Francofonia – Louvre sob Ocupação

Cacofonia narrativa na linguagem sobre a emoção universal de resguardar o Louvre como patrimônio mundial

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20 de agosto de 2016

O Mestre Aleksandr Sokurov já rendeu obras antológicas para a História do Cinema como a adaptação livre do clássico “Fausto” e a pedra fundamental “A Arca Russa”, versando sobre toda a história de sua pátria da maneira mais original que poderia contar: passeando pelas alas de um dos maiores museus do mundo, o Hermitage, em tempo real, ou seja, sem cortes, num grande plano-sequência só de 99 minutos, onde cada cômodo é adornado por caracterização e personagens da história russa. Aporta ao Festival do Rio 2015 sua última obra, “Francofonia” (“Francofonia, Le Louvre sous L’Occupation”), para, através da tentativa de fusão perfeita entre estudo/emoção e documentário/ficção, remir os pecados do mundo sobre a arte na 2ª Guerra Mundial, quando ameaçaram o mais notório museu do mundo, o Louvre, na França ocupada pelos nazistas. Daí o título “Francofonia”, devido à expressão que reúne costumes e culturas sob o manto da herança da linguagem francesa, e como o Louvre resguarda tesouros do planeta inteiro, salvar esta herança significa salvar a história do mundo.

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Para tanto, além de inúmeras imagens de arquivo da época, utiliza-se da dramatização fictícia de dois personagens históricos reais para guiar o espectador, outrora inimigos que se uniram em amizade para salvar o Louvre: Jacques Jaujard, diretor do museu na época, e o Conde nazista Wolf-Metternich, aqui interpretados respectivamente por Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath. Outros vários nomes envolvidos na construção e enriquecimento cultural do Louvre também povoam a tela, como Napoleão Bonaparte, responsável pela inclusão de inúmeras obras das mais importantes do museu, bem como o próprio diretor Sokurov que vira personagem nas cenas filmadas no presente, refletindo em metalinguagem sobre o próprio ato de filmar esta fase da História. E as desgraças da 2ª Grande Guerra também são longamente exibidas para prevenir que se repita o mesmo erro. Todas decisões louváveis de um gênio, que, no resultado da presente obra, talvez tenha exagerado um pouco no que nunca costuma incorrer, o didatismo das situações, já que em “A Arca Russa” uma das coisas mais originais era exatamente o conteúdo lúdico e abstrato com que corria pelas veias da história russa sem excessos explicativos. Deixava o público absorver tranquilamente as sensações.

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Porém, aqui, o ritmo reflexivo e pragmático, e sem agregar muitas informações novas à uma história já exaustivamente explorada, inclusive pelo cinema, podem cansar o espectador, sem falar que os vários segmentos narrativos não entram na melhor sintonia possível. Além disso, a parte romanceada na reconstituição de época não é um primor de interpretação, nem sequer ocupa tempo suficiente em cena para gerar empatia ou identificação com os personagens. Ainda assim, “Francofonia” do mestre Sokurov merece ser respeitado, pois todas as suas obras, da maior escala à menor, precisam ser resgatadas e ressignificadas à luz de sua constante relevância mutante.

Festival do Rio 2015 – Grandes Mestres

Francofonia (Francofonia, Le Louvre sous L’Occupation)

França / Alemanha / Holanda, 2015. 87 min

De Aleksandr Sojurov

Com: Louis-Do de Lencquesaing, Benjamin Utzerath, Vincent Nemeth, Johanna Korthals Altes, Jean-Claude Caër, Andrey Chelpanov


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