Fuga (42° Mostra de SP)

Psicanálise através de surrealismos do cotidiano

por

23 de outubro de 2018

Screenshot_20181021-014852

“Fuga” de Agnieszka Smoczyńska = Soberbo 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

Screenshot_20181021-014750

Drama psicológico da mesma diretora polonesa da fábula com toques de horror “A Atração” que fez um bom sucesso há duas edições atrás da Mostra e o qual jamais estreou no circuito brasileiro — ou seja, este novo periga também não estrear. Pena, porque a diretora é uma artesã de uma plasticidade ímpar para relatar o psicológico em frangalho de suas fortes protagonistas, que tentam se reconstruir contra a correnteza contrária do mundo sempre tentando derrubá-las novamente.

Screenshot_20181021-015038

Ela usa toda a sabedoria imagética de metaforizar o cotidiano através de um tratamento visual enriquecedor para contar desta vez uma história bem mais pé no chão do que em “A Atração”. Aproxima, assim, este “Fuga” de uma sessão gratuita de psicanálise sobre o peso do mundo colocado nos ombros da maternidade perfeita e como essa cobrança pode se voltar com juros contra a mulher e desagregar sua própria noção de identidade!

Screenshot_20181021-015016

A história começa aparentemente desconexa, com uma sequência impressionante acompanhando a protagonista desnorteada andar na linha do metrô, subir de volta para a plataforma e urinar em público na frente das pessoas aguardando o vagão. — Aliás, a mulher urinar em público é uma declaração metafórica muito habitual em filmes dirigidos não apenas por mulheres, mas por mulheres assumidamente feministas em suas linguagens e propostas, como em quase todos os filmes com pegada também surrealista da diretora brasileira icônica Ana Carolina (de cults como “Mar de Rosas” e “Sonho de Valsa”). Daí em diante esta mulher desnorteada será diagnosticada com o título do filme, fuga dissociativa, com perda da memória de modo a não conseguir agregar particularidades de si para remontar uma unicidade identitária. Só então começaremos a ser levados de volta à vida anterior que a fez chegar nessa instância descrita acima.

Screenshot_20181021-014931

Dolorosamente lírico. Vontade infinita de chorar. Mas uma vontade do bem. Um bom choro. De libertação. E desde já uma das interpretações femininas preferidas na Mostra, com uma mise-en-scène brechtiana. Uma análise minuciosa psicanalista e metafórica da desagregação da identidade da mulher na sociedade moderna. A diretora costuma ter gosto pelo horror psicológico e pela fantasia, mas aqui ela assume um drama sério e pé no chão onde a “fantasia” e o horror entram como estética reveladora do interior e subconsciente da personagem. Sem falar em seus enquadramentos lindos para reimaginar o lugar da mulher na sociedade moderna através do cinema.

Screenshot_20181021-014944

Segue abaixo para quem quiser encontrar também aqui no Almanaque Virtual uma crítica e coletânea de imagens destinada só à “A Atração”, filme anterior da cineasta:

http://almanaquevirtual.com.br/a-atracao/