Frida Kahlo – A Deusa Tehuana

Espetáculo em cartaz no Teatro Glaucio Gil investe na pesquisa do teatro físico para chegar até a mulher por detrás do mito Frida Kahlo

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22 de janeiro de 2015

O que salta aos nossos olhos, em primeiro lugar, na encenação de “Frida Kahlo- A Deusa Tehuana”, de Luiz Antonio Rocha e Rose Germano, é a delicadeza e a profunda honestidade do material dramatúrgico pesquisado, e investigado, e a concepção cênico-teatral desenvolvida. Construindo caminhos nada convencionas, através da fisicalidade e do desnudamento literal da mulher Frida, a condução do espetáculo por Rocha, vai construindo diante de nós uma carpintaria cenográfica e geográfica, que acaba por nos levar fluentemente ao mito da grande pintora mexicana Frida Kahlo. Uma encenação ousada, atrevida, audaciosa, entretanto muito bem-vinda, para o redimensionamento do conceito teatral diante de regras teatrais tão convencionais, que servem hoje a muitos fazedores de teatro como uma “receita de bolo”. Basta-se juntar “x” ingredientes e, caso a “massa” não desande, o resultado será sempre o mesmo, com o acréscimo de um ingrediente novo aqui, uma cobertura ali, e por fim até uma cereja do bolo, como se esta fosse o grande achado de uma encenação.

Frida Kahlo_Foto de Renato Mongolin_02 - Copia

Composto por uma grande mesa, com cadeiras, e andaimes desmontados, a personagem Frida interage em vários espaços geográficos

Em “Frida Kahlo- A Deusa Tehuana” começamos pela descontrução, para chegarmos a construção de um rascunho de vida de uma grande pintora, que trazia junto consigo uma instigante e sofrida vida de mulher. Uma mulher que descobriu na pintura uma das formas de minimizar o seu sofrimento e calvário. Uma mulher diante de muitas dores, mutações físicas, amores conturbados, traição, morte, e que expressou com imensa verdade todas as cores fortes impressas em sua vida. O teatro jamais será a própria vida, assim a experiência de contar um pouco da vida de Frida, fragmentada através de seus escritos em diários, e buscando conexões corporais no teatro físico, nos proporciona uma viagem diferenciada, e única, em um universo cheio de silêncios, de mudanças de posturas vagarosas, de partituras físicas inusitadas, que são desenhadas diante de nossos olhos.

FRIDA © Renato Mangolin (ALTA) 004

As cadeiras, assim como todo o cenário, é utilizado através da significação e da resignificação destes poucos objetos cênicos, para contar alguns fragmentos da vida de Kahlo

A entrega da atriz Rose Germano à personagem Frida Kahlo é muito grande, e chama a atenção o seu desnudamento literal, e a sua capacidade corporal – atribuída ao ítalo-argentino Norberto Presta -, para atingir os contornos da mulher Frida, entretanto lhe falta em alguns momentos coloratura, modulação e verve. Mantendo a personagem praticamente, em todo o tempo, com uma mesma gama de intensidade física e emocional. E isso não diz respeito a timming, mas sim a uma partitura interna que move os impulsos, os pulsos,   os gestos, desta rica personagem. A luz de Aurélio de Simoni, o preciso figurino e cenário do artista plástico uruguaio Eduardo Albini, e a música  do violonista Pedro Silveira se integram harmonicamente a proposta de direção de Rocha. A entrada da projeção de um filme mudo sobre o gordo e o magro deveria ser refletida na encenação. Qual é a sua verdadeira função ao espetáculo? Abrir espaço para mais uma opção de multiplicidade de linguagens, dar um colorido audiovisual a cena teatral, ou dar um respiro ao trabalho tão essencial de interpretação da atriz? Trabalhos como este “Frida Kahlo- A Deusa Tehuana” são essenciais para a reflexão e o pensamento acerca da cena contemporânea.

Frida Kahlo_foto de Renato Mangolin_cena_04

A direção de movimento de Norberto Presta, comandada por Rocha, explora várias partes do corpo de Frida Kahlo


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