Del Toro traz diversos elementos do filme de 2006 para um romance singular entre uma humana e um ser aquático misterioso capturado na Amazônia pelo Exército americano; a começar pela narração em off no prelúdio contando a história de uma princesa em tom fabulesco por Giles (Richard Jenkins), o vizinho da protagonista.

Ambientada em 1963, em plena Guerra Fria, a trama acompanha Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda que trabalha como faxineira no laboratório secreto de alta segurança do Governo dos Estados Unidos, cuja vida rotineira e solitária acaba com a chegada de uma intrigante criatura – uma mistura entre “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e Abe Sapien, personagem interpretado por Doug Jones em “Hellboy” (também dirigido por Del Toro), que também viveu o Fauno e o Homem Pálido em “O Labirinto do Fauno”. Elisa cria uma conexão inexplicável com o homem-peixe e se arrisca, com a ajuda da amiga Zelda (Octavia Spencer) e do vizinho, para salvá-lo de um destino cruel.

A Forma da Água

Com uma trilha sonora impecável de Alexandre Desplat e uma fotografia escura belíssima em tons de azul e verde de Dan Laustsen, o romance de “The Shape of Water” (no original) se desenvolve de forma poética no roteiro escrito por Del Toro e Vanessa Taylor. A água em que Elisa quase morreu afogada após o nascimento é a mesma que lhe dá o sustento através da faxina e uma forma anfíbia pela qual se apaixona e muda para sempre a sua vida. A Elisa de Sally Hawkins parece uma versão de Amélie Poulain, tanto fisicamente quanto na engenhosidade, na timidez e na mudança de comportamento provocada pelo amor repentino. Doug Jones entrega mais uma vez uma ótima atuação com um trabalho corporal incrível, em perfeita sintonia com Hawkins, numa performance ao mesmo tempo potente e delicada, em que se entrega de corpo nu e alma como nunca antes.

Em meio à fábula romântica nada comum, Del Toro ainda encontra espaço para criticar, de forma sutil, o racismo, a homofobia, o militarismo e a cultura americana, além de quebrar o tabu em torno do sexo, tratando-o como algo tão natural quanto a água, sem precisar de cenas explícitas. Será muito estranho se “A Forma da Água” não figurar entre os principais indicados ao Oscar 2018.

 

Festival do Rio 2017 – Noite de Abertura

A Forma da Água (The Shape of Water)

EUA – 2017. 123 minutos.

Direção: Guillermo del Toro

Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg e Octavia Spencer.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5